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E Foi Assim que se Despediu…

Existe uma cena inicial num dos episódios de How I Met Your Mother em que Lily Aldrin está a segurar uma máquina fotográfica descartável, um artigo antiquado que os alunos com menos posses costumavam usar para registar os momentos memoráveis da faculdade, no início do século XXI. É uma cena charmosamente antiquada (qual é o jovem de 20 anos que usa uma máquina descartável, na Era do iPhone?), mas é o recurso a esse saudosismo que assenta que nem uma luva numa série como How I Met Your Mother (HIMYM). A série que teve o seu derradeiro episódio transmitido no dia 31 de Março, ao fim de nove temporadas no ar, tem sido uma alma vintage no reino das comédias na última década e é por essa razão que a adorei tanto (apesar dos críticos gostarem muito de lhe lançar olhares matadores).

Desde 2005, o ano em que How I Met Your Mother estreou, as sitcoms têm-se tornado muito inovadoras em termos de conceito. 30 Rock espalhou pelo seu formato níveis nunca antes vistos de diálogos sarcásticos e de sátiras inteligentes, enquanto que séries single-camera, como o The Office e Modern Family, introduziram novos estilos de realização e sátiras aos reality shows tão em voga actualmente. Por outro lado, comédias de canais por cabo, como Louie e Girls, recorreram a situações realistas para atingirem uma pujança criativa que as demarcou das demais. Comparando-a com estas revoluções criativas, HIMYM, que recorria sempre à multi-camera e a gravações com risos, aparentava ser um piscar de olhos a uma era na televisão em o rei das sitcoms era Cheers. Aliás, para ser mais específico, a série aparentava ser uma versão com Red Bull da série Friends, uma vez que a premissa das duas é muito similar: cinco amigos que vivem em Nova Iorque passam uma quantidade exorbitante de tempo num bar (em vez de ser num café), gostam de se envolver emocionalmente uns com os outros e adoram envolver-se em todo o tipo de aventuras sem sentido, enquanto navegam pelo espaço que vai da adolescência e a maioridade. O que diferencia as duas séries é o facto de que, enquanto que Friends normalmente tentava suprimir os elementos mais foleiros da sua narrativa, HIMYM sempre demonstrou, sem pudores, o seu lado mais sentimental. Desde o seu título, ao seu enredo principal, a série sempre ofereceu ao espectador uma celebração sem cerimónia de uma personagem incuravelmente romântica e de quatro amigos que o apoiam incondicionalmente na procura da “Pessoa Certa”.

Esta tem sido a alma da série desde a sua criação. No episódio-piloto, Ted Mosby chega à conclusão de que não é capaz de estar solteiro, porque o seu grande objectivo na vida é o de se tornar num chefe de família, um papel que pensa assentar que nem uma luva nas suas qualidades de pai galinha e no seu desejo de ter uma vida calma e regrada. Apesar das temporadas que se seguiram terem demonstrado que Ted não está assim tão preparado para ser pai como pensa estar (chegando, em determinado momento, a ser descrito como alguém que deseja ardentemente ser mais sábio do que a sua idade permite, mas que ainda não alcançou esse objectivo), esta necessidade de ultrapassar a solteirice constrói a base temática da série. Numa era em que a maioria das pessoas constrói uma relação cada vez mais tarde, ou evita casar-se, a ideia de existir uma pessoa na casa dos 20 a viver numa das maiores metrópoles do mundo e que não deseja mais nada do que ter uma esposa e filhos aparenta ser um conceito ultrapassado. Contudo, HIMYM conseguiu criar uma nuance muito própria no facto de que ainda é possível querer almejar uma visão tradicional de felicidade.

