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E pelos Estados Unidos de Trump…

Aquilo que ninguém pensava aconteceu. Donald Trump venceu as eleições presidenciais americanas. O mundo inteiro acordou em choque, pois toda a gente assumiu que a vitória de Hillary Clinton já estava garantida. Compensa, então, analisar o caso de estudo que é Trump, pois nunca houve um candidato como ele, e analisar as razões que levaram à derrota da candidatura do Partido Democrata.

Comecemos, então, pelo inicio. Donald Trump, magnata do imobiliário em Nova York sempre teve a aspiração de atingir o mais alto cargo da nação americana e sentar-se confortavelmente na Sala Oval. Tal como Churchill (perdoem-me a comparação), saltitou entre o Partido Democrata e Republicano conforme lhe convinha, passando ainda pelo famigerado Partido Reformista. Finalmente, decidiu-se pelos Republicanos e, em junho de 2015, apresentou formalmente a candidatura à Presidência. Num conjunto de 12 candidaturas, a de Trump foi sem duvida a menos esperada e a mais improvável.

Ao longo das primarias, foi recorrendo a ideias populistas, controversas e racistas para ganhar atenção. E conseguiu. E é aqui, nestas ideias, que temos de parar a primeira vez para analisar o tal caso de estudo que é Donald Trump. Comparando Trump com um candidato normal, alguém que dissesse que ia construir um muro para impedir os emigrantes ilegais de entrar no país, sofreria uma descida a pique nas sondagens. Com Trump aconteceu exactamente o contrario. Os números dele subiam e, quando confrontado com as suas ideias, havia sempre um jornalista que lhe perguntava se não as queria recantar, Trump deixava bem claro que queria dizer aquilo que tinha dito. E os números voltavam a subir. E é nestas afirmações racistas e controversas que surge a primeira causa da vitória republicana nas eleições de 2016. O nome de Trump passou a ser falado em todo o lado, seja isso bom ou mau.

Durante as primárias, Trump sempre afirmou que ia ser o nomeado republicano e que ia ganhar as eleições. Faz parte, um candidato tem de agir e pensar como se já tivesse ganho as eleições, porém, o notório aqui era a arrogância com que ele dizia isto. Como se já soubesse que ia ser ele o nomeado e o candidato vitorioso, não deixando sequer a hipótese de haver outro desfecho para as primárias republicanas. Esta arrogância e os ataques semi-pessoais aos outros candidatos republicanos que fizeram com que se posicionasse rapidamente na frente das primarias republicanas.

Vencendo estado atrás de estado, Trump parecia um comboio imparável e nada do que os restantes candidatos diziam chegava às noticias, nem nada do que o Partido Republicano tentava contra ele resultava. A “coroa” de nomeado-aparente chegou depois da vitoria no estado do Indiana, mas só seria nomeado oficialmente, durante a Convenção Republicana, em Julho no Ohio, um dos swing-states, que lhe dariam a vitória em Novembro.

Findas as primárias, Trump virou as baterias contra os candidatos democratas. Desde afirmar várias vezes que se fosse eleito presidente Hillary seria presa e de que Bernie Sanders não passava de um comunista, tudo servia de arma contra eles. Quando Hillary venceu as primárias do Partido Democrata, os ataques aumentaram e era bastante comum ver e ouvir os apoiantes de Trump a cantaram “lock her up”, em referencia ao escândalo dos e-mails. “Crooked Hillary”, como Trump lhe chamava, sempre se recusou a entrar no jogo de Trump e como tal nunca se defendeu com a mesma forca com que Trump a atacava. Poderá ser esta uma das razões da derrota democrata nestas eleições.

Apesar de todos os defeitos que Trump tem, há algo nele de refrescante para o mundo da politica: ele diz exactamente aquilo que lhe vai na cabeça. Seja isso bom ou mau. No entanto, aquilo que ninguém o pode acusar é de ser burro. Poderá não ser a pessoa mais inteligente à face da Terra, mas de burro Trump não tem nada. E isso notou-se na sua escolha para Vice-Presidente, uma vez que Mike Pence é um veterano da politica. É notório que Trump não tem um background em politica, portanto, teria de se rodear de pessoas que o tivessem, ou que soubessem navegar nos corredores do Congresso e do Senado. Os elementos que Trump escolheu para formar o seu Gabinete não deixam espaço para más interpretações sobre a força e orientação politica da administração. E ao mesmo tempo é extremamente controverso.

O Secretario da Energia será o antigo governador do Texas, Rick Perry, que até recentemente queria abolir esta Secretaria. O Procurador Geral será o Senador Jeff Sessions, alguém que ao longo da sua careira sofreu várias acusações de racismo. Temos também como conselheiro sénior e estratega chefe de Trump, uma posição equivalente à de um membro do Gabinete, Steve Bannon, que dirigiu o Breitbart, um site de noticias de extrema-direita. Contudo, nem só de controvérsia é feito o Gabinete de Trump. Veja-se o caso do General James Mattis, conhecido como Mad Dog ou The Warrior Monk, sendo amplamente conhecido como um dos melhores generais dos Fuzileiros.

Após a cerimónia de tomada de posse, é tradicional o Presidente fazer um discurso a delinear por alto as linhas mestras da sua administração. Trump voltou aos seus tempos de candidato primário e a única coisa que faltou no discurso foi mesmo a referencia a mandar prender Hillary Clinton. E logo no dia 20 de Janeiro começou a emitir Ordens Executivas, praticamente a torto e a direito, para desfazer o legado de Obama, para a construção do famoso muro, para congelar as contratações federais com excepção das forças armadas, entre outras. Já se brinca, com algum receio que possa vir a ser verdade, que a este ritmo o Congresso e o Senado americano se tornem inúteis. No entanto, toda esta atenção tem algo de bom. Trump e a sua equipa estão na mira de tantos grupos, políticos e civis, que não têm o luxo de poder falhar uma só promessa eleitoral.

Agora permitam-me uma previsão em jeito de conclusão. O marco dos 100 dias. Iremos ver cada vez mais Ordens Executivas e mais medidas controversas. Iremos ver um Trump igual a si mesmo, mas também lenta e calmamente iremos começar a ver os EUA com que Trump sempre sonhou. Resta saber se o sacrifício compensará.

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Manel Gabirra

Estudante da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no Curso de Línguas, Literaturas e Culturas. Grande apaixonado por automobilismo e política.

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