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E então é Natal

Desligou o chuveiro e enrolou-se rapidamente na toalha, aconchegando-se. Sentia-se um pouco mais relaxada, e permitiu-se respirar fundo de olhos fechados. Realmente, quem tinha inventado o banho era um génio! Aquela sensação de calor instantâneo na alma e de certeza que tudo se resolveria, o que quer que fosse, não tinha preço. Tinha saído de um turno terrível no hospital e para ajudar era dia 24 de Dezembro, e se não era meia-noite, pouco faltava. Natal. Odiava o Natal. Vestiu-se com pressa, por causa do frio, e penteou o cabelo em frente ao espelho embaciado. Secou o cabelo – e também o espelho, podendo ver a sua imagem – e saiu da casa de banho.

Sentiu imediatamente que estava alguém em casa.

Congelou.

Tentou pensar, mas a mente estava petrificada de medo. Estaria alguém nalgum dos quartos? Na cozinha? Ouviu um barulho que vinha da sala, e sentiu, de repente, a leve e fria brisa. Da sala vinham as luzes da árvore de Natal que tinha feito com os gémeos, mas sabia que eles não estavam em casa. O seu marido – ex-marido, tinha de se habituar a “ex-marido” – tinha-os levado a passar a Consoada com os avós, e só voltariam na manhã de 25 para abrir as prendas. Devagar, voltou para a casa de banho e pegou no secador. Ficar ali barricada ou enfrentar o intruso? E seria mesmo um intruso? Quem mais é que poderia ser? Decidiu sair com o secador; acreditava que tinha boa pontaria, por isso seria uma boa arma, caso fosse preciso.

Pé ante pé, foi até à sala. Abriu a porta de repente e gritou “quem está aí?”

O homem olhou para ela. Ela olhou para ele de boca aberta, queixo descaído e olhos esbugalhados. Confusa. O homem que olhava para ela tinha uma barba branca, roupas vermelhas e brancas, de veludo, e um chapéu vermelho que escondia uns cabelos brancos desgrenhados.

Ela gaguejou: “P-Pai Natal?”

Ele parecia tão admirado quanto ela. Disse um falso “ho-ho-ho”, mais em jeito de pergunta do que de gargalhada, e a seguir tentou sorrir. A boca preta, onde só havia dois ou três dentes amarelos, trouxe-a de volta à realidade. Claro que não era o Pai Natal! Mas ela tinha o quê, seis anos, para sequer pensar nessa hipótese?

“Quem é o senhor?” preparou-se para atirar o secador do cabelo, com o medo a voltar-lhe ao corpo.

“Calma, menina! Tenha calma, por favor” o estranho vestido de Pai Natal fez um gesto com a mão, como se quisesse proteger-se dela. Depois, quando viu que nada acontecia, fechou a janela e encarou-a. “Desculpe se a assustei…” o lábio tremeu-lhe e começou a chorar.

Ela olhou para o secador que tinha na mão e para o homem que chorava à sua frente. Por momentos não soube reagir, e sentiu-se ridícula. Imaginou que aquela situação daria uma história engraçada.

“Sente-se, senhor, sente-se” disse-lhe ela, apontando o sofá.

Ele sentou-se, ainda a chorar, e ela sentou-se ao lado dele. Naquela altura já tinha reparado que o senhor tinha quase idade para ser pai dela, e que estava muito magrinho debaixo daquelas roupas. Ele não seria capaz de lhe fazer nada, calculou. Sentia imensa pena – no hospital recebia imensos casos assim de mendigos e toxicodependentes, conhecia essa realidade.

“Já comeu hoje?” perguntou-lhe ela.

Ele abanou a cabeça, limpando o nariz com a manga do casaco de Pai Natal.

“Promete-me então que não vai sair daqui, se eu for buscar alguma comida?” por momentos acreditou estar a ser ingénua, teve medo que ele lhe roubasse a televisão enquanto ela fazia umas torradas.

“Quer ajuda?”

“Quero” respondeu sem pensar. Ia ser bom tê-lo debaixo de olho, só para garantir.

Ela abriu o frigorífico e encontrou restos do esparguete à bolonhesa que tinha comido com os gémeos no dia anterior. Tirou também um pouco de queijo, tostas, leite e manteiga. Pôs tudo na mesa, e fez sinal para que o Pai Natal se sentasse. Ele, sem precisar de autorização, obedecendo só à fome que carregava há uns dias, atacou imediatamente o banquete. Ela observou-o comer com gosto. Não tinha fome, mas agora, depois do choque inicial ter passado, sentia uma enorme curiosidade.

“Então e o que é que veio aqui fazer a minha casa?” perguntou, finalmente, depois de ele acabar o copo de leite.

