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Crónicas

Domingo

Aos domingos ganho e perco idade, chego a zonas apenas ao alcance de quem começa a ganhar intimidade com a vida. Nesses dias há uma tristeza pequenina que me ronda e me anima. Julgo que nasci com jeito para a infelicidade e é difícil contrariar os nossos talentos naturais. Não sou feliz nem poderia ser porque sou lúcida, mas queria ao menos a alegria da busca. Ser alegre é leve e indolor, suponho. Em mim tudo pesa e magoa, a chuva miudinha que teima em distorcer a realidade, as pessoas que insistem em movimentar-se em câmara lenta, às vezes a voz do meu pai quase nítida, a voz frágil do fim. Talvez porque aos Domingos estivéssemos todos. Éramos 5.

Rememoro. Coisas pequenas, sempre, só elas têm lugar em mim. Pequenas dores, pequenas mágoas, pequenas gentilezas que ainda me comovem e sobre as quais pouso como pássaro, contemplativa. Ontem tinha 17 anos e era quase feliz. O mundo, esse lugar longe e desconhecido, pertencia-me. Hoje o mundo é perto e não me pertence. Cresci? Aos domingos perdoo-me, mas custa. Penso nas vidas que toquei para aliviar a dor. Terei tocado? Nestes dias uma vontade de ser Deus e arrumar o mundo, cada coisa em seu lugar, cada emoção na sua gaveta, cada amor efectivamente correspondido. Que fome de escapar à fraude da vida, romper a ditadura da normalidade e existir num espaço de verdade, o que quer que isso seja.

Aos domingos uma vontade de dizer que não estou, tirar a máscara e pousar sobre mim, passando a limpo o caderno da vida. Levanto-me, não me levanto? Levanto-me, não me levanto? Levanto-me, não me levanto? E fico. Domingo é ficar. Ficar diante de uma foto, de um espelho, de um tempo que já passou. Aos domingos as molduras ganham voz, passado e presente confundem-se, e a vida a caber inteira entre as paredes do meu quarto. Espero. O meu pai faleceu há 5 anos, portanto ontem. A sua voz frágil nítida de novo, agora ecoando na sala de espera onde a morte já rondava: “Quando me dá estas dores, apetece-me morrer filha.” E a vida a recomeçar do chão, outra vez.

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Telma Santos

Licenciada em Direito e apaixonada pela comunicação. Entendo que o olhar para o mundo e para a actualidade deve ser feito, sempre que possível, por dentro.

4 Comments

  1. Quierida Telma! Obrigada para esta publicación! Me ha emocionado muito! Ha movido mi alma…tan profundo. .tan sincero. .tan verdadero. .
    OBRIGADA!

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