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E Se Existisse Uma Nova Geração Beat?

Se acreditarmos no diz que disse e nos ecos provindos dos filmes e da Internet, Allen Ginsberg terá afirmado a certa altura que não havia propriamente uma geração beat, mas tão só uns quantos autores a tentarem ser publicados.

De facto, é difícil rotular com os mesmos conceitos-chave o quase-universo que é cada autor deste movimento mais-literário-que-artístico, o qual surgiu no início dos anos cinquenta nos Estados Unidos da América. Como tríade principal, e por principal entenda-se os mais lidos ou reconhecidos, temos Jack Kerouac, o já referido Allen Ginsberg, e ainda William S. Burroughs. E, como respetiva magnum opus, há que mencionar On The Road, Howl e Naked Lunch.

O que é a beat generation? Ora, uma vez mais fazendo-se jus ao diz que disse, foi Jack Kerouac quem, por portas e travessas (ou melhor, por ruas e becos), trouxe à tona a palavra beat, a qual sempre existiu, mas desta vez servia como uma espécie de marca dum peculiar grupo de indivíduos. Com efeito, beat nestes termos tinha que ver com cansaço – estar abatido e farto, falido até. Expressões como “beat to his socks” afloravam na época em certas comunidades e minorias. De certa forma, estava a continuar-se a ideia de mostrar o outro lado do sonho americano, o lado onde se vêem os circuitos, os parafusos e os restos de cola.

Contudo, espelho das almas inquietas e metamórficas desta geração, depressa surgiu uma rede de outros significados à volta do termo beat. Desde logo, beat como batida e tempo do jazz (lembremo-nos da influência do saxofonista Charlie Parker nas frases ora curtas e enérgicas, ora tão longas e poéticas na prosa de Kerouac). Beat a fazer lembrar beatitude ou beatific (“Holy! Holy! Holy! The world is holy!” como escreveu Ginsberg em Footnote to Howl). Beat a significar sympathetic (pois foi esta a resposta curta e direta que Kerouac deu numa entrevista em 1959, quando perguntado sobre o que significava aquele termo).

Na minha opinião, o facto desta palavra ter a si associados, neste contexto, tantos conceitos diferentes (mas não antagónicos) é importante
, dado que faz a escrita saltar para primeiro plano; até porque estamos a falar de um movimento literário para todos os efeitos. Cada autor pegou na sua parte de um conceito plural, mas mais ou menos comum, e fez nascer uma obra com as peças que foi recolhendo da sua realidade singular. Só o pano de fundo se mantinha estático: era o mesmo tempo, eram as mesmas cidades, era a mesma geração, era o mesmo país e o mesmo mundo.

Ao ler os trabalhos sob o selo deste movimento, nunca fiquei com a sensação que qualquer um dos autores estivesse a escrever contra um grupo de pessoas ou contra a sociedade em geral. Vê-los como vítimas não é correto. Neste sentido, pode ler-se num pequeno artigo no Oxford Dictionaries: “[m]ore than mere weariness, it [o termo beat] implies the feeling of having been used, of being raw. It invokes a sort of nakedness of mind, and ultimately of soul; a feeling of being reduced to the bedrock of consciousness”.

Ora, isto mostra o lado revolucionário-mas-passivo-e-santo destes intelectuais e escritores. Não há raiva nem palavras de ordem naqueles livros e poemas. Há sim celebrações, não muito efusivas às vezes é certo, mas celebrações. Por exemplo, celebra-se quem somos e não quem deveríamos ser. Celebra-se o ser humano com todos os seus defeitos e contradições e celebra-se ainda a tal santidade a que todos, em última análise, podemos ser reduzidos. Ainda assim, como acima afirmei, é errado tentar colocar todos estes autores debaixo dum teto comum sob pena de os limitar. Eles conheceram-se, partilharam histórias e episódios (veja-se a “autobiografia” da geração beat em And the Hippos Were Boiled in Their Tanks, de Kerouac e Burroughs), viajaram pelos mesmos lugares, tiveram amigos em comum e escreveram uns sobre os outros, porém, cada um, volto a dizê-lo, é um sistema próprio e inconfundível.

Todavia, explorando o ponto que nos trouxe até aqui, pode toda esta força de um movimento literário tão marcante ter sido somente poeira que já assentou? Será que, no tempo presente, só nos restam as reedições, traduções e a publicação esporádica de uns poucos inéditos? Infelizmente, creio que sim. Foi-nos deixada nas mãos uma nova visão (alusão à New Vision, o movimento pré-beat de Lucien Carr e outros companheiros) e uma liberdade que nós, no geral, e os escritores em particular, não soubemos utilizar e dar continuidade. Por um lado, ainda bem que assim o é, toda a arte precisa de um freio quiçá social para depois rebentar e surgirem novas ideias, novas vozes e novos estilos, mas é uma perda muito maior do que qualquer possível ganho. Tínhamos a porta aberta para, literariamente, crescer para onde quiséssemos; mais umas décadas e a prosa estava para ser reinventada por completo. A poesia estava a tornar-se praticamente um alimento, uma necessidade, uma bandeira, e uma espécie de redenção pulsava em tantos versos. E tudo isso, a meu ver, caiu por terra. Fizemos inversão de marcha, estamos a regredir. Hoje, voltaram os romances e novelas demasiado descritivos, vazios, produto de escritores-fábrica. Andam por aí novelescas pragas de cordel, gastos de folhas no escaparate. Perdemos a força e a base incríveis de uma geração (de várias aliás, do Rimbaud e do Whitman, por exemplo, que já vinham de trás a ganhar terreno) para alimentar a religião do storytelling. Uma grande parte das coisas que se escrevem hoje em dia são insípidas, não vêm de lado nenhum, nem do fundo de quem as escreve, nem do fundo da cidade lá fora. Ou vende ou não vende e escrever já não é uma necessidade, é mercenarismo.

Inovações à parte, não se enganem, pois os tempos são os mesmos. A luta de alguns, naquela altura, contra o marasmo devia ser também a nossa luta. E qualquer um sabe que hão de estar sempre em ebulição as questões existenciais do costume. Com ou sem telemóveis e computadores, não interessa, se sairmos à rua de olhos lavados vamos ver o mesmo mundo em que os beat habitaram, e o que os fez escrever daquela forma ainda anda por aí à solta.

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Afonso Castro

Estudante de Direito; "escritor" de coisas em www.asaladenaoestar.com e em @asaladenaoestar (instagram); autor do livro Os Consulentes (Editora Urutau); feroz apreciador de bitoques; leitor incondicional dos livros de António Lobo Antunes; e praticante da filosofia "A Vida É Um Poema do Bukowski".

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