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De Good Wife a Mulher de Armas

A morte de Will Gardner em The Good Wife foi um dos segredos mais bem guardados e dos momentos mais chocantes que uma série televisiva apresentou recentemente. Não demorou muito até a Internet ficar inundada de comentários de fãs escandalizados, depois de ter sido revelado que Will, o advogado motivado e carismático que, até ao episódio 15 da quinta temporada, era o principal elemento masculino da série, havia falecido num tiroteio realizado na sala de tribunal em que se encontrava. Até os críticos televisivos, que sabiam que o episódio iria ter um momento explosivo, ficaram atordoados com esta decisão criativa. “Tinha ouvido rumores de que Josh Charles estava a planear sair da série brevemente e vi tweets de que este episódio iria mudar o rumo da série”, escreveu o crítico televisivo da revista Time James Poniewozik. “Porém, a forma como o rumo mudou foi um choque e é, certamente, um grande risco que os produtores de The Good Wife estão a tomar. Não só mataram uma das suas personagens principais, como dilaceraram com uma bala uma das relações centrais da série.”

Eliminar Will da narrativa, apesar de ter sido, claramente, um risco consciente por parte dos produtores da série, foi também uma decisão acertada, já que significou a libertação da protagonista, Alicia Florrick, de uma relação que nunca teria um final satisfatório. Ao terem morto esta personagem, Robert e Michelle King, os responsáveis pela série, estão a fazer uma forte afirmação: Alicia Florrick não é uma personagem definida pelos seus interesses amorosos e a sua história não termina só porque a de Will chegou ao fim. Esta série sempre foi sobre a educação de Alicia e não sobre o seu percurso até encontrar o grande amor da sua vida. A partir de agora, a personagem principal não terá a sua vida amorosa a ditar as suas linhas narrativas e a definir a forma como a sua personalidade se irá desenvolver de futuro. Algo que, no mundo do entretenimento televisivo, em que as mulheres ainda não são retratadas como pessoas capazes de atingir simultaneamente a realização pessoal e profissionalmente (mas sim como personagens de apoio a uma narrativa centralizada num homem, ou, então, como o objecto de desejo de um homem), é uma decisão arrojada, que constrói uma infinidade de opções narrativas futuras.

Na realidade televisiva actual, parece ser uma noção extremamente radical uma série liderada por uma mulher ter a capacidade de ser interessante, sem haver a necessidade de existir uma relação, ou um envolvimento romântico, como elemento primordial na história. Contudo, o desenvolvimento romântico tem sido central para o desenvolvimento das personagens principais na maioria das séries lideradas por mulheres. Exemplos disso são Olivia Pope, Hannah Horvath, Leslie Knope e Mindy Lahiri. Até ao episódio que foi para o ar no dia 23 de Março, “Dramatics, Your Honor”, Alicia Florrick talvez pertencesse também a esta lista. O principal conflito de Alicia na série sempre foi corporizado no seu lugar central num triângulo amoro com Will, o seu colega de profissão e antiga paixão, e Peter, o seu marido mulherengo. Se olharmos para as primeiras imagens promocionais de The Good Wife, estas ilustravam a forma como este triângulo era uma parte integral na série, mostrando sempre a personagem principal no meio dos dois homens, ou a dar as mãos aos dois, em simultâneo.

As personagens de televisão, especialmente as mulheres, têm um grande historial de decisões que as mantêm sempre na órbita dos seus interesses amorosos, mesmo que sejam atitudes contrárias às suas personalidades. Por exemplo, será que uma profissional de gabarito como Olivia Pope iria realmente colocar a sua carreira em risco só para manter contacto (mesmo que profissional) com o homem que ama, ao trabalhar na sua campanha política? No filme Veronica Mars, será que Veronica, que passou três temporadas a planear a sua saída da cidade onde vivia, Neptune, iria realmente trocar a vida estável que construiu em Nova Iorque para regressar a casa e recomeçar um romance com Logan? Apesar dos fãs das séries ficarem contentes por poderem ver os seus casais favoritos juntos, tal acontece em detrimento da redução de Olivia e de Veronica como personagens credíveis. Algo que, com a morte de Will, é prevenido, já que, assim, Alicia não tem a hipótese, no futuro, de fazer as mesmas escolhas duvidosas que Olivia e Veronica fizeram.

Para além disso, a morte do interesse amoroso de Alicia também impede que ela seja vítima dos finais de história que a maioria das personagens femininas têm nas séries de televisão de longa duração – um caprichoso final feliz ao longo do seu verdadeiro amor, independentemente de ser algo contraditório ao caminho construído para a personagem até esse momento. Enumeras séries construíram a sua narrativa à volta da dinâmica de impasse de uma relação amorosa, acabando sempre por terminar com o final feliz para o casal principal. Apesar de Alicia ter regressado para o seu marido, esta escolha não foi feita baseada em amor, mas sim num total pragmatismo. Durante todas as temporadas, Will Gardner foi sempre apresentado como “o tal”, aquele com quem Alicia não poderia estar, mas de quem não consegue deixar de pensar. Ou seja, mesmo depois da Good Wife ter abandonado a Lockhart Gardner, existia sempre a hipótese da relação com Will voltar a ser retomada no futuro. Retirarem Will da série demonstra, portanto, ser uma excelente opção, porque, embora a atracção e o romance criado com esta personagem terem sido partes cativantes do processo de procura por uma identidade fora do papel de mãe e de esposa de uma figura política caída em desgraça, Alicia acabou por crescer até se tornar numa advogada confiante e ambiciosa. Durante as últimas cinco temporadas, foi possível vê-la a evoluir de uma associada de primeiro ano inteligente, mas insegura, a sócia na Lockhart Gardner e, finalmente, a dona da sua própria firma de advogados. Neste intrincado enredo, ela também foi criando fortes ligações a grande parte dos personagens presentes na série – desde o seu complexo relacionamento com Diane e Kalinda, à sua parceria e amizade com Cary e à sua grande devoção aos seus filhos. O mundo de Alicia (talvez mais do que o de outra protagonista) está repleto de personagens vibrantes, sejam amigos, ou antagonistas, que oferecem um potencial narrativo imenso para muitas temporadas futuras.

Tal como foi possível ver nos episódios 16 e 17 desta quinta temporada, esta tragédia permitiu à série fazer uma profunda exploração do significado de luto como nunca se tinha visto em televisão antes. Normalmente, a morte de um personagem numa série é um momento marcante numa história, sendo o resultado de uma longa linha narrativa. Contudo, neste caso, a morte de Will foi um acontecimento aleatório, demonstrando como uma morte repentina pode ser extremamente devastadora, sem os importantes momentos de despedida e de troca de últimas palavras… existe apenas o terrível vazio que não pode ser desfeito. Ao contrário de outras séries que aproveitam estes momentos para juntar os espectadores num mesmo sentimento, ou pretendem transmitir uma lição sobre a vida e a fé, The Good Wife, como o programa televisivo realista que é, não tentou procurar um significado na morte de Will e deixou viver o grande vazio que as personagens sentiam. É neste contexto que a série começou a desenvolver material extremamente poderoso para três das principais personagens a serem afectadas por esta morte: Alicia, Kalinda e Diane. Estas três mulheres são as personagens mais fascinantes em toda a série e as actrizes que lhes dão vida estão a saber responder ao desafio que lhes está a ser proposto, apresentando interpretações realistas e cheias de nuances. Regra geral, a prestação de Julianna Margulies como Alicia é pouco apreciada pelo público, uma vez que o seu trabalho com a personagem é muito subtil, ao representar uma mulher que está constantemente a tentar não mostrar as suas emoções. Porém, com cada novo desenvolvimento narrativo, a sua representação é magistral. Mesmo com a sensação de perda que muitos fãs sentem, esta morte chocante está a ser uma excelente oportunidade para rejuvenescer a série.

Desde que a morte de Will foi transmitida, alguns dos fãs da série decidiram parar de a ver, mas desistir da série neste momento de mudança seria o mesmo que afirmar que Alicia não tem qualquer valor como personagem, para além das linhas narrativas românticas em que é colocada. Afinal de contas, nenhum espectador espera que protagonistas masculinos, como Don Draper, ou Walter White, tenham as suas histórias reduzidas às suas vidas amorosas. Então, porque é que, neste caso, deveria de ser diferente para Alicia Florrick?

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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