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Literatura

Disse-me um adivinho

É o terceiro livro que me propus ler em 2019, seguindo a auto-promessa de que, este ano, iria ler um por mês. Comprei-o num devaneio, enquanto fazia horas para encontrar uma amiga em Lisboa, sendo que como resolução de ano novo – que já lá vai, meu deus! – me propus a não comprar mais livros, mas, em vez disso, dedicar-me aos que tenho em casa, completamente novos. Quebrei a promessa, claro está, e que bem que me soube.

Já conhecia este livro, através de uma amiga que, tal como eu, tem um fraquinho por viajantes misteriosos que se aventuram por esse mundo fora e nos trazem revelações tão íntimas e impressionantes que ficamos com vontade de largar tudo e ir. Só ir e escrever. Tenho para mim que foi um pouco essa a premissa que fez Tiziano Terzani, jornalista e escritor, embarcar na maior aventura da sua vida e que deu origem à publicação do seu décimo livro, Disse-me um adivinho, e que tanto me inspirou nas últimas semanas.

Este, de Terzani, é o meu primeiro e desconfio que não será o último. Enquadra-se na colecção de Literatura de Viagem – esse termo que só de si me apaixona – da Tinta da China, iniciada por Carlos Vaz Marques. Contém livros de autores como Mark Twain, Henry Miller, Werner Herzog e da portuguesa Alexandra Lucas Coelho.

Não conhecia Terzani, mas fiquei embevecida pela honestidade com que foi encarando as crenças e formas de vida dos que lhe iam surgindo no caminho, no ano – 1993 – em que decidiu, após premonição de um adivinho, não andar de avião. Tarefa que, na altura correspondente do Der Spiegel, encarou mais como uma lufada de ar fresco na sua vida do que propriamente mais uma obrigação chata que impusera a si próprio. Tal como não gosto, nem tenho por hábito, ver o trailer de um filme, não vou aqui desvendar qual razão que levou um jornalista italiano, há anos a viver no continente asiático, desprovido de qualquer crença religiosa, a acatar o conselho de um adivinho com quem se cruzara em Hong Kong. Essa descoberta é muito mais saborosa à medida que vamos avançando neste livro.

Posso dizer, isso sim, que Terzani revela, muito subtilmente, traços da sua personalidade e das suas próprias crenças. Na humanidade, sobretudo. Faz-nos um retrato do que, na década de 90, se estava a tornar o continente asiático. Numa cópia desesperada de tudo o que é ocidental, sem escutar as suas próprias raízes, o ritmo dos seus povos e das suas crenças. Pinta-nos um continente febril, com a ânsia pelo progresso e por todos os erros que se cometem em nome da modernidade, esse termo que, talvez erradamente, é associado à melhoria do estado das coisas.

Terzani faz-nos reflectir sobre o ser humano, o seu passado, a sua essência e, acima de tudo, sobre as ligações pessoais e emocionais com o divino que, já naquela altura, se estavam a perder. Faz-nos querer atravessar fronteiras a pé e sentir a vibração dos que estão do outro lado e são, invariavelmente, diferentes. Faz-nos sentir na pele as diferenças, faz-nos questionar velhos preconceitos, mas, sobretudo, leva-nos a percorrer um caminho de espiritualidade que julgamos perdido em nós mesmos e de como as relações entre seres humanos parecem resumidas a um único propósito: a procura da felicidade.

Não é um lugar comum este a que o autor nos leva. Pelo contrário: é um caminho de sabedoria, de simplicidade, de interrogações, de reflexões íntimas, de medos e de descobertas. Terzani mostrou-me a beleza da diversidade e de como é essencial nos conectarmos verdadeiramente a nós próprios e, por consequência, aos outros. Terzani deu-me tudo o que um livro me poderia dar: vontade de saber mais.

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Filipa Flores

Sou uma alma inquieta que gosta de andar pela sombra a observar e escutar, para aprender o mais que puder sobre as pessoas, a sua essência, os seus propósitos, gostos e inquietudes. Exprimo-me melhor através da escrita, à boleia do Antigo Acordo Ortográfico. Interesso-me por tudo e mais alguma coisa e gosto de ir em busca do desconhecido.

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