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Dei-me um doce

Estava resignada e descansada na minha vida quando ele decidiu voltar a entrar, sem convite nem aviso prévio. O telefone tocou, larguei o processo que estava a preparar e vi que era um número que não conhecia. Talvez um novo cliente, recomendado por outro. Atendi. Conheci logo aquela voz que eu fazia por esquecer. O meu ” estou ” foi impessoal, mas o ” olá ” dele foi bem conhecido. Já tinha atendido, não podia voltar atrás. Tentei manter a calma, não era nada de especial, é só o teu ex que te telefona ao fim de uma eternidade de meses. A voz pareceu-me mais melodiosa do que era habitual. Fiquei a ouvir aquilo que iria sair dali. Não era coisa boa. Arrependido não devia estar, logo, precisava de alguma coisa.

Não gosto de pensar assim, mas as cacetadas da vida levam-me a ser dura e cruel nos julgamentos iniciais. É uma defesa que encontrei para não me magoar mais. Eu nem era assim, mas fui-me moldando às situações e penso que encontrei o equilíbrio necessário. Eu estava tranquila, ele é que me veio desinquietar. ” Esta noite sonhei contigo e tive tantas saudades. Tu não tens? Podemos encontrar-nos? ” Assim, sem mais nem menos como se fosse a coisa mais natural deste mundo. Mas o que é que ele quer? Primeiro coloquei o sorriso idiota de quem se sente importante para alguém e depois caí em mim. Por alma de quem? Devia estar sem namorada e agora rondava para saber se ainda tinha alguma hipótese.

Quando dei por mim estava a responder, delicada e educadamente e a combinar um encontro. Que estranho. Pensava uma coisa e a boca traía-me, dizia outra. Estava dividida. Claro que o queria ver, mas, por outro lado, só me queria afastar dele. Se não fosse ter com ele ficaria sempre na dúvida sobre as suas intenções. Ainda bem que tínhamos vidas muito ocupadas e só nos veríamos dali a uns dias. Tinha tempo para me preparar, para decidir o que ia levar vestido, a conversa que não queria fazer e a atitude que iria ter. Não queria ser apanhada desprevenida numa curva que podia ser muito perigosa. Ele tendia a ser um hábil manipulador e eu não queria voltar a ser enrolada como antes.

Hesitei quanto à roupa. Queria estar no meu melhor para lhe fazer ver que a minha vida tinha continuado. Não gostei de nada do que tinha. Não era parva ao ponto de ir comprar uma roupa só para aquele dia. Se a comprasse era porque gostava e queria. Tinha-me deixado dessas parvoíces. Acabei por decidir uma vestimenta convencional para passar despercebida no meio da multidão. Agora usava o cabelo curto. Tinha-o descoberto havia pouco tempo e tinha-me tornado um fiel seguidora. Além de prático deixava-me ver a cara, que durante tanto tempo andou escondida atrás da franja. Até tinha começado a usar rímel, o que dantes achava detestável. Sinais dos tempos. Já não chorava por isso não parecia o Alice Cooper. Aceitei a minha cara, desprotegida e solta. E pintava as unhas, ainda em tons suaves, mas sim, dava-lhes uma cor e olhava para elas. Tinha deixado de as roer. Era o prémio merecido.

E o dia chegou. Fui de metro. Queria olhar para muitas caras antes de voltar a ver a dele. Nem tinha a certeza se a queria voltar a ver. Os pés é que caminhavam e a cabeça obedecia. Imaginava cenários possíveis, mas eram todos fictícios. Sabia lá o que ia acontecer. Aquela carruagem, com o seu balanço, ainda me inquietava mais. Parecia que nunca mais chegava ao destino. E se ele se cortasse à última da hora? Se não aparecesse? Tinha que ir para saber.

“Olá! Estás óptima!”. Ele estava ali, à minha frente, simpático e risonho. Puxou a cadeira para me sentar. Um autêntico cavalheiro, como eu me lembrava. Na mesa estava uma caixa com um laço. Era mesmo típico dele. Claro que fiquei desconfiada. O que é que ele queria? Disfarcei a minha ansiedade e coloquei o meu sorriso de conveniência. De repente uma sensação muito curiosa começou a invadir-me. Quem era aquele homem que estava à minha frente? Não o conhecia, não o reconhecia, tão pouco. Tanto que me fez sofrer, que me fez desesperar e agora não estava a sentir nada, absolutamente nada. Um vazio. Nem o ouvia. Estava a olhar para ele intrigada.

Perguntou-me se não abria o presente que tinha comprado com tanto amor e carinho. Não tinha curiosidade nenhuma. Era uma prenda de descargo de consciência, não de atenção. Olhei para a caixa. Resisti-lhe. ” Talvez depois “. Ele olhou-me com olhos de macho ferido. O que é que ele estava à espera? Que eu lhe caísse aos pés, que eu ficasse toda contente por estar ali? Quem é que ele pensava que era? Começou a falar, num tom delicodoce, de como eu lhe fazia falta, que tinha sido um palerma, que só agora percebia como eu era especial e que precisava muito de mim na vida dela. Aquelas, baboseiras que se dizem em desespero de causa. Ouvi tudo, mas não acreditei nem numa vírgula, quanto mais nas palavras todas. Pareciam de palha, não encaixavam na frase, estavam fora da época e do contexto.

Deixei de o ouvir. Aquilo foi um erro enorme. Nunca devia ter ido ter com ele. Não senti nada do que estava à espera. Onde estava aquela chama que eu sentia que tínhamos? Nada. Um horrível vazio e uma sensação de perda enorme. Senti que era um estranho que se apresentava à minha frente. Não o queria conhecer. Aquele não. Aquelas falinhas mansas não me convenciam. ” Que bem te fica o cabelo curto! Vê-se a tua cara, a tua expressão tão simpática. ” Sim, pois, fala para aí que não me interessa nada. Ele olhou para as minhas mãos e riu-se. ” Pintas as unhas. Que bom. Estás a cuidar de ti, minha querida “. Que era aquilo? Nunca me tinha tratado por minha querida. Que piroso e inadequado. Estava mesmo de pé atrás.

Lembrei-me que não me tinha produzido, que levava uma singela saia e um casaco. Passava despercebida num grupo de desconhecidos. Ele não. Percebia-se logo que tinha tido um certo cuidado na apresentação. Usava aquela barba de 3 dias, que dá um trabalhão a manter para parecer que tem um ar desmazelado. Aquele estilo de roupa não tinha nada a ver com ele. Teria mudado? Começou a contar o que tinha feito nos últimos meses. Mesmo que eu não quisesse ouvir, ele relatava tudo pormenorizadamente. Realmente estava diferente, não havia a menor dúvida. Eu também. Já não tinha paciência para o ouvir. Que me interessava que ele isto, ele aquilo? Apeteceu-me tanto levantar e ir embora. Não fui. Fiquei. Ouvi tudo até ao fim. Já tinha percebido.

A minha prisão emocional tinha acabado. Estava livre. Todo aquele tempo, em que pensei que estava apaixonada por ele, pareceu tão longínquo que até colocava em causa se tinha existido ou tinha sido imaginado. Olhei-o nos olhos. Pois. Eu é que tinha mudado. Ele continuava a ser o seu próprio mundo, o seu modelo, o seu fim. Levantei-me. Ele olhou para mim. Coloquei o embrulho no prato dele. ” Isto não é para mim. Adeus “. E saí do restaurante sem olhar para trás. Tinha começado a chover. Soube-me bem sentir aquelas gotas na cara. Vi a minha imagem reflectida numa montra. Estava contente. Tinha deixado ficar o meu ar sofredor agarrado à prenda que não quis aceitar. Ele que guardasse tudo, num recanto onde ficasse esquecido. Eu era outra, não aquela que ele pensava encontrar.

Voltei para o escritório. Estava ensopada, mas bem-disposta. ” Que te aconteceu? ” Não conseguia responder. Tinha acontecido tanta coisa, tanta mesmo. Tinha acordado de um sono profundo que me tinha deixado atordoada. Agora estava óptima e consciente. Eu era a minha prioridade. Ele tinha ficado no passado. Eu era o futuro. Abri a gaveta. Recostei-me na cadeira. Tirei um chocolate. Comi-o. Que bom! O doce nunca amargou.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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