Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!
ContosCultura

Desejo ardente

Nada a ele se mostrava mais belo do que o crepitar de uma chama. A paz com que o fogo é fogo fascinava-o. A simplicidade do o ver com um olhar da admiração sincera e genuína, pura mesmo, era um ócio para ele, e algo que o pacificava. Prazeres simples de uma vida inquieta.

Ali naquele lugar estranho tinha todos os cuidados para si. O cabelo emaranhado e a roupa desarrumada com que chegou fizeram dele alguém com a categoria de “a controlar de perto” na instituição que o acolhera. Mas ele não fazia mal a ninguém. Estava só no mundo e apenas a chama parecia ser algo para ele. Infeliz, insatisfeito, insuficiente. Era no entanto incipiente aquela chama do fósforo. Incipiente e efémera. Vibrava energia e cor apenas por breves instantes, incapazes de o alimentar. Acendia outro fósforo e outro e todo uma sequência que lhe era permitida mas que nunca conseguia ser um todo.

Assim também foi ele com ela. Foi bela mas incipiente. Foi vibrante mas efémera. Conheceu-a num café igual a todos, a olharem a televisão. Imagens de um grande e pavoroso incêndio numa torre na Londres que nunca vira. Olharam os dois, ela horrorizada, consciente do drama que as pessoas viviam. Ele maravilhado, atento ao desenho das chamas, à força avassaladora com que o fogo reclamava a torre e as vidas nela contida.

Os olhares deles enfrentaram-se e viram-se em oposição. Ele ouviu-a e aos poucos deixou-se afeiçoar pela alma caridosa com que ela o envolvia. Ela ouviu-o a aos poucos deixou-se apaixonar pela forma simples e pura como ele via a catástrofe.

Saíram dali juntos e sentaram-se numa praia a partilhar o entardecer. Era o período do dia que mais amavam, pela luz, pelas cores do céu, os sons dos pássaros. Ele pediu para ela falar mais do incêndio que viram na televisão do café. Descobriu lentamente à velocidade de cada palavra uma pessoa de enorme ternura, cuja preocupação com o outro o apaixonou. E ela era bela. Ele também o percebeu pela ligeireza dos seus gestos, cada vez mais fluidos agora que ela se sentia bem, ali ao seu lado. Ela deixou-se levar pela forma quase fantasmagórica como ele lhe explicou a sua visão daquele acontecimento. Ela percebeu que não havia malícia nele. Havia no seu lugar uma pureza genuína, uma concentração absoluta no fogo como elemento físico, as cores e as formas, os movimentos constantes das chamas, o calor, os sons e ruídos que provocavam. Ele conseguia abstrair-se dos efeitos do fogo e essa visão purista despertou ardor nela, ardor e desejo, ardor de desejo. Aos poucos foi evidenciando as formas curvas do seu corpo e convidou-o a olhar a sua pele, aquela que podia ali mostrar, e depois um pouco da que se via escondida. Levou-o a tocá-la e depois ainda a senti-la. Ele fervilhou e sentiu o desejo. Sentiu o ardor do desejo.

Seguiram juntos quando a noite caiu. Seguiram para o desconhecido. Seguiram levados pelo desejo. Em pouco tempo já se amavam porque encontraram no outro algo que não tinham antes. Amaram-se num velho quintal, numa indistinta casa de madeira que ele habitava longe da azáfama da urbe. Eles despiram-se, entregaram-se, entregaram o corpo um ao outro e deixaram que a paixão ardente os consumisse.

Assim ficaram toda a noite envolvidos nas chamas do prazer.

Na manhã ainda bem fresca, ele acordou e olhou-a. Ela dormia preenchida agora que a vida a compensara e a mais prometia. Ele sucumbiu perante tamanha beleza. Tremeu. Estarreceu com a visão que tinha. Olhou-a, sentiu-se a amá-la e perdeu-se na sua própria visão. Tapou-a com os lençóis cuidadosamente para não a acordar. Tudo o que fez a seguir foi com a leveza de uma pena ao vento. Tudo para não a acordar e de forma manter a serenidade que se fazia ouvir naqueles primeiros momentos da manhã.

Uma manhã que só foi perturbada com os gritos silenciosos dela impotente envolta em chamas. E ele prostrado na dor que causava a si próprio.

Não aguentou a beleza. Não aguentou o desejo, o desejo ardente. Não aguentou amá-la.

Inimputável. Foi a única palavra que ouvira do juiz.

Hoje na instituição que acolhe, os fósforos são um alimento que o mantém ligado à vida. Que o impede de se recordar dela. E de quem foi um dia.

Tags
Show More

André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: