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É o embargo! É o embargo!

Esta semana, Obama anunciou a vontade de acabar com o anacrónico embargo político e económico dos Estados Unidos da América a Cuba, depois de mais de meio século. Na sua declaração, o presidente americano constatou o óbvio: ficou demonstrada a inutilidade do dito embargo. Está, assim, à beira de cair o último resquício da “guerra fria”, a qual alimentou as relações internacionais da última metade do século passado. A este propósito lembrei de um episódio passado no Floridita, em Havana, narrado no primeiro capítulo do meu romance O General de Todas as Estrelas Foi-se Embora Sem Ter Bebido um Trago de Havana Club, do qual transcrevo alguns excertos:

Entrei no Hotel Ambos Mundos, recentemente recuperado, na Rua Obispo, coração de Havana Velha, à boca da Praça de Armas. Logo ali, no salão de entrada, espaçoso e acolhedor, onde funciona um excelente bar, com mesas e cadeiras de bom mogno, paredes meias com a recepção, percebi que estava a entrar no passado.

Depois de alguma confusão sobre o quarto que me estava destinado, acabei por ficar no quarto 507, naturalmente, próximo do quarto 511, aquele em que Hemingway passou longas temporadas, desde finais dos anos trinta, no qual, dizem, concluiu Por quem os sinos dobram.

Hemingway, imaginei eu, nestas tardes pastosas e quentes de fins de Julho, contemplava por momentos, numa última mirada, antes de sair do hotel, da janela daquele quarto, uma parte de Havana Velha, o palácio dos Capitães Generais, que ocupa completamente um dos lados da Praça de Armas, mesmo diante dos olhos; depois, alongando o olhar, passava pelo castelo da Real Fuerza, perdia-se vagamente por toda a baía e detinha-se, finalmente, na fortaleza de São Carlos de la Cabana.

Em seguida, o autor de O Velho e o Mar atravessava o corredor, chamava o lindíssimo elevador, autêntica obra de arte e descia. Em baixo, já próximo da porta da saída, cumprimentava um a um, amigavelmente, os empregados do hotel que por aí encontrava. Calmamente, em passo lento, percorria toda a Rua Obispo, acalorado, a transpirar por todos os poros. Quando chegava ao fundo da rua, ali á esquina com a Rua Monserrat, já com a camisa de linho branco ensopada e a alma seca, transpunha a porta do Floridita, sentava-se no banco do balcão mais chegado à parede e no minuto seguinte, sem que tivesse tempo para fazer qualquer pedido, já tinha à sua frente um daiquiri, emborcando-o antes que lhe colocassem o segundo à frente.

Foi o que eu fiz nessa tarde pegajosa e indolente de fins de Julho de 1997. Saí do hotel e segui meticulosamente o percurso de Hemingway, como se fosse atrás dele, rua abaixo, seguindo-lhe o rumo. Queria voltar a beber a meio da tarde, acalorado, um daiquiri, mesmo sem poder ocupar o banco ao balcão mais chegado á parede, aquele em que Hemingway daiquiricava. Esse lugar, esse banco privilegiado, preferido por quem bebe muitos daiquiris (“despachei aqui dezasseis numa noite” – dizia Hemingway aos amigos que o visitavam em Havana, no Floridita, ao que Constantino Ribagua, mais conhecido por Constante, o barman, atento e sempre por perto, acrescentava de imediato: “record da casa!”) se transformou numa espécie de monumento, protegido com uma corrente, para excitar os turistas embasbacados que por ali passam, de máquinas fotográficas em riste.

Ao emborcar o primeiro daiquiri, sentado ao balcão, sozinho, lembrei-me de Guillermo Cabrera Infante, da sua novela Ela cantava boleros, onde o autor, sentado com Violeta del Valle numa mesa do Ciro’s, a cumprir os velhos rituais de quem a prepara para a conduzir à cama, lhe diz que se supõe ser o Floridita o centro universal do daiquiri e depois, a medo, porque ela queria uma Margarita, sugeriu: porque não pedimos, por exemplo, dois daiquiris? Fiz sinal ao empregado para que me servisse novo daiquiri, enquanto imaginava ali, ao meu lado, Cabrera Infante, com ar sério, a ajeitar os óculos que lhe escorregam pelo nariz, quando desperto submerso no fumo de um Habano Monte Cristo, saído da enorme boca de um nutrido gringo, de bochechas vermelhas, máquina fotográfica à tiracolo e uma ridícula camisa azul-cueca, salpicada de flores brancas, que mal abotoava na barriga, sentado ao meu lado, que vocifera porque lhe recusam o cartão de crédito e lhe exigem o pagamento dos daiquiris consumidos em cash. É o embargo! É o embargo! – Repete o barman sem parar, deliciado, com um largo sorriso, quase de orelha a orelha, enquanto mantém a mão estendida para receber os dólares que o gringo gorducho lhe vai dando, um a um, com gestos bruscos e ar de desfeita.

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Tomás Vasques

Advogado de profissão, não se deixou enclausurar em códigos e barras. Arrumado na prateleira da esquerda pela natureza das coisas, desenvolveu na juventude – ainda as mil águas de Abril não tinham chegado – gostos exóticos, onde se incluíam chineses, albaneses e charros alimados. Navegou por vários territórios: da pintura à América Latina, da escrita à actividade política. Gosta de rir, de cozinhar, de Roberto Bolaño, de honestidade, cerveja, conquilhas e peixe fresco. Irrita-se com a intolerância, o autoritarismo e vendedores de banha da cobra. É agnóstico. Apesar da idade, ainda não perdeu o medo do escuro, do sobrenatural e das ditaduras.

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