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De Adolf para Hitler

O rosto fechado nascera consigo, existira desde sempre. Apoiava-se num corpo franzino, tímido na relação com os outros, que se movia por entre incertezas do destino. Os seus comportamentos eram altamente escrutinados pelo austero Alois, que o educava sob a maior severidade possível. Os sonhos, esses, eram possíveis e grandiosos. Neles, a sua figura era livre de conceber o que quisesse – a sua imagem era projectada à mais alta escala. Porém, não havia sonho em que a sua imagem se cruzasse com a história do seu país, ou mesmo com a do mundo e da sociedade em geral. Havia de se cruzar.

Nasceu na Áuarticle-2082640-0F58B8A300000578-613_224x354_popupstria, em 1889, filho de Alois e Klara Hitler, que eram primos em segundo grau, sendo o quarto de seis filhos do casal. Não foi uma infância cheia – só Adolf e a sua irmã mais nova, Paula, resistiram às dificuldades da transição de século. O jovem rapaz não era um amigo fascinante, nem sociável, e estava longe de ser um aluno prodigioso. Primeira aparente contradição: receava o sentimento de solidão e todos lhe reconheciam inteligência.

Desde sempre, as artes e, sobretudo, a política interessavam a Adolf Hitler – não era Hiedler, por descuido de um escrivão, aquando da mudança para este sobrenome, por parte do seu pai, que até então usava o nome de família da mãe. Eram evitadas as discussões em casa com o pai, quando as áreas eram as que mexiam mais com Adolf – seguir uma carreira no mundo das artes estava absolutamente fora de questão (o pai queria que ele traçasse um caminho menos excêntrico, na função pública) e na política, não havia consensos (não podiam ser mais distantes os pontos de vista do pai e os do filho que, desde pequeno, assumiam já traços antissemitas).

Era Klara, a mãe, o seu refúgio. Sem que houvesse uma relação perfeitamente afectuosa, era íntima e querida a ligação entre ambos. Também na escola, Adolf se virava muito para Leopold Poetsch, seu professor de História e pangermanista convicto. Ao aperceber-se de alguma vulnerabilidade do seu aluno e do paralelo existente com as suas convicções políticas, Leopold recomenda-lhe livros, que Hitler devoraria avidamente, incrementando decisivamente o seu instinto fascista, sem que isso o motivasse a ingressar na carreira política.

Num espaço de quatro anos, Adolf fica ainda mais isolado. Aos 14, perdera o seu pai, aliviando, ao mesmo tempo, a pressão que sentia. Implodiu em si, naquela altura, toda a repressão da sua criatividade. Perdeu-se com os lápis nos desenhos e com os pincéis nas pinturas, lia compulsivamente e revelava apetência para a escrita, preferencialmente para os poemas. Nestes, encontraria uma importante forma de comunicar. A sua primeira paixão, Stefanie Isak, judia, era o tema e o alvo de muitas das suas escrituras. A não reciprocidade levou a que pensasse no suicídio, no Danubio, algo que nunca esteve perto sequer de acontecer.

Aos 18 anos, dá-se o maior rombo na vida de Adolf Hitler. Klara, a mãe, morre, vitimada acidentalmente por iodofórmio, usado para o tratamento do cancro da mama, na altura. Eduard Bloch, o médico que tratava do caso de Klara, era judeu, mais um a cruzar-se com Hitler. Sempre pensara que a morte por envenenamento fora premeditada por parte de Bloch. No livro Como a Primeira Guerra Mundial levou ao Holocausto, o seu autor, Joachim Rieker, aponta este como o ponto crucial para a definição de Adolf Hitler. ‘‘Hitler nunca perdoou o médico judeu. Em conversas com os seus ajudantes, como Josef Goebbels, ele referia-se aos judeus como uma ferida e a ele como um ‘remédio’, que teria de eliminá-la”, refere, no livro.

