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Decidi não ter filhos

“Todas as meninas sonham encontrar o seu príncipe encantado e casar”. Era a frase que costumava ouvir. Para mim era cretina e fora do contexto. Primeiro porque não acreditava em príncipes e depois porque nunca pensei em casar. Não pelo lado afectivo, que sempre o considerei viável e necessário, mas pelo espalhafato e barulho da cerimónia em si. Claro que não sou perfeita e até gosto bastante de vestidos de noiva, desenho-os, idealizo-os, mas não para mim. São para as outras, aquelas que os querem usar. Eu não.

Também não me via a ficar “submetida” a alguém, mesmo que eu gostasse muito dele. Nem mesmo quando era pequena conseguia acatar a ideia de “ordens”, logo, em mais crescida elas seriam muito pouco bem-vindas. Ser autónoma e independente é que era de valor. Depender de um marido nunca! Eu é que asseguraria o meu sustento e foi esse o meu mote, o que me guiou desde muito nova.

Aprendi a colocar as mãos na massa, quer isto dizer que me tornei útil e preciosa, para mim. Sei colocar chão, fazer paredes, pintá-las, construir móveis, mudar lâmpadas (que difícil ), colocar tomadas e tantas outras actividades que são importantes. Aliás, a chave de parafusos era minha companheira constante. Também sei bordar, fazer crochet, tricot, ponto de cruz e outros que tais. Porém, as primeiras actividades têm-me sido mais proveitosas.

Nada tenho contra as pessoas que não se ajeitam a estes trabalhos manuais. Eu é que sou desmiolada e considero-os fáceis e interessantes. A madeira sempre me seduziu e agora tratamo-nos por tu. Tenho mais dificuldade em fazer roupa do que deitar abaixo uma parede ou colocar um chão. Nem todas nascem para a delicadeza. Não é por isso que sou menos mulher.

Contudo, não dispenso um companheiro, um homem a sério, de carne e osso e nada de fantasiado. Ele tem defeitos e qualidades, como qualquer ser humano que convém, e vivemos o melhor que conseguimos e podemos. Temos altos e baixos, como todas as relações, mas somos reais e não príncipes e princesas. Penso que já não há quem acredite nisso.

Uma das decisões que tomámos foi não ter filhos. Os motivos são variados e não interessa tão pouco expô-los, porque são somente nossos. Acontece que as relações trazem, agregadas, as famílias e esta não é nenhuma excepção. Rapidamente começou o interrogatório: quando é que têm filhos? Esta “inocente” pergunta tornou-se viral. Já não podia ouvir mais! Ecoava na minha cabeça e martelava sem fim.

Depois vieram as especulações. Se calhar não pode ter filhos, talvez tenha uma doença, tomam tantas porcarias que dão cabo do corpo, são uns irresponsáveis, talvez não saibam como se faz (esta é hilariante) e a melhor, são uns egoístas. Casar é ter filhos e aborrecimentos. Tantas vezes que ouvi isto que cheguei a pensar que estava a alucinar. Mas que disparate é este? A decisão é nossa e não dos outros, que estão sempre a colocar a colher deles onde não devem.

Nas visitas familiares a lengalenga era a mesma: então quando é que me dás um netinho? Dois! O que é isto? Um filho não é um presente, é um ser humano que tem de ser desejado e amado, não é um brinquedo e muito menos serve para dar “alegrias” aos avós. Isso é que é egoísmo. Responsabilidade é ser consciente e conhecer as suas próprias limitações. Não é medo da gravidez e muito menos de deformar o corpo. Isso é uma mera formalidade. Ser mãe é algo de muito grandioso e se tomei a decisão de não o ser, tenho os meus motivos válidos e não preciso de dar satisfações a ninguém.

Nunca me senti diminuída nem menos mulher por não ter sido mãe. Foi uma opção consciente e pensada detalhadamente. Não quer dizer que não goste de crianças, antes pelo contrário. Mas não minhas, dos outros. Sou a tia honorária, aquela que os ouve a todos, que os acompanha e que não consegue envelhecer porque eles não deixam. Ainda bem. Sou a confidente e continuo a não me arrepender de não os ter tido. Se assim fosse talvez não tivesse uma relação tão forte e desinteressada como tenho com estes meus sobrinhos verdadeiros e emprestados. Um pai ou uma mãe é um educador e não um amigo. Há que saber ver a diferença.

Se me criticam? A toda a hora! Mas eu não me incomodo. Passo ao lado. Não sei se é por inveja ou por não terem mais nada que fazer, mas não lhes levo a mal. Ser diferente é assim, é estar sempre a ser analisada e retalhada. Vivo bem com tudo isso. Mas duma coisa podem ter a certeza. Sei mais da vida dos filhos dos outros do que os próprios pais. E segredo que fica confiado é guardado no cofre do meu coração!

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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