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Devemos ter orgulho das nossas cicatrizes

Agora já viam televisão juntos e falavam a noite inteira, jogavam às cartas, bebiam cerveja ou Bailey’s, ou qualquer outra bebida que encontrassem em casa. O álcool descontraía-os, deixava-os a rir juntos e a falar muito, rápido, filosofia profunda e empatia megalómana. Por vezes até conseguiam chegar a um acordo, no meio dos seus aforismos! Agora, ela aceitava-o; fazia parte dela, tinham tudo em comum, mesmo que ela tentasse negar. Olhava para ele, e de volta para o filme. Olhava para os seus próprios braços, para a sua pele, olhava às vezes para o seu interior, e tocava nas cicatrizes como se tocasse no mais fundo de si. E não são as cicatrizes, pele superficial, o que de mais fundo temos?

Depois olhava para ele, de novo. Ele, distraído a comer pipocas enquanto via o filme. Ele, que tanto e tão pouco fizera por ela. Nos dias bons, discordavam. Ela sentia-se dona dela própria, sentia que tudo estava claro, que havia luz, era feliz e sabia quem era e o que queria. Ele não a assombrava. Havia até aqueles dias em que não pensava nele, não se lembrava dele, talvez só dissesse “olá”, reconhecendo que ele estava ali mas sem lhe dar importância. Ou, até, conseguiam passear juntos, de mão dada, em silêncio. Mas nos dias maus… nos dias maus, ele consumia-a. Ela só lhe podia dar razão, tinha de concordar com ele. A luz parecia longe e a felicidade uma utopia, algo que lhe roçava a alma mas nunca a envolvia, nunca lhe chegava dentro, ao coração. Arrepiava-se só de se lembrar desses dias negros, em que nada restava além de se abraçar a ele e deixar que as palavras venenosas definissem os seus sentimentos, que a definissem por completo.

Agora, enquanto viam um filme, ela olhava para ele e segurava-lhe a mão. Dava-lhe a mão com força, com segurança, para ambos saberem que não tinha sido sem querer. Aquele toque, aquele aperto, tinha toda a força do que ela era e do que ela conhecia. Sorria, quase ronronando de satisfação como um gato; gostava de estar de bem com ele. Olhava para ele com orgulho, olhava para ele com orgulho principalmente nela própria, porque hoje ela sabia quem era.

Ainda se lembrava da primeira vez em que se tinham visto. Talvez ela tivesse quatro anos. Sentia-o, sem o conhecer ainda. Pedia ao pai para ver debaixo da cama, pedia à mãe para dormir com ela. Eles olhavam e procuravam. Olhavam, mas não o viam. E beijavam-lhe a testa, tentando acalmá-la. Olhavam, mas não viam o monstro que estava debaixo da cama. O monstro que estava debaixo da cama, ou dentro dela, ou nos ombros dos pais, ou no mundo inteiro. Os pais beijavam-lhe a testa, pensando na sua imaginação fértil, e deixavam-na sozinha no quarto com ele, sozinha no escuro com ele. Ela tinha tido medo, mas só ao princípio. Depois, começou a jogar com ele, a ver televisão, a dormir com ele. A aceitá-lo, pouco a pouco. A aceitá-lo, porque a vida tinha-se tornado mais bonita e natural desde que ela e o seu monstro decidiram tornar-se amigos.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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