Nessa sua fase, um dos seus maiores apoios era o seu melhor, muitas vezes apontado como único, amigo – August Kubizek. Ainda assim, a orfandade fez com que se entregasse profundamente na luta por uma carreira artística. Mudou-se para Viena, onde fez exames para ser admitido numa academia de artes. Reprovou nas duas tentativas que fez. Nunca fora dedicado à escola, ou à disciplina. Sempre preferiu o comodismo do seu mundo e a alegria das cores que manejava. Todavia, a morte da mãe e a sua paixão não correspondida, sempre com uma figura judia por detrás, carimbaram em si o mais negro dos sentimentos, do qual não saberia, ou quereria mais sair.

A sua vida em Viena era instável. O dinheiro que o mantinha, vinha da herança deixada por uma tia materna. Continuava a consumir cultura e a pintar, o que lhe permitia ganhar algum sustento para os seus dias, estes cada vez mais marcados por traços pangermânicos, alimentados pela expansão do anti-semitismo que se enraizava ainda mais nitidamente na capital austríaca e no sul da Alemanha. Daí até se fixar no ideal da raça Ariana e confirmar um ódio crescente  sobre a comunidade judia foi um ápice.

Segunda aparente contradição: mergulha no exército alemão, aquando da Primeira Grande Guerra. Fixou-se como mensageiro fora do País. Contradição, porque ao mesmo tempo que Adolf acreditava que estando do lado das forças isso significaria estar mais perto de uma realização pessoal aquele mundo nunca fora o seu. Na verdade, fugira para Munique, com o auxílio financeiro de uma herança recebida pela parte do pai, no intuito de escapar ao serviço militar. Não fora absolutamente bem sucedido – submeteram-no a exames a fim de que alistasse no império Austro-Hungaro, a que veio a chumbar, sendo considerado inapto.fuhrer

Por ter revelado um empenho surpreendente e não ter falhado para com a pátria mereceu duas condecorações. Entregara-se à sua função com tudo o que tinha. Interpretara aquele momento como o seu, do qual nada o faria abdicar, a menos que o sucesso nas artes surgisse. Desenvolvera, ao longo dos quatro anos de tumultos, um patriotismo exacerbado, ainda que não fosse alemão e isso elevou-o a um patamar de interesses que antes não tinha – carreira política.

A vida de Adolf era, assim, de aparentes contradições. Os ideais estavam lá, o conceito também. O foco fora sempre o mesmo e os ideais acabaram por se ir alterando de forma a que pudesse atingir o que queria. Num espaço de menos de dois anos, Adolf embarcaria na viagem do Partido dos Trabalhadores Alemães, em que se torna, desde logo, notado pela capacidade visionária. Chegou rapidamente à liderança do partido com a divisa do anti-semitismo. Alterou o nome do grupo para Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, fez da suástica a bandeira do movimento nazi, tendo adoptado o cumprimento que caracterizava o fascismo italiano. Efectivamente, Adolf não gostava de privar com gentes da política à excepção de Benito Mussolini, de quem se tornara muito amigo.

O Der Stürmer, um jornal conduzido por Julius Streicher, seria o porta-estandarte da mensagem de Hitler. Ali, ele encontrara o propagandista ideal, que levaria a sua filosofia mais facilmente a um maior número de pessoas. Contudo, Hitler via a sua vida política algo difusamente. Era o final de 1923 e o ego de Adolf Hitler exultava – preparava um plano para tomar o poder político na Baviera, primeiramente, para depois lançar-se para o resto do país, isto apenas quatro anos depois de se iniciar na política. Seria a sua primeira derrota – aquela espécie de golpe de Estado, que ficou conhecida como o Golpe de Munique, em dois dias frios de Novembro, fracassara, resultando na prisão de Adolf e de outros membros importantes do Partido.

Hitler cumpriria uma meia dúzia de meses na prisão, pese embora a condenação de que tivera sido alvo – cinco anos. Saíra mais cedo por ser considerado inofensivo. Ocupara o seu tempo na cela com os seus escritos, que resultaram, mais tarde, na sua obra Mein Kampf. Editado um ano depois de ter começado a ser escrito, Mein Kampf – A Minha Luta – conheceu dois volumes. O primeiro falaria genericamente do seu perfil enquanto pessoa  – referiu-se mais ao pai do que à mãe – e de críticas relativamente à gestão política, na sua opinião péssima,  na Alemanha. O segundo volume já trataria mais expansivamente as suas ideias e objectivos para o País e explorou também a cultura de massas e  a hierarquia que estabelecia nos grupos sociais – as pessoas eram consideradas conforme os atributos físicos e psicológicos.

A sua estadia na prisão causara outra contradição na sua vida – o seu partido ficara praticamente arruinado e ao mesmo tempo Mein Kampf tinha ganho corpo e tornar-se-ia a sua Bíblia e um objecto de quase veneração. Na verdade, o livro era entregue aos pais de crianças recém-nascidas, a jovens recém-formados, sendo também a sua típica oferta de casamento. Na vida política, ganhara força suficiente para reinventar-se, através da Unidade de Protecção, comandada por Heinrich Himmler, com base no ainda mais profundo anti-semitismo, difundido especialmente por micro-grupos propagandistas, como as juventudes hitlerianas.

(Excerto do documentário histórico e biográfico Mein Kampf)

À entrada da década de 30, o Partido Nazi começa a ganhar força sustentada, superando consecutivamente os seus resultados. Sem surpresa, Paul von Hindenburg, outrora Presidente da Alemanha, nomearia Hitler como Chanceler alemão – ainda que este não reunisse o consenso entre os alemães –, após ter demitido Kurt von Schleicher. O juramento de Adolf Hitler ocorreu há sensivelmente 80 anos, a 30 de Janeiro de 1933. Era a maior prova de que conseguira o mais difícil aos olhos dos seus companheiros nazis. Agora, havia que arrepiar caminho – tratar da limitação social das raças não-puras, levando a cabo os ideais arianistas; pôr, fundamentalmente, a Alemanha a funcionar à sua imagem.

Hitler tinha duas imagens aos olhos dos alemães que não podiam ser mais antagónicas entre si. Era o génio ou o monstro. Para muitos, tinha todo o potencial para afirmar-se como um dos mais marcantes líderes da história da Alemanha. Tornara-se, de facto. No entanto, com a sua faceta monstruosa. O ódio contra os judeus teve, como se sabe, ponto máximo na Segunda Guerra Mundial – 1939-1945 –, na qual Hitler quis o extermínio total dos judeus na Europa. Nunca deixaram de ser estes o bode expiatório preferido do Führer.

O Hitler tornara-se refém do seu desejo, do seu sonho, para a Alemanha e para a Europa utópicas que viviam na sua cabeça. Era o homem das contradições, que tão depressa se deparava com tentativas de homicídio, como com o facto de ser a personalidade do ano, algo que aconteceu em 1938. Achou sempre que estava mais perto de uma vitória do que de uma derrota. Na verdade, os primeiros anos da segunda grande guerra assim o provaram. Mas em 1943 o fantasma do fracasso já lhe aparecera. O Adolf, era um homem recatado, criativo e sonhador. Tinha, no seu encalço, Heinrich Hoffman, o seu fotógrafo de longa data, com o qual traçaria uma amizade forte e, principalmente, Eva Braun, sua companheira, com a qual se veio a casar horas antes de se suicidarem, juntos, no sofá do abrigo que os acolhera nos dias finais da batalha da sua vida, na consumação da sua derrota.

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Vítor Teixeira

Gosta de letras e do que se pode fazer com as mesmas. Interessa-se por compreender e comunicar tudo o que se passa à sua volta, exactamente um género de repórter-sombra, solto, por aí.

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