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ContosCultura

Desculpa se te matei

Viro-me de novo. No tecto vejo um pedacinho de lua a entrar por uma fresta da janela. Abro bem os olhos na sombra do quarto. A manta pesada aconchega-me como um abraço e não me consigo mexer. Toco no lado dele sem olhar. Lembro-me que não há cemitério para fingir que conforto a dor. Espalhei as cinzas, por isso tenho de fingir de outra forma que me parece caótica e divina, falando com os ventos que estão em todo o lado, acendendo velas como se o confinasse ao meu querer.

As tuas cinzas? Ou as cinzas das fotografias que rasguei? Não me lembro se morreste ou me deixaste. Ou se te deixei. Morreste ou matei-te?

Pequenos choques de alma, como quando nos esquecemos de algo e de repente nos lembramos. Choques constantemente, ao longo dos dias, das horas, dos minutos. Não faz sentido. Ou faz, ou então faz todo o sentido ter os dedos a tremer quando já não te tenho aqui. Medo de ser. Não sei lidar com o contrário a mim.

Mas já não choro.

A música toca baixinho, a embalar. Pára. O rádio desliga-se. Já passaram 30 minutos e ainda estou acordada. Não adormeci ao som da música. Com que será que vou sonhar? Com que será que sonharia se tivesse adormecido com aquela música a invadir-me o sono, o subconsciente, as emoções?

Ligo de novo o rádio, mais 30 minutos. É o prazo que me dou a mim própria para conseguir desligar o pensamento. Os ossos começam a doer-me, como se estivessem revoltados com a minha necessidade. Dores que não localizo, que não encontro, mas que aparecem, que insistem em ficar para jantar, para dormir, para passar férias, para viver. Não consigo expulsá-las da mente, ou abraçá-las e despedir-me, fechar a porta e entregar-me a uma qualquer obsessão que dê frutos. Existem obsessões boas? Quero sair do carrossel e não consigo. Quero sair desta roda que não pára. E anda. E anda. E anda. Lembro-me das diversões na Feira Popular. O mundo continua a girar e eu não consigo ver bem, pensar bem, compreender bem.

Fala negativa e pensamento negativo. “Não consigo…”, “Não consigo…”, “Não consigo…”

Esquecer. Perdoar. Continuar. Não consigo tanta coisa. Ou não consigo nada, qual é o mais correcto?

Fecho os olhos e volto a abrir, um segundo depois. Adormeci um segundo. A música continua a tocar. Estou confusa e perdida. O que aconteceu, relembra-me? Ou não, prefiro não saber. Prefiro não me lembrar dos teus olhos.

Desculpa-me se te matei.

Não oiço a música a desligar-se. Se acordar amanhã, o sol já irá alto.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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