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Diamonds are the Girl’s Best Friend

O que faz uma lenda? A resposta, em alguns casos, é a morte ainda na juventude. John F. Kennedy e Mohandas Gandhi, Janis Joplin e Diana de Gales, James Dean e Heath Ledger. Todos tiveram curtos períodos de vida na Terra, mas todo o tempo que não conseguiram viver entre nós acabou por ser vivido através do encanto que deixaram com as suas obras. Qualquer um dos seus admiradores aplaude todas as conquistas feitas por estas estrelas e choram a sua partida, questionando-se no que é que se podiam ter tornado, se não tivessem falecido tão cedo. Este sentimento melancólico também se aplica a Marilyn Monroe, cuja morte por envenenamento a 5 de Agosto de 1962 foi a principal notícia por todo o mundo e que se mantém viva na nossa memória colectiva, 52 anos depois. São poucas as estrelas que ainda conseguem ser relevantes ao fim de tanto tempo.

Sedutora, audaciosa, carinhosa. Poucas celebridades tiveram o impacto sísmico que a aparição de Marilyn teve em 1950, quando se estreou nos êxitos do cinema como Gentlemen Prefer Blondes, The Seven Year Itch e Some Like It Hot e em todas as capas de todos os tabloids do mundo. Aqueles que pensam que a saturação mediática foi inventada pela MTV e pela Era da Internet têm de compreender que, na década de 50, Marilyn era a Angelina Jolie, o Brad Pitt, a Lindsay Lohan e todas as Kardashians combinados numa única pessoa. O seu nome, a sua cara e as suas curvas estavam presentes em todo o lado, incluindo as páginas da revista TIME, que mencionou-a em quase uma centena de histórias, entre 1953 e 14 de Maio de 1956, quando publicou o seu artigo de capa com 4 333 palavras, intitulado “From Aristophanes and Back”. Nessa edição, a nota introdutória do editor referiu que 33 repórteres, em 26 cidades diferentes, procuraram aqueles que melhor conheciam a nova sensação do cinema e que, nos escritórios de Los Angeles, os jornalistas realizaram mais de 100 entrevistas. “No panteão pagão de Hollywood, Marilyn Monroe é a deusa do Amor”, escreveu Brad Darrach, um crítico de cinema da prestigiada revista. “Mais, tem demonstrado sinais de que se está a transformar numa boa actriz e muitos dos cépticos do cinema começam a pensar que ela se pode tornar numa actriz excepcional.”

Icónica para Hollywood como só ela soube ser, a sua história só poderia ter início num único sítio: Los Angeles. Filha de um pai ausente, que não a educou, não a protegeu, não a amou, e de uma mãe mentalmente instável, a sofrer pela ausência dos seus dois primeiros filhos, a jovem Norma Jeane Mortenson começou a sua vida a saltar entre inúmeras casas de acolhimento. Foi, aliás, num desses lares que uma das suas mães adoptivas, Grace McKee, um dia ela lhe confidenciou que ela seria uma estrela. Algo que demorou muitos anos a acontecer, mas que acabou por se tornar realidade. Ao longo dos seus 36 anos de vida, Fama era sinónimo de Marilyn Monroe, construindo um legado maior do que os seus 33 filmes, os seus casamentos falhados e a sua confusa vida pessoal. A sua transformação de uma desconhecida Norma Jeane numa actriz e bomba sexual reconhecida em todo o mundo representa a essência do sonho americano que muitos pretendiam alcançar. Numa quase impossível história real da Cinderela, assim que a sua metamorfose ficou totalmente completa, com a sua pele branca, lábios vermelho rubi, cabelos platinados e o corpo curvilíneo, Marilyn Monroe tornou-se no epíteto da beleza feminina.

Marilyn Monroe foi baptizada por Aimée Semple McPherson, analisada por Anna Freud, amiga de Carl Sandburg e Edith Sitwell, amada por Jack e Bobby Kennedy, retratada num quadro por Willem de Kooning, ensinada a representar por Michael Chekhov e Lee Strasberg e fotografada por Richard Avedon, Cecil Beaton e Henri Cartier-Bresson. Conseguiu, com um correcto uso de uma capacidade interpretativa limitada e no meio de um sistema que não premiava a ambição pessoal, trabalhar com alguns dos maiores nomes da história de Hollywood: duas vezes com John Huston, Billy Wilder e Howrd Hawks e uma vez com George Cukor, Joseph Mankiewicz e Laurence Olivier. Foi a primeira a ocupar as páginas centrais da Playboy e uma das primeiras mulheres a ter a sua própria produtora. Ficou reconhecida por praticar nudismo e por ser defensora do poliamor, muito antes destes conceitos estarem presentes na consciência social do mundo. Manteve uma relação muito singular com o exército norte-americano, que, só por si, conseguiu construir o seu estatuto mítico. Quando os Estados Unidos da América se envolveram na Segunda Guerra Mundial, tornou-se na noiva que esperava o regresso dos soldados que partiram para a guerra, aparecendo em publicidades e viajando a países como a Coreia para aumentar a moral das tropas. Foi a primeira celebridade a falar abertamente sobre os abusos sexuais que sofreu em criança, algo que se tornou tão comum nos dias que correm, que nem somos capazes de perceber a importância que este acto teve. No entanto, para os jornalistas da década de 50, admitir, sem qualquer forma de vergonha, mas sim com uma fúria justificada, que se foi vítima de violação aos 8 anos de idade tornou-se num refrescante acto de auto-proclamação.

Poucos são os adultos que sentem uma vontade avassaladora de se tornarem em grandes leitores, mas poucos adultos são como Marilyn, que, mesmo tendo sido diagnosticada com dislexia, tentava vezes sem conta ler os grandes clássicos da literatura. Pode nunca os ter terminado, mas tinha consciência que a leitura era um acto nobre e muito importante, procurando sempre que possível aventurar-se pelo mundo das palavras. Quando faleceu, entre as suas posses, existia um elevado número de livros – Turgenev, Dostoyevsky, Robert Frost e William Blake. Por isso, era reconhecida por ser aquela que sabia esticar as convenções sociais de 1950, que gostava de andar nua, usando apenas um baton vermelho forte, mas, mesmo assim, era a actriz de Hollywood que mais se interessava por desenvolver o seu próprio intelecto e a sua cultura, empenhando-se em aprendizagens metódicas que a permitissem evoluir tanto como actriz, assim como mulher. Ela amava cães, gatos e crianças, mas, como não era capaz de construir um núcleo familiar, forçava a sua inserção nas famílias dos outros, acabando sempre por espalhar o caos no seu seio, com as suas drogas e os seus anseios sexuais. Quando lhe diziam, no início da sua carreira, que não tinha o que era necessário para ser actriz, ela, teimosamente, respondia que “se 100% dos especialistas lhe diziam que não tinha qualquer talento, então é porque todos estavam 100% enganados.”

E de repente, sem aviso, poucos meses depois de ter feito 36 anos, Marilyn havia desaparecido do mundo dos vivos e nunca a Morte havia sido tão doce com um legado, como foi com o seu. Billy Wilder estava correcto, quando afirmou que ela sempre teve um timming fabuloso. Logo após o seu último suspiro de vida, a cultura que ajudou a criar começou a afastar-se de tudo aquilo que ela representava. Nos anos que se seguiram, a sua figura representava um tipo de mulher que ninguém pretendia ser, exilando as suas representantes em programas de variedades na televisão e em papéis sem relevância. Assim começou a hibernação de Marilyn Monroe e o mundo que a viu nascer começou o processo de esquecimento da sua diva sexual. Durante esse período, Elizabeth Taylor rodeava-se de uma irrelevância sexual predominante na época e a música dos BeatlesWhy Don’t We Do It in the Road” falava de uma sexualidade que, aparentemente, era estrangeira àquela que Marilyn pretendia atingir. O tempo passou, passou e passou, até que chegou o maravilhoso ano de 1973 e Marilyn Monroe foi resgatada pela equipa de salvamento mais estranha da história: Bernie Taupin e Elton John.

Cantava-se “Candle in the Wind”, pela voz de Elton John e a letra de Bernie Taupin, uma música que soube colocar a actriz como alguém profundamente relevante para os jovens. Uma tela em branca, representando um género de dor e revolta injustificada com que os jovens da década de 70 poderiam partilhar os seus anseios e tristezas. A música evoca um estado emocional muito particular e facilmente reconhecido na literatura de Truman Capote e Tennesse Williams, celebrando os ardores que uma bela mulher sente, ao viver dependente sexual e emocionalmente da força bruta de um homem. A música tem uma lógica interna muito coerente, apesar de não se interligar com os factos reais da vida de Marilyn Monroe. Ninguém a obrigou a fazer exercício físico, ninguém fabricou a estrela em que ela se tornou. O crédito das vitórias que conquistou só pode ser dado a uma única pessoa: a ela própria, que trabalhou arduamente para ter a fama que alcançou. No entanto, o que conta é o sofrimento que teve de ultrapassar para chegar a esse ponto. É a ideia de uma força malévola a enviar uma delicada alma numa jornada sombria que torna a música magnética e que conseguiu tornar Marilyn Monroe numa das maiores estrelas de Hollywood que alguma vez existiu.

Marilyn tinha a imagem das actrizes da Era do Cinema Mudo. Sabia ser manipulativa e doce, inocente e sem escrúpulos, excêntrica e melancólica e, acima de tudo, desesperadamente só. Essa era a sua verdade. Sempre foi a rapariga a quem foi negado um doce em criança, o bebé abandonado em casas de acolhimento, a órfã revoltada e a mulher que se punha nua em frente às câmaras sempre que lhe apetecia. É quase impossível não sentir a sua dor, quando foi abandonada e forçada a ficar, aos 9 anos, na porta de um orfanato, ou de sentir orgulho, no momento em que ela, com 20 anos de idade, se mudou para a sua primeira casa e soube limpar as suas lágrimas, parar de acreditar nas realidades feias que este mundo tem e decidiu viver sobre o seu próprio conjunto de regras, que seguia religiosamente. Se 100% dos homens lhe diziam que não tinha qualquer talento, ela decidia que 100% deles estavam errados.

Marilyn Monroe continua a ser, juntamente com Charlie Chaplin, John Wayne e Groucho Marx, uma cara de Hollywood que é instantaneamente reconhecida. Continua a representar um género de feminismo, uma heroína de outro tempo, uma anti-heroína. A submissa. A maliciosa. A influência e a inspiração sedutora. De uma forma estranha, ela é um género de Hollywood antigo, que sabe manter-se fresca num mundo do cinema completamente diferente daquele em que surgiu. Como Elton John resumiu no seu êxito de 1973, “candle burned out long before her legend ever did”. No entanto, de certa forma, a sua vela nunca chegou a apagar-se, apesar do seu corpo ter desaparecido. A mulher de carne e osso há muito que não se encontra entre nós, mas a sua chama continua viva, como no dia em que começou o seu percurso. O seu carisma sabe mantê-la viva como se fosse uma vela que brilha eternamente e, só por isso, Marilyn Monroe irá permanecer brilhante para sempre.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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