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Doutor Estranho

Doutor Estranho pode não ser o melhor filme de super-heróis, mas mostra o quanto um filme pode ser divertido, mesmo que nos seus momentos mais negros.

“Não é Senhor Estranho, ou Senhor Doutor, é Doutor Estranho”, diz Benedict Cumberbatch numa determinada cena do novo filme da MARVEL Studios, após tantas personagens enganaram-se sobre como se dirigir a ele. O resultado é bastante eficaz, uma vez que coloca a audiência em risos. Noutra cena, Cumberbatch chama “Beyoncé”, ao guardião da biblioteca do local sagrado de Kamar-Taj e, novamente, a audiência risse. Ora, Doutor Estranho parece ser essa peculiar obra de entretenimento, que vive muito da comédia, e essencialmente, do lado literalmente comédico do seu ator principal, que se (re)apresenta a si mesmo no ecrã, juntando-se àquilo que Robert Downey Jr. fizera com Homem de Ferro, ao que Paul Rudd transmitiu com o seu Homem-Formiga, ou até mesmo Chris Pratt como um dos Guardiões da Galáxia.

Doutor Estranho

Daí, tal seja um facto cada vez mais curioso no Universo cinemático da Marvel, em que as personagens parecem sempre desempenhar o papel desses atores, das vedetas de Hollywood. Aliás, logo no início da projeção, quando vemos o nome da Marvel a surgir, confirmando-se como primeira e única distribuidora do filme, a sua designação vai-se montando com imagens dos atores que dão vida aos Vingadores. É um reavivar do star-system, hoje mais do que nunca, graças aos filmes de super-heróis. Mesmo assim, não só isso será justificação suficiente e plausível para tornar Doutor Estranho uma raridade cinematográfica. Este Doutor Estranho, não é apenas um iniciar de um novo mundo de heróis e vilões, é também, e sobretudo, uma ponte para que jovens e fãs tenham acesso a outros filmes do cinema contemporâneo que insistem na exploração do campo mais complexo da história da humanidade, um espelho (e que espelho) da própria sétima arte: o tempo. Não estamos diante de uma obra-prima, mas toda a equipa técnica esforça-se, da melhor maneira, para rebuscar, no baú das suas memórias, influências de obras de requinte.

Quer seja o tempo de Matrix e as suas cenas de combate que deixaram muitos espetadores boquiabertos em 1999, ou o tempo que o talentoso Christopher Nolan salienta em Inception (sobre o mundo dos sonhos) ou Interstellar (sobre viagens pelo espaço), Doutor Estranho faz-nos questionar, uma e outra vez, essa dimensão, que ninguém (a não ser que exista um ser superior), até agora conseguiu controlar. O controlo do tempo por parte do Doutor Estranho irá atestar, surpreendentemente, o contrário. Além de que este é alcançado com base na acomodação ao campo da espiritualidade, dismitificando as ditas ‘medicinas alternativas’ – grande parte das vezes relegadas para segundo plano, e rotuladas como seitas – vistas neste filme como algo mais familiar e, tão pouco, ou nada “weirdo“.

Doutor Estranho

Doutor Estranho começa a um ritmo acelerado. Logo na primeira sequência somos apresentados ao vilão Kaecilius (o impressionante Mads Mikkelsen), um anterior aprendiz da Anciã (Tilda Swinton, noutro desempenho em que quase passa despercebida) que está ansioso por desvendar o segredo da vida eterna. A seguinte cena, da perseguição, começa e deve-se a uma folhas que Kaecilius rouba de um livro, sobre poderes misteriosos e indecifráveis. Na cidade onde tal se sucede – Londres – os edifícios parecem ganhar vida própria, alternando no ecrã da direita para a esquerda, de cima para baixo. Aí temos a tão aguardada vertente bigger-than-life, que tem vindo a se esgotar no cinema do género, e que retomaremos adiante. Depois, saltamos para a luxuosa Nova Iorque do Doutor Estranho (voltamos a repetir, é assim que gosta de ser tratado). Stephen Strange é um brilhante, mas arrogante neurocirurgião que pensa trabalhar melhor que todos os seus colegas. Sem amigos, e apenas com bens de luxo (um veloz carro, uma invejável coleção de relógios e um apartamento soberbo), Doutor Estranho vive para a medicina e da medicina. Só a sua (ex)namorada Christine Palmer (a doce Rachel McAdams) é que lhe presta atenção.Depois de um acidente de automóvel que lhe retira as forças e que o deixa sem conseguir exercer a profissão, Doutor Estranho parte numa viagem de descoberta até ao Nepal, onde conhece a Anciã e outros mestres e feiticeiros como por exemplo Mordo (Chiwetel Ejiofor) e Wong (Benedict Wong).

