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Downton Abbey: erros e anacronismos

Já estreou a quinta temporada de Downton Abbey, que poderá ser vista em breve em Portugal, estreando-se a 4 de Novembro, num dos canais por cabo. A acção da narrativa iniciou-se em Abril de 1912, nomeadamente após o naufrágio do Titanic, sendo que, nesta nova temporada, estaremos em meados da década de vinte do século passado, particularmente em 1924.

Provavelmente uma das séries históricas com maior audiência, é também uma das que tem revelado maior rigor histórico. Ainda assim e a propósito da recente sessão fotográfica na qual surge, em segundo plano, uma inexistente, à época, garrafa de plástico, relembramos alguns dos erros, ou incorrecções históricas cometidos ao longo das séries.

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Um dos tipos comuns prende-se com os cenários exteriores, gravados em Bampton, uma vila de Oxfordshire. Antenas televisivas nos telhados, cabos eléctricos, linhas amarelas pintadas na estrada, ou até mesmo sinalização vertical são alguns dos exemplos avistados. Quanto à banda sonara, também terão sido utilizadas músicas que ainda não teriam sido compostas à época.

Apesar de não tão óbvio, é o uso de palavras e expressões que seriam historicamente incorrectas naquele contexto, como a palavra namorado – “boyfriend”. Outras expressões, como “get shafted”, teriam surgido apenas após os anos 60.

Outras questões prendem-se com a atenção dada aos empregados. Para além de ser necessário um número bastante superior de funcionários para o correcto funcionamento da casa, segundo alguns, na realidade não teriam tanto tempo livre disponível e os seus aposentos seriam bem mais reduzidos. Provavelmente, mordomo e lacaios usaram preferencialmente uniformes e não casaca.

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A marcante cena da violação da criada Anna (Joanne Froggatt) seria, todavia, muito mais usual do que se pode pensar, embora os verdadeiros violadores fossem mais comumente os próprios patrões, que pela sua condição social, ascendência e poder, facilmente assediariam as mulheres ao seu serviço. Em contrapartida, o luto de Lady Mary (Michelle Dockery) não seria tão prolongado, visto que, sobretudo, após a Primeira Grande Guerra, não só com a morte da Rainha Vitória no início do século e o consequente fim do puritanismo dos valores então vividos, mas igualmente com o aumento do número de viúvas causado pela própria guerra, terão feito com que o período de luto encurtasse e um novo casamento fosse considerado natural e até desejável, principalmente no seu estrato social. Provavelmente, também teria maior poder de decisão no que respeita à gestão das propriedades, como viúva e tutora do seu filho menor.

Quanto ao romance de sua irmã Edith (Laura Carmichael) com um homem casado, efectivamente só apenas com o Matrimonial Causes Act, datado de 1937, é que questões como o adultério é que passaram a ser consideradas causas legítimas para o divórcio. Até então, a lei britânica em casos muito excepcionais é que previa o divórcio. Em contrapartida, a Alemanha já permitia o divórcio perante a alegação de insanidade incurável e permanente. Para isso, era necessário também que não apenas que o noivo se tornasse cidadão alemão, mas também a própria noiva, o que, após a Primeira Guerra Mundial, quando os nacionalismos políticos continuavam bastante inflamados, dificilmente sucederia.

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Pedro Urbano

Nasceu em Lisboa em 1979, tendo frequentado o antigo Liceu de Setúbal. Licenciou-se em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e é actualmente doutorado em História pela mesma Universidade, onde também concluiu o mestrado em História Contemporânea.

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