Ele parou. Por momentos, um raio de medo passou-lhe pelo olhar. Depois, quando reparou que ela estava descansada, relaxou um pouco. Não lhe parecia que aquela senhora simpática fosse chamar a polícia naquela noite de Natal.

“Quer a verdade?” perguntou ele, derrotado.

“Claro! É dinheiro para a droga?” perguntou ela, indiscretamente.

Ele abanou a cabeça. Depois abanou-a para os lados e fez uma careta. “Metade era para o tinto, que não há outra droga que eu tome!” assegurou quase ofendido. “Mas a outra metade não. É que, sabe, eu tenho uma menina… uma netinha, com cinco anos… Oh, eles são a melhor coisa da nossa vida, não são?” e o sorriso dele foi enorme, e chegou-lhe ao olhar em forma de lágrimas. “Arruinei a minha vida e a dos meus filhos, mas queria mesmo oferecer alguma coisa à minha menina. Ela nem me conhece, o meu filho… pronto, compreende-se…” encolheu os ombros tristemente.

“Eu tenho dois rapazes, nada do que me roubasse da árvore adiantaria de muito…” esclareceu-lhe ela, um pouco ridiculamente, como se isso importasse.

“Ah… desculpe, é que vi as luzes e as prendinhas… Roubei há uns dias este fato com a ideia de impressioná-la… pronto, não sei o que me deu” explicou-se, enquanto coçava a barba.

Ficaram por momentos em silêncio. Depois, ele olhou para ela muito sério e disse “Menina, oiça o que lhe digo: se tiver amor e pessoas importantes na sua vida, não as deite fora. Não as desperdice. Vivemos muitos anos até descobrir o que importa, é pena.”

Ela assentiu, como se compreendesse. Não compreendia, de todo; nunca tinha sofrido uma perda tão grande que a sua cabeça e o seu espírito não conseguissem justificar e resolver, seguir em frente. Mas de repente, depois das palavras daquele mendigo que escondia em si uma grande sabedoria, daquela pessoa que de repente ela via como amiga, como um Pai Natal pessoal, sentiu uma enorme nostalgia. Levantou-se e foi até ao seu quarto; guardava umas quantas bonecas e peluches da sua infância. Levou-os até àquele intruso que agora parecia tão familiar.

“Tome. Não são novos, mas penso que a sua netinha gostará mais do que os jogos que comprei para os meus filhos.”

Ele pegou nos peluches e na boneca. Olhou-os estupefacto, depois olhou para ela, e no fim de novo para os brinquedos. Estava tão comovido que começou a piscar muito os olhos, as lágrimas prontas a cair.

“Obrigado, menina” conseguiu dizer, com voz doce e embargada.

“E agora oiça-me você a mim” disse ela, prendendo aquele olhar desconhecido. “Nunca é tarde para mudar e para mostrarmos às pessoas que amamos que já não as magoaremos. Agora vá lá ver a sua netinha, que daqui a pouco amanhece!”

Ele assentiu. “Feliz Natal, menina.”

“Feliz Natal, Pai Natal” sorriu ela.

E, desta vez, ele usou a porta da frente.

***

Eram onze da manhã quando ela ouviu a porta abrir. Mal tinha aberto os olhos quando os gémeos entraram no quarto dela, a correr, risos e passos cheios de felicidade, gestos hiperactivos, brilho no olhar.

“Feliz Natal, mãe!” gritavam, saltavam.

Ela riu-se e abraçou-os, e beijou-lhes o cabelo que cheirava a eles, aos seus filhos.

“Feliz Natal, meus amores. O pai?”

Eles saíram do quarto a correr, para o hall, em resposta à pergunta dela. Ela vestiu o robe e seguiu-os, tentando pentear-se um pouco antes de se cruzar com o ex-marido.

“Estão entregues” disse-lhe ele, sem olhar sequer para ela.

Os gémeos abraçavam o pai, e saltavam de volta dele, extasiados. Ele só tinha olhos para os filhos, tentando abraçá-los enquanto eles se mexiam e saltavam. Por momentos ela perguntou-se se seria desprezo ou sofrimento o que via nos gestos dele. Teve medo. Engoliu em seco e arriscou: “Feliz Natal”.

Ele olhou para ela, admirado: “Feliz Natal”.

“Tens planos? Não é grande almoço, mas pensei comermos pizza…”

Os gémeos gritaram e saltaram ainda mais: “Pizza! Pizza! Pizza!” Ela sabia que eles não gostavam muito de bacalhau, e também… porque não terem uma tradição só deles, fazer algo diferente que eles gostassem? O Natal não era felicidade?

Olhou para o ex-marido com expectativa, e reparou no bonito que ele continuava a ser.

“Não… não tenho planos. Se não te importares… eu gostava…” ele sorriu, timidamente.

Ela agarrou-o pelo braço e guiou-o para a sala.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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