Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!
CulturaCultura

Do berço à fé

Ao nascermos, o mundo é um aglomerado de cores, cheiros, texturas e sons. Estando desprovidos da noção de conceito, outros criam a ordem por nós. Médicos, enfermeiros, família e educadores juntam-se para estabelecer a disposição das tarefas que devem preencher o nosso dia-a-dia. Comer, beber, dormir e tomar banho fazem parte dessa lista diminuta, que se destina a alguém que pouco ou nada sabe além do que é a dor, por oposição ao conforto.

Esse conforto é proporcionado por fome saciada, boas mantas, boa roupa, um bom sono… Mas há alguém que alimenta, que agasalha, que veste, que embala até que o pequeno ser adormeça. E é esse alguém o primeiro locatário da nossa fé. Em condições ideais, mãe, pai ou cuidador está sempre presente para afastar a dor e garantir o conforto. É nessa pessoa que depositamos algo a que mais tarde chamaremos esperança.

Ao crescermos, o mundo continua a ser um aglomerado. Menos disforme do que antes, é certo, mas continua a ser um aglomerado. Para diminuir a indefinição que nos rodeia, acatamos ordens e criamos nós mesmo regras. Estabelecemos as nossas próprias tarefas diárias, ao abrigo do que os outros afirmaram ser o normal e, para não perdermos os primeiros locatários da nossa confiança, não nos distanciamos da massa.

Se porventura nos afastamos dos cânones, a indefinição multiplica-se. Ou encontramos, talvez, definição a mais, o que converte o resto do mundo em pixeis amorfos.

Porque é tudo confuso e incerto, alargamos a fé. Alargamos a fé à religião, à natureza, à ciência, à política, ao futebol, às artes, ao trabalho… Descobrimos fé em nós e descobrimos a fé nos outros. E as fés chocam, confundem-se, redefinem-se, substituem-se. Mas estão sempre connosco.

“Confia”, “Crê” e “Acredita” andam de mãos dadas com a fé. Andam de mãos dadas com a esperança. Desde que nascemos até que morremos. Afinal de contas, tem que haver uma razão pela qual existimos. E, enquanto não encontramos esse motivo, resta-nos ter fé. Ou talvez a fé seja ela própria a razão – a única que nos resta.

Tags
Show More

Florbela Caetano

Gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Gosto de pensar que os dois nos podem ajudar a viver num mundo melhor. Gosto de sentir que informar pode repor a serenidade no meio de caos. Deixo-me fascinar com a imagem e perco-me na escrita. Entre todas as alianças de universos ao nosso dispor, quero dizer as palavras e criar imagens com o som.

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: