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De São Sebastião à Violência Contra as Mulheres na Índia

Uma semana é composta por 7 dias, 168 horas, 604 800 segundos, 6 jornais diários nos 4 canais generalistas e uma infinidade de notícias que aparecem tanto online, como na imprensa escrita, na rádio e na televisão. No meio de tanta informação, há que saber separar o trigo do joio, o importante do acessório e o interessante do que deveria nem ter sido notícia. É disso que irá viver este espaço semanal que pretende destacar algumas notícias, factos, curiosidades, pormenores, que marcaram a nossa semana noticiosa. Será publicado todas as Sextas-Feiras e terá como objectivo principal comentar aquilo que se destacou mais pela positiva e o que esteve, digamos, “menos bem”, o que nos alegrou e o que esperamos que não se torne a repetir.

Destaque da Semana

De 8 até dia 22 de Junho, as escadas da Estação de Metro de São Sebastião, em Lisboa, vão transformar-se num piano, já que cada degrau vai corresponder a uma nota musical que será accionada com a passagem das pessoas. A iniciativa foi organizada pela empresa pianos.pt, criada por Pedro Coelho e Hugo Freitas, em colaboração com o Metro de Lisboa.

Esta intervenção faz parte da programação “Andar em Festa”, integrada nas Festas de Lisboa, uma iniciativa que leva a criação artística ao espaço público e aos transportes colectivos de Lisboa. A EGEAC (Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural) lançou um concurso para apresentação de projectos artísticos para os transportes públicos da cidade, no âmbito de um dos eixos da programação. De todas as propostas recebidas, o júri escolheu cinco projectos, entre os quais a Escala do Metro.

O piano é um dos instrumentos onde a sequência de notas se vê de forma clara. Elas estão dispostas lado a lado, subindo da esquerda para a direita, como se de uma escada se tratasse. Foi esta orgânica que levou a pianos.pt a construir um teclado ao longo de uma escadaria do Metro, para que todos possam tocá-lo. Tal como o piano, um instrumento onde as notas estão dispostas lado a lado, as escadarias desta estação vão transformar-se num teclado que qualquer pessoa poderá tocar, com os pés.

Apesar da ideia já ter sido posta em prática noutros países, é a primeira vez que ocorre uma iniciativa deste género em Portugal. Uma forma criativa de aproximar a Cultura das pessoas, ao trazerem para um lugar tão comum como as escadas do metro uma espécie de piano. Para além da interacção que se pode criar com os passageiros, esta acção irá tornar os dias de cada um que passa por esta estação num dia diferente. Que a cultura saia mais vezes à rua e crie momentos únicos e inesquecíveis, como este.

Fava da Semana

Infelizmente, o cenário já começa a ser banal: mulheres penduradas pelo pescoço de árvores em várias aldeias do estado indiano de Uttar Pradesh. Dia 12 de Junho, uma quarta mulher de 19 anos foi a última vítima a ser encontrada por aldeões, um dia depois de outra ter sido morta por enforcamento na área de Bahraich e o seu corpo ter sido exposto à população da mesma forma. A autópsia ao corpo da adolescente, ao contrário de casos anteriores, não permitiu apurar se foi violada. O inspector-geral da polícia do estado afirma que o caso está a ser tratado como um “homicídio de honra” – geralmente perpetrado por familiares da vítima para vingar a honra “manchada” por acções suas.

Horas depois do corpo da jovem de 19 anos ter sido encontrado, duas raparigas instaladas num hostel no estado de Tamil Nadu, que é gerido por uma igreja local, apresentaram queixa, depois de terem sido violadas sob ameaça de facas. Há um mês, a violação em grupo de duas raparigas no mesmo estado, no distrito de Badaun, também encontradas enforcadas e penduradas em ramos de árvores, fez renascer a raiva num país onde as violações e o assédio sexual têm ganho destaque nacional e internacional e potenciado campanhas populares lideradas, sobretudo, por mulheres que exigem que seja garantida mais segurança ao seu género e castigos mais duros aos perpetradores de crimes sexuais.

Todos estes casos surgem após se ter destacado, entre as várias queixas de violação, uma em que uma mulher alega ter sido vítima de violação em grupo dentro de uma esquadra. A vítima, que tinha ido pedir a libertação do marido, alegou ter sido agredida sexualmente por quatro polícias em Hamirpur, após recusar pagar um suborno pela libertação.

Por causa destas situações, ocorreram mudanças na lei, sendo actualmente punido com a morte homens que violem mulheres na Índia. Porém e ao contrário do que previam os legisladores, o número de casos aumentou, sobretudo, contra mulheres e raparigas das comunidades mais pobres. Um relatório do Centro Asiático para os Direitos Humanos concluiu, em Abril, que, por ano, são registados 48 338 casos de violações de menores na Índia. O mesmo documento diz que, entre 2001 e 2011, houve um aumento de 336% no número de casos de violações registados, sendo que uma grande percentagem deles não chega a ser denunciado.

É preciso que os homens compreendam e tenham consciência que, embora a maioria não se reveja nestas acções, todos beneficiam delas. Beneficiam nas escolas, nos empregos, nas carreiras, no desporto, no acesso à educação, no acesso aos bens e no dia-a-dia em geral. É preciso que todos comecemos a tomar uma posição contra a forma como tratamos as mulheres, como falamos delas, naquilo que aceitamos calados, naquilo que fingimos não ver, naquilo que optamos não fazer. É preciso que tenhamos consciência que, de cada vez que não fazemos o que é correcto, estamos a compactuar e a ser cúmplices, ainda que indirectamente, da violência e da discriminação, que perpetuam o problema.

Até quando é que este problema de discriminação, ódio e violência sobre as mulheres vai ser mais, ou menos ignorado? Quando é que as organizações mundiais vão fazer algo mais que dizer que estão contra?

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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2 thoughts on “De São Sebastião à Violência Contra as Mulheres na Índia”

  1. Olá, estamos a entrar em contacto convosco por causa de uma noticia positiva que vos deve interessar. A pianos.pt transformou 30 degraus da estação de Metro de S. Sebastião em 30 notas de piano que podem ser tocadas e ouvidas. O sucesso desta iniciativa, da EGEAC (integrada nas Festas de Lisboa), ultrapassou de tal forma as expectativas que o prazo foi alargado várias vezes sendo que fica afinal montado até dia 3 de Julho, último dia das Festas de Lisboa. Para ter uma noção do impacto, só um dos 2 artigos publicados no Público sobre a iniciativa já teve 23.000 Likes no facebook, sendo que o outro teve 19.000..!

    http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/12506/nasceu-um-piano-nos-degraus-das-escadas-do-metro-de-lisboa

    Esperemos que seja do vosso agrado e que sirva para fazer mais pessoas felizes, até porque neste periodo já todas as crianças estão de férias e é uma oportunidade para elas usufruirem desta iniciativa.

    Gostamos de fazer pessoas felizes..!

    Com os melhores cumprimentos

    Hugo Freitas

    1. Boa tarde Hugo,

      Obrigado pela informação, mas como pode verificar uma das notícias em destaque e pela positiva é referente aos 30 degraus em S. Sebastião.

      Cumprimentos
      Miguel Arranhado

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