Doutor Estranho

Na verdade, a narrativa de Doutor Estranho é tão simples quanto parece, por isso, até aos primeiros minutos de projeção, o espetador parece estar a assistir a uma sequência frenética de ‘dejá vu’s’, onde alguns erros de raccord são imperdoáveis e de fácil percepção. Contudo, quando o Doutor Estranho começa a perceber que não é um centro do universo, e tem de olhar além do horizonte e ainda que “tem de esquecer tudo aquilo que pensa que sabe”, a história começa a valer a pena. Na receita da Marvel junta-se a esses momentos, a ironia de um Cumberbatch com barba, que refere o melhor e o pior da cultura popular, confeccionando este filme como uma aventura perfeita para a temporada.

Realizado por Scott Derrickson (provavelmente até agora desconhecido e cineasta de filmes de terror como Sinister ou O Exorcismo de Emily Rose), Doutor Estranho tem mais de Homem-Formiga e menos dos três filmes aborrecidos sobre Capitão América ou dos dois filmes de Thor. Doutor Estranho é uma personagem bem explorada, que irá (alerta SPOILER!) perder o seu narcisismo para oferecer mais de si ao mundo. As questões filosóficas sobre qual a nossa função no planeta Terra e como melhor servir a humanidade farão o Doutor Estranho aprender o equilíbrio. Equilíbrio esse, que nas cenas de ação, terá de ter em atenção às decisões do seu Manto da Levitação, a sua relíquia.

Doutor EstranhoNo argumento, tarefa de Derrickson e de Jon Spaihts e C. Robert Cargill existirão porventura momentos sem nexo – como explicar, por exemplo como o Doutor Estranho sobrevive, sem implicações, aos minutos passados no gélido monte Evereste? -, todavia Doutor Estranho parece querer erguer algo que não víamos há algum tempo. Um aspeto paradoxal da obra serão claramente os seus efeitos visuais. Se, por um lado, na dimensão espiritual estejam a favor da narrativa, onde a ilusão ótica ganha robustez, por outro, quando o propósito do digital é conceder cenas exuberantes de ação, nem sempre os mesmos são excepcionais.

Repete-se, por isso, o que já tínhamos comprovado com Batman V Superman: O Despertar da Justiça ou com Capitão América: Guerra Civil, de que há uma dimensão de realidade virtual aumentada típica de videojogos. Onde estão os filmes de ação de outrora, onde os obstáculos nos efeitos privilegiavam o desenvolvimento dramático dos enredos? E veja-se ainda como o confronto entre aprendiz/mestre fica quase pelo caminho, em detrimento da luta contra o mal maior, fracamente próximo ao que foi exposto em Batman: O Início ou O Império Contra-Ataca. O aspeto verdadeiramente brilhante deste projeto é a sua banda-sonora de Michael Giacchino, que merece a devida atenção por parte do espetador. Nos momentos mais tensos, o pacifismo transmitido pela mesma, revela a paz que Doutor Estranho procura na sua alma. Já nas cenas de ação ou nos momentos em que loops são criados, a sua transcendência de  sons funciona bem.

Doutor Estranho

Enfim, Doutor Estranho pode até não ser o melhor filme de super-heróis mas trabalha alguns pontos interessantes, sobretudo no que toca a alguns membros do elenco (Cumberbatch, Swinton, Mikkelsen, Ejiofor e McAdams) que elucidam como um ator se deverá transformar na personagem, não se limitando a estereótipos e às diferenças prévias estabelecidas entre as forças do Bem e as forças do Mal. Não será necessário o mesmo equilíbrio para ser uma verdadeira estrela de Hollywood?

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Virgílio Jesus

Licenciado em Ciências da Comunicação e com Mestrado em Cinema e Televisão pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sou um apaixonado por cinema desde os meus 10 anos. Todos me conhecem como o 'viciado em filmes' porque na realidade estou sempre interessado em ter a sétima arte como tema de conversa.

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