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Dislexia uma realidade desconhecida

Não se sabe concretamente quantos alunos em Portugal sofrem de Dislexia. Suspeita-se que sejam pelo menos 5,4%, segundo um estudo realizado pela Universidade de Trás-os-Montes, mas a Associação Portuguesa de Dislexia defende que o número “é muito maior”. Em 1968, a Federação Mundial de Neurologia definiu a Dislexia como “uma desordem que se manifesta pela dificuldade de aprender a ler, apesar da instrução ser a convencional, a inteligência normal e independente das oportunidades socioculturais”. Os problemas podem variar entre dificuldades de leitura, de compreensão, de ortografia ou até mesmo de matemática. A falta de informação sobre este problema está muitas vezes na origem do insucesso escolar das crianças disléxicas, uma vez que, por vezes, os professores e os pais confundem a Dislexia com a falta de atenção ou de empenho.

A leitura é um processo complexo, que envolve a descodificação e interpretação de um conjunto de símbolos, não sendo um processo natural, como é, por exemplo, a fala. Se para a maioria das crianças o processo ocorre de um modo agradável e sem esforço, para as crianças disléxicas, o acto de ler é um sério obstáculo para o seu sucesso escolar. Perante o alargamento da escolaridade obrigatória do 9º para o 12º ano, juntamente com as novas medidas educativas introduzidas pelo governo, cabe, agora, mais do que nunca, à escola, no geral, e aos professores, em particular, o principal papel de pedagogos.

A Dislexia, como perturbação que é, exige uma atenção especial, sendo imperioso, que os professores se actualizem e aprofundem, ainda mais, os seus conhecimentos, a fim de melhor avaliar e intervir junto das crianças. Caso contrário, os alunos que apresentam esta problemática são totalmente ignorados, o que a longo prazo pode acarretar consequências avassaladoras no seu percurso escolar, levando a níveis exorbitantes de absentismo e de abandono precoce. No caso dos que prosseguem os seus estudos, no 2.º e 3º ciclo e no ensino secundário, os sintomas de Dislexia tornam-se, em certos casos, “aberrantes”, tudo porque não foram tomadas as devidas medidas de prevenção, de modo a atenuar os seus efeitos.

Assim sendo, o papel do professor é preponderante, pois, muitas vezes, é o primeiro a detectar o distúrbio de aprendizagem. A atitude que adopta e os laços que cria com o aluno disléxico são cruciais para a reeducação deste último. Atitudes positivas, como elogiar, encorajar, destacar as “vitórias” em vez dos “fracassos”, privilegiar a avaliação oral, ensinar a criança a dividir as palavras longas em sílabas de modo a facilitar a leitura, repetir a informação várias vezes, individualizar o ensino, e respeitar e avaliar o aluno segundo o seu ritmo de trabalho, são algumas das técnicas que fazem toda a diferença.

A experiência de Helena Serra, Presidente da Associação Portuguesa de Dislexia, que provém de mais de 20 anos a dar formação e de quatro décadas a leccionar aulas, permitiu-lhe detectar “situações extremas no caso destes alunos”. Segundo, esta professora, “há escolas que se esforçam por oferecer os apoios pedagógicos dados de forma individualizada” nas disciplinas que o aluno apresenta maiores dificuldades, “através de professores e crédito de horas disponíveis”. Enquanto, que outras escolas, “que não dispondo de meios ou não valorizando estas situações, não facultam estes apoios e os alunos vão procura-los fora da escola, em respostas privadas, quando têm possibilidades económicas para o fazer, ou ficam sem eles, engrossando seriamente as estatísticas relativas ao insucesso e abandono escolar”. Acrescenta ainda que “são poucos os professores que obtiveram formação sobre esta problemática “, uma vez que, na sua fase inicial, não lhes foi dada formação, restando-lhes obter ao longo da vida autoformação. Finalizando, “ não culpo os professores por essa falta de formação, percebi que eles se afirmam radiantes por ter tido acesso a ela e decepcionados, porque consideram que todo aquele conjunto de saberes devia ter-lhes sido ensinado antes de iniciarem a sua vida profissional”.

A família, por seu lado, é por norma o elemento que melhor conhece a criança, logo, os pais, são elementos de extrema importância na identificação de estratégias e medidas eficazes para ajudar no desenvolvimento do filho. A falta de conhecimento das pessoas, aliada à rejeição, cria muitas vezes um ambiente de ansiedade, de inquietação e de zangas, prejudicial à criança. Exercícios criativos que incluem a memória, como por exemplo, ler em voz alta histórias infantis, usando a mímica, ou o teatro, falar de imagens, cantar músicas, são algumas das práticas que podem ser adoptadas. Ajudar na auto-estima do disléxico, fazendo-o acreditar que é capaz, também faz toda a diferença. A criança ou adolescente com Dislexia, ouve constantemente, que não é capaz, que é diferente, e o apoio dos pais acaba por funcionar como um elemento estabilizador.

O Estado Português é pouco activo ao manter-se à margem do problema, com a falta de apoio. Ainda, em Abril passado foi decretado pelo Júri Nacional de Exames a proibição da leitura dos enunciados das provas finais. Uma jovem de 14 anos com Dislexia, de Odemira, a quem lhe foi negada a leitura do enunciado da prova final de Português do 3º ciclo, acabou por não conseguir completar o exame por falta de tempo.

Face à enorme falta de conhecimento sobre este tema, as investigadoras Cláudia Tavares e Rosa Lima, decidiram escrever um livro intitulado: Dislexia – Actividades de Conhecimento Fonológico , com o objectivo defornecer informações preciosas a pais, a professores e a técnicos, que tenham que lidar no seu quotidiano com disléxicos.

Dislexia – Actividades de Conhecimento Fonológico, fornece, um conjunto de materiais que ajudam a potenciar o conhecimento da linguagem oral, de modo a facilitar a aprendizagem de um novo código – a linguagem escrita. As 108 fichas que constituem esta obra, divididas em quatro categorias – Consciência de Palavra, Consciência de Rima, Consciência Silábica e Consciência Fonémica -, permitem, deste modo, que a criança reflicta, conjuntamente com o seu educador, sobre as formas de oralidade, para que possa conseguir escrever correctamente. As actividades presentes neste livro revelam-se, também, essenciais para todos os professores e educadores de infância, na prevenção de possíveis insucessos escolares relacionados com a dificuldade na aprendizagem da escrita.

Várias crianças já foram ajudadas no desenvolvimento das suas capacidades, através dos exercícios desta obra, sendo considerada, por muitos, como uma excelente ferramenta no combate à Dislexia, que, muitas vezes, traz consigo problemas relacionados com a sociabilização. Não significa com isto, que os disléxicos sejam menos inteligentes, antes pelo contrário, crê-se que tenham outras capacidades extremamente desenvolvidas. Podem, por exemplo, privilegiar o pensamento com a imagem invés das palavras, ser extremamente intuitivos e ter uma grande imaginação. Pensa-se até, que personagens respeitadas da nossa história como Da Vinci, Miguel Ângelo, Pablo Picasso fossem disléxicos. Na actualidade, o actor de Hollywood, Tom Cruise é assumidamente disléxico, usando um recurso para decorar as falas, lê os textos, grava e memoriza auditivamente.

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Diana Rodrigues

Minhota de gema. Distraída. Aventureira. Gulosa. Crítica. Observadora. Anti rotina. Persistente. Sonhadora. Alguém que vê na evolução um objectivo. A escrita? É mais que uma fuga. É paixão. O jornalismo regional e a imprensa online são os intermediários.

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