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Dogville

Em Dogville encontramos a (quase esquecida) estrela Nicole Kidman num filme onde o realismo é alcançado pela respetiva ausência de realismo.

Dogville (2003) segue a bela Grace (Nicole Kidman) que, em fuga de um grupo de gangsters, chega à isolada cidade de Dogville. Com a ajuda de Tom (Paul Bettany), o auto-nomeado porta-voz da aldeia, a pequena comunidade decide escondê-la, por um período de duas semanas e, em troca, Grace aceita trabalhar para eles. Contudo, quando as visitas dos gangsters, polícias e agentes do FBI tornam-se uma constante, os habitantes suspeitam da pessoa que escondem e impõe um acordo mais rentável – a sua força de trabalho -, com Grace a realizar inúmeras tarefas e a ser alvo de violentos abusos sexuais, pelos homens do local. Com o tempo, Grace (a Graça que os habitantes recusam) sentirá, da pior forma, quão relativos são os conceitos de bondade e de honestidade em Dogville, mas o final, inquietante e inesperado, fará os cidadãos arrependerem-se das suas exigências.

Dogville

Desde logo, aquilo que se constata aquando da visualização deste filme (lançado em 2003, numa arrojada produção cujo financiamento foi partilhado entre Dinamarca, Suíça, França, Noruega, Holanda, Finlândia, Alemanha, Estados Unidos e Reino Unido), é como a chegada de alguém estranho (Grace tem um vestuário requintado, fala e expressa-se de modo diferente), pode perturbar um ambiente tido como familiar. Por aí é imediata a interligação ao teatro épico proposto por Bertold Brecht entre os inícios do século XX e, por sua vez, ao efeito de distanciação que o dramaturgo alemão defendia, presente de variadas maneiras.

Entretanto, o que faz de Dogville um filme tão importante para a história do cinema contemporâneo? Se retomarmos ao seu ano de estreia percebemos que Dogville é provavelmente o filme mais realista (ou que procura esse realismo num campo da imaginação/ilusão) de entre todos os outros filmes estreados. Decorria o ano de 2003 e Hollywood garantia o desenvolvimento acelerado do setor dos efeitos especiais. Não será difícil esquecer O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei (que acabou por vencer 11 Óscares da Academia) e o blockbuster de êxito Piratas das Caraíbas: A Maldição do Pérola Negra com Johnny Depp. 

No entanto, e ao contrário destes, Dogville não tem rostos modificados em computadores (CGI), o que não deixa de o tornar uma obra contemporânea deveras inesquecível. Nele são-nos apresentadas personagens de carne e osso a dar provas da sua arrogância, da sua bondade, do seu desprezo pela vida humana, e do seu amor (será?). Bem, talvez as características mais pejorativas sejam o elemento forte do filme. Ora, as relações humanas, que hoje em dia pouco importam quando qualquer filme de super-heróis chega às salas, Dogville convida a uma perda de humanismo e moralismo, em detrimento do egoísmo e bem estar privado. Ninguém se dispõe a ajudar Grace, porque neste mundo cada vez mais fechado sobre si mesmo, palavras como “outro” ou “outrem” sucumbiram do vocabulário.

Dogville

De facto, a percepção de Lars von Trier sobre o mundo é extremamente negativa, contudo, deixa de dar um passo em frente aquilo que já tinha apresentado nas obras cinematográficas do Dogma 95 – este tratou-se de um movimento cinematográfico lançado no manifesto de 13 de março de 1995, assinado em Copenhaga, a fim de contrariar a tendência mainstream que o cinema adotara -, como  Ondas de Paixão (1996); Os Idiotas (1998) e Dancer in the Dark (2000). Assim, o cineasta propõe um cinema puro, uma arte resistente a mudanças que retoma uma certa ontologia cinematográfica. Brecht é convocado, com todo o rigor, pela repetida contestação aos princípios burgueses, e por Dogville ser exatamente um corte do olhar do espetador com as produções somente americanas.

Em Dogville, von Trier propõe estimular o espetador ao questionamento das situações que se lhe apresentam e tocam o seu tempo. Destaque para a ação se desenrolar numa época preponderante da história moderna, a Grande Depressão de 1929, no qual os princípios do capitalismo são colocados em causa, com imagens de uma sociedade fragilizada financeira, moral e socialmente, como preconizado nas peças do poeta alemão. Referência ainda a um filme que também quer evitar a identificação à priori do espetador, dividindo a trama em nove capítulos – cada qual com um subtítulo – e um prólogo – também este marca de Brecht. Aliás, a câmara oferece-nos, logo nos primeiros minutos, uma vista de cima sobre a cidade, no qual percebemos que não se trata de uma região igual às outras. De imediato, falta à obra algum realismo cenográfico e o espetador distancia-se por estar em frente da planta geográfica daquele ambiente delimitado a giz no chão negro.

Dogville

Evidencie-se que Grace não é realmente protagonista da história, porque mesmo com grandes planos imersos na sua singularização, os planos gerais empurram-na sempre para a coletividade, para o meio social que tanto se esforça por assimilar.

Resta ainda pensar que Dogville é um filme que trabalha a dicotomia entre teatro e cinema, mas que não deve ser de todo entendido como teatro, posto que se assim fosse, o público estaria sempre à mesma distância do palco, o que nunca acontece, porque contém uma variedade de planos. Não obstante, pontua uma preocupação em trabalhar a relação entre os atores e os lugares. Aliás, como observado em Dogville Confessions (o documentário making-of), o filme foi rodado durante seis semanas, no interior de um estúdio na Suécia, segundo a ordem cronológicas dos acontecimentos, com o elenco a viver em caravanas e com enorme cumplicidade entre os atores. A valer, uma das exigências era que estivessem todos em cima do palco, em simultâneo, fosse qual fosse a cena e independentemente se teriam algo a dizer ou não.

Enfim, para além da variedade de associações que podem ser feitas, Dogville é um obra (um filme-ensaio) que merece ser vista e claramente revista (esperando que seja também reposta em sala em breve como aconteceu com recentemente com Barry Lyndon ou Dersu Uzala), nem que seja pela voz-off de narrador quase Deus, o único John Hurt.

Dogville

Ficha técnica
Ano de Produção: 2003/ Título português: Dogville/ Título original: Dogville/ Realizador: Lars von Trier / Argumento: Lars von Trier/ Elenco: Nicole Kidman, Harriet Andersson, Lauren Bacall, Jean-Marc Barr, Paul Bettany, Blair Brown, James Caan, Patricia Clarkson, Jeremy Davies, Ben Gazzara, Philip Baker Hall, Siobhan Fallon Hogan, Zeljko Ivanek e John Hurt/ Música: Allan Wilson/ Duração: 180 minutos

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Virgílio Jesus

Licenciado em Ciências da Comunicação e com Mestrado em Cinema e Televisão pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sou um apaixonado por cinema desde os meus 10 anos. Todos me conhecem como o 'viciado em filmes' porque na realidade estou sempre interessado em ter a sétima arte como tema de conversa.

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