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Do vinil ao mp3: viagem pela utopia musical

Quantos álbuns tem no seu computador? Quantas vezes por dia deixa uma música a meio, muda de álbum repetidas vezes, ou avança para outra faixa do cd? A era digital veio dissipar todas as questões à volta desta realidade e introduziu-nos a uma brevidade sensorial. A par disto, a agulha a tocar o disco de vinil parece uma realidade distante, mas que a memória ainda faz questão de emancipar.

Contudo, não é só a memória que nos lembra as prateleiras pintadas de lombadas finas de capas de álbuns. As vendas também confirmam: os discos de vinil continuam a ser um item cuja procura excede as expectativas. O fascínio pelo objecto e o seu significado continuam demarcados na sociedade actual, onde o digital impera sobre o analógico, mas onde a qualidade do primeiro não passa a segundo plano.

Se há magia que ainda recupera o analógico, é fácil lembrar o encanto dos discos de vinil: as agulhas que atravessavam os discos e percorriam toda a superfície de plástico preto, em ondas espiraladas, a música que tocava era de uma textura tão peculiar quanto a sensação de posse que agarrava os consumidores do vinil. Actualmente, quando as tendências se mantêm, não há necessidade de conjugar o verbo no pretérito imperfeito. O presente continua a ser (quase) perfeito para os coleccionadores e legião de fãs, que ainda têm ao seu dispor uma grande variedade de exemplares, talvez não tão actualizados quanto assim o desejam.

Afinal de contas, com tantas pessoas a gostarem do som do vinil, de que forma o formato digital entrou e se proliferou nas nossas vidas? A efemeridade e a pressa são ritmos certos que marcam esta realidade. O consumo do formato em cd e, mais recentemente, em mp3, fez crescer substantivos como “pequeno”, ou “portátil”. Para além disto, a mobilidade, o uso online, a possibilidade de fazer posts em redes sociais, ou mesmo a existência de aplicativos prontos a usar, fazem do mp3 um dos formatos mais “apetecidos” da actualidade. São milhões os discos que circulam na net, mas muito menor é a sua qualidade. Em detrimento da fidelidade sonora, os utilizadores reúnem uma biblioteca infinita com milhões de músicas desordenadas. Assim sendo, será que possuímos mesmo todos estes gigabytes de música? E temos noção daquilo que possuímos?

Na era digital, a reprodução de memórias já é possível: gira discos digitais ou portáteis, que permitem acender o sentido do vinil e ouvir as canções com o grão tão peculiar. No entanto, há quem afirme que, através do digital, se perde a sensação de posse, ou o gosto pela mão que passa em cima da capa e sente a marca invisível, redonda, do disco dentro dela. Os mesmos que defendem esta teoria, são adeptos, certamente, da ideia de calor e aconchego dos discos de vinil, que abrangem os sentidos e mergulham mais fundo na aventura musical. Os cantos das capas dobrados, os esboços feitos a tinta permanente, ou os rasgos na capa são um carimbo da vida dos discos. O analógico marca, assim, o “espaço que existe para guardar o tempo”, como afirma Eric Harvey. Se esse tempo se mantém inalterado, o século XXI ainda privilegia o formato analógico, como sinónimo de qualidade, nostalgia e experiência. E você?

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Ana Guedes

Entre o Porto e Leiria, estou sempre de malas feitas para partir, para ficar ou para conhecer. Apaixonada por letras, cultura, fotografia e o mundo, tenho como fio condutor vital as histórias: as que ouço e quero contar, as que vivo e quero escrever

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