A grande motivação da série nunca foi a forma como Ted iria conhecer “a mãe”, mas foi sim o conjunto de eventos que o levaram a tornar-se num sujeito digno de ser o marido de alguém. Antes de poder transformar-se no pai que narra a sua história aos seus filhos, ele teve de aprender, através de uma boa dose de maus relacionamentos com mulheres com quem tinha pouco em comum, a ser menos exigente consigo próprio e a deixar que o percurso da vida tomasse a sua forma. Os criadores desta viagem conseguiram pegar neste conceito sentimental e envolvê-lo com tramas paralelas ridículas e divertidas, como é o caso da adolescência no Canada de Robin Scherbatsky, em que foi uma estrela pop, ou o colega de escola de Ted que virou estrela porno e usa o pseudónimo Ted Mosby nos filmes em que entra, ou ainda Barney Stinson a fazer o que normalmente o Barbey Stinson fazia melhor.

Todo o elenco ajudou a manter um delicado balanço entre a doçura e a parvoeira. Jason Segel soube dar uma certa estranheza ao seu Marshall, uma personagem que se poderia ter desenvolvido de uma forma mais convencional e menos agradável de ver (algo como o Ross foi em Friends). Barney, cujo constante estado de excitação coexistia com um desejo desesperado de criar amizades com significado, foi a personagem que Neil Patrick Harris soube desenvolver ao ponto de se tornar numa das personalidades cómicas mais icónicas da televisão dos últimos tempos. Apresentado num contexto subversivo, as predileções de Barney (o seu amor por fatos feitos à medida e por bebidas caras) e as suas falhas (a incapacidade de conduzir um carro, ou de usar utensílios domésticos, como um martelo) chocam com a masculinidade estereotipada que tanto deseja alcançar. Josh Radnor, Cobie Smulders e Alyson Hannigan trouxeram igualmente personagens bem construídas para acompanharem as brincadeiras de Segel e Harris.

Apesar de ser composta de uma escrita inteligente e de actuações acima da média no que toca a sitcoms, How I Met Your Mother nunca recebeu a atenção que merecia por parte da crítica. Em nove temporadas, a série só foi premiada com uma única nomeação para os Emmys, na categoria de Outstanding Comedy Series, enquanto que, em termos comparativos, Friends recebeu seis nomeações e chegou a ganhar uma vez na mesma categoria. Desde 2005, os críticos e os votantes nas cerimónias de prémios têm estado muito ocupados a elogiar séries como 30 Rock e Modern Family, para notarem no trabalho excepcional desenvolvido por Carter Bays e Craig Thomas, os co-criadores de HIMYM, e pelos actores que deram corpo às cinco personagens centrais desta história. O que é uma infelicidade, porque, mesmo com os erros criativos que alguns enredos tiveram, os melhores episódios da série (como é o caso de “Ten Sessions“, “Hopeless” e “P.S. I Love You“) foram tão divertidos e tocantes como qualquer uma das sitcoms mais premiadas da actualidade.

Talvez o que tenha impedido que a série tivesse um maior louvor foi a sua imagem sentimental. A maioria dos programas de comédia de hoje em dia apresentam personagens de quem a audiência se ri, em vez de se rir com ela. Se viajarmos à pequena cidade de Parks and Recreation, ou olharmos para a dose semanal de momentos embaraçosos de Phil Dunphy, em Modern Family, reparamos que estas sitcoms, apesar de engraçadas, têm embutidas nelas uma certa noção de superioridade, uma vez que muitas das gargalhadas dadas provém da humilhação de algumas das suas personagens. Isto nunca foi o caso de HIMYM, cujo irrevogável mantra sempre foi: “estamos juntos nesta aventura”. Como os criadores da série fizeram um grande esforço para humanizar as personagens principais, atribuindo-lhes ambições reais e colocando-os em situações em que necessitavam uns dos outros para as ultrapassar, o espectador acabou por ser apresentado a pessoas por quem sentiam empatia, em vez de serem alguém de quem gozam. As suas melhores temporadas foram aquelas que se desenvolveram em torno de amigos que se juntavam para resolver os conflitos pessoais, como quando Lily e Marshall se reconciliaram, depois de uma separação parva, quando Ted e Robin conseguiram ultrapassar a estranheza de terem sido namorados, ou quando Barney volta a ter contacto com o pai que o abandonou em criança. How I Met Your Mother foi uma história sobre a amizade e o amor, algo que pode parecer muito mundano actualmente, mas é uma característica da qual a televisão ficou órfã com o termino desta série.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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