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Desencontrados

O que dizer de duas almas que se desencontram?

Cruzaram-se no corredor pela enésima vez. Ele conhecia cada traço das feições dela, cada sorriso luminoso, cada olhar distante que sabia carregado de vida. Cada fio de cabelo era uma razão para gostar dela. Cruzaram-se e cumprimentaram-se. “Olá, tudo bem?”. Vozes de um coro impessoal ensaiado pelo instinto daquele momento exacto em que não sabem bem como reagir. Eras-lhe comum. Cruzavam-se várias vezes, mas nunca havia mais tempo do que aquela frase partilhada em modo de conforto, em imagem de um desejo inexpressível.

Ele talvez mais desperto na vida ansiava novas cantigas que de galanteio lhe surgiam em sonhos. Conhecia-a de cada cruzamento de olhares naqueles desencontros. Sorriam e em cada sorriso aprendera a reconhecê-la. E que que lição tão bem conseguida. Passavam-se semanas e meses sem se voltarem a cruzar, mas as curvas do seu rosto, as covas nos cantos da boca formadas por sorriso luminosos, a cor viva dos lábios humedecidos pelo calor da paixão, a profundidade do olhar decisivo. Cada pormenor da sua beleza ela não se esquecia. E toda ela era beleza.

Ela, a beleza que parecia esconder-se na impossibilidade de fazer acrescentos a uma vida dourada pelo sol amistoso do que já tinha. A procura do novo era um falso novo que não reconhecia. Eram simples acrescentos remisturados de algo que já tinha. Era um algo seguro, confortável, desejado. Sem espaço para o picante a quedar-se no âmago da descoberta afectiva. Amava-se e tinha razões para isso. Amar a sua própria vida que imagina ter e que não tinha, revestia-se de um conceito que não compreendia. Qualquer que fosse a pancada violenta que lhe toldava a maneira de se apresentar ao mundo já não podia ser uma desculpa encontrada para se esquivar de viver o sentimento. Dias de entrega a projectos alheios para terminar sem o som de um doce “bom dia” ao sentir os primeiros feixes de luz de uma manhã. Por quê?

Era uma pergunta que ele lhe queria fazer. Ousadia descomunal talvez, mas que castigo poderia ter? Perder o que nunca teve? Por isso naquele dia quando a viu em passo apressado ao fundo do corredor, adormeceu a sua pressa e abrandou os ponteiros do relógio para ter tempo de se preparar para a fazer parar. Ela ao fundo do corredor seguiu na sua direcção porque já era a que seguia antes. Os olhares fixaram-se ainda ao longe e caíram por momentos de denúncia para se voltarem a encontrar. Os sorrisos cresceram com a distância entre eles a diminuir. Ele decidido suava no interior de si. Ela num emaranhado de vozes que a acompanhava sempre no seu passo determinado na procura de resolver rapidamente todas as dificuldades que as suas responsabilidades exigiam.

Em frente um do outro, ele imaginou toda uma vida de felicidade ao lado da simplicidade de uma pessoa tão humana como ele era. Ela manteve-se como sempre concentrada no seu trabalho. Cruzaram-se e antes que ele visse surgir uma oportunidade para a parar, trocaram o habitual “Olá, tudo bem?”. Cada um seguiu o seu caminho.

Ela partiu e ele ficou a vê-la subir no horizonte. Não se deixou ficar quedado em mais uma oportunidade perdida. Sabia que ia voltar a vê-la. Ele sempre voltava a vê-la e sabe que ela também o sabe. Ambos sabem sem se darem conta de que com ou sem tempo, só porque há coisas que um dia têm de fazer sentido, um dia as suas almas vão encontrar-se.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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