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Doutor Preciso de Ajuda

Podem esquecer o Star Trek e o Star Wars, porque o mundo da ficção científica tem um novo herói ao volante e o seu nome é Doctor Who. 2013 foi um grande ano para os aficionados pelo género mais geek por excelência, com a estreia do segundo capítulo do novo Star Trek, a confirmação de que novos filmes da saga Star Wars estão a ser desenvolvidos e o acontecimento de ficção científica mais importante – Doctor Who comemorou os seus 50 anos de existência. É ingrato afirmar que a série britânica é o que de melhor se faz na ficção científica actualmente, já que, em termos financeiros e em termos de consciência cultural, Star Wars e Star Trek levam a melhor e, apesar da série ter aumentado a sua popularidade desde que foi relançada em 2005, a maioria de vocês que me estão a ler preferiam voar no Millenium Falcon, ou na Enterprise, em vez de viajarem pela TARDIS. Porém, o que Doctor Who tem e que mais nenhum outro concorrente de ficção científica poderá ter é a sua capacidade de criar uma infinidade de histórias possíveis.

Doctor Who estreou na BBC em 1963, três anos depois de Star Trek e um dia depois do assassinato de Kennedy. O herói desta história é um Senhor do Tempo capaz de viajar pelo tempo e pelo espaço, recorrendo, para o fazer, à TARDIS, uma máquina que parece uma cabina telefónica, mas que por dentro tem o tamanho de uma mansão com dois andares. Quando se encontra perto da morte, regenera o seu corpo, criando um inteiramente novo para si (que é como quem diz: assim é mais fácil de trocar de actor principal sempre que necessário). Ao longo dos anos, o Doutor teve muitos “companheiros”, aliás, na maior parte das vezes, “companheiras”, sendo Sarah Jane Smith a mais famosa de todas, e também teve muitos inimigos, como é o caso dos Daleks, uma raça alienígena de robôs nazis, que pretende exterminar todas as outras raças e, assim, governar o universo todo. A série recorre a efeitos especiais terríveis, aos quais se junta uma despreocupação para com a lógica narrativa, mas o seu baixo orçamento é o que lhe permitiu alcançar aquilo que só a formiga consegue – construir algo grandioso, a partir de praticamente nada.

Depois de 26 anos a ser transmitida, construindo uma base de fãs muito sólida, Doctor Who foi cancelada em 1989. Contudo, em 2005, foi ressuscitada pela BBC e supervisionada, durante as suas quatro primeiras novas temporadas, por Russel T. Davies, um produtor fortemente influenciado pelas primeiras temporadas criadas em 1966. Em 2010, Steven Moffat, reconhecido pela sua reinvenção mais moderna do clássico Sherlock, tomou as rédeas da série e Matt Smith tornou-se no 11º Doutor.

A versão original de Doctor Who desenvolvia-se em torno de obsessões tão próprias da ficção científica, como é o caso de questões abstractas sobre o modo como a sociedade se organiza, ou qual a linha que separa as máquinas dos humanos, numa abordagem puramente racional ao conceito que a história do viajante do tempo e espaço tem, faltando um desenvolvimento mais emocional e humano. Era natural ver a personagem principal a viajar entre a civilização Azteca e Marte, numa tentativa de tornar a série o mais educativa possível, recorrendo a uma narrativa mais adulta e a uma visão colonial de um universo repleto de selvagens. Em contraste com a versão de Kennedy que era o Capitão Kirk de Star Trek, o Doutor original era um extraterrestre iconoclasta, com dois corações e com a capacidade de viajar sem limitações temporais, ou espaciais.

Esta versão de Doctor Who tinha o seu charme, mas a sua versão mais moderna tem uma visão diferente e mais apelativa – é uma série sobre relacionamentos, que não tem medo de criar e desenvolver uma mitologia própria. Existem muitos traços característicos da versão original, só que encontram-se revestidos de uma roupagem mais moderna. Por exemplo, existem piratas interplanetários, uma Inglaterra metálica em cima de uma baleia voadora e uma fábrica cheia de avatares operários, cujas caras se derretem como se fossem feitas de borracha. O próprio Doutor é um jovem génio, que muito viu e viveu, partilhando muitas das suas qualidades com outra das conhecidas personagens revitalizadas por Moffat, Sherlock Holmes, incluindo a sua afeição pela moda, ao insistir que as gravatas, coletes e chapéus de cowboys estão em voga. A grande força narrativa que esta série tem não se encontra, contudo, nos seus episódios isolados, mas nos arcos mais longos que interligam os vários episódios com um tema recorrente e que tem conclusão, normalmente, no último episódio da temporada.

A série também beneficia de uma consciência muito concreta da sua própria mortalidade, sendo que os conceitos de renascimento e renovação estão intrinsecamente ligados ao conceito que é Doctor Who, através da regeneração constante do protagonista. Um processo que, com o passar das temporadas, começou a ter alguma elegância, já que, cada vez que ocorre, é espectável que a série seja capaz de se recrear a cada nova incarnação do seu personagem principal e que esta estratégia seja suficiente para ajudá-la a manter-se actual. Esta renovação constante é também reflectida nos “companheiros” que se juntam ao Doutor nas usas aventuras pelo tempo e pelo espaço, que, apesar de não terem a capacidade de se regenerarem, podem ser substituídos com facilidade. Estas alterações nos personagens e nas dinâmicas entre os mesmos oferece à série uma capacidade ímpar de se rejuvenescer, enquanto narrativa, sem nunca alterar o status quo já estabelecido. Doctor Who, de muitas formas diferentes, foi crescendo até se tornar numa série dedicada à renovação e, recorrendo a uma expressão de outra série geek, à descoberta de novas fronteiras.

Cada série de ficção científica actual tem a sua obsessão e o Doctor Who de Moffat não é excepção, encontrando-se constantemente no seu enredo questões relacionadas com as viagens no tempo. Enquanto que o antigo Doctor Who lidava com estas viagens como um meio de transporte, executando saltos temporais de uma forma linear e não dando mais do que um salto por episódio, para o novo Doutor as viagens são um desafio filosófico e emocional, no qual se confrontam acontecimentos passados, ou realidades alternativas, em que se luta contra a noção de mortalidade e perda constante. “Sempre que nos encontramos, eu conheço mais dele e ele conhece-me cada vez menos. Vivo para ter os dias em que o vejo, mas eu sei que, todas as vezes em que isso acontece, ele estará, ao mesmo tempo, a ficar mais longe de mim”, diz River Song, a alma gémea do Doutor e que o acompanha nas viagens temporais, porém, em sentidos opostos. O abandono é retratado recorrentemente na série, em simultâneo com uma análise romântico do que significa a natureza humana. Exemplo disso é o episódio em que a TARDIS é transferida para o corpo de uma mulher e fica maravilhada com a experiência, dizendo ao Doutor: “Todos os seres humanos são assim? O seu interior é maior do que o seu exterior.”

Apesar de ter na sua estrutura uma ligação intrínseca à mudança constante, existe ainda um elemento que nunca muda em Doctor Who – a promessa de um final feliz. A série está em sintonia com a bondade do seu protagonista e é este facto que nos prende tanto ao ecrã, episódio atrás de episódio. Ao longo da história da televisão, a tendência de uma série ser bondosa para com as suas personagens e para com a sua audiência foi substituída pelo seu exacto oposto, mas esta série nunca se esqueceu das suas origens, onde que foi um programa educativo para crianças. Independentemente das voltas que o enredo dê, existe sempre a certeza de que os seus espectadores vão para a cama com um sorriso na cara.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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