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De acordo?

Passou-se o 25 de Abril e o chega aí o 1º de Maio e queremos muitos de nós falar das conquistas, das liberdade e direitos dos trabalhadores. Vendam-se e usem-se cravos vermelhos. Será sempre um dever de qualquer governante digno honrar e recordar esses dias e momentos da história.

Esta luta infindável que sempre oporá duas partes, patrão e trabalhador, governo e governado, comporta, como qualquer outra relação bilateral, a ausência de consensos e a necessidade de acordos. Sob pena de a coisa ficar feia para um dos lados. E mais tarde para o outro. Pois, como já vimos, as pessoas fartam-se e revoltam-se. A revolta, ainda assim é quase sempre preferível, por oposição, à estagnação. Aquilo em que não se mexe, que jaz, que apodrece, cheira mal. Diria que, ciclicamente, será quase sempre bem vinda a revolta. E imprescindível a capacidade de nos exprimirmos e revoltarmos.

Por estes dias, a propósito da libertação dos campos nazis e da derrota das tropas de Hitler, revia, num canal televisivo, a sociedade alemã a reconstruir-se e os próprios cidadãos, obrigados pelos Aliados, a enfrentar milhares de corpos e a enterrarem-nos. Era também um acto de tomada de consciência da sua culpa. Dizia-se algo como: “As pessoas todas foram culpadas, pela sua cobardia”. E, ao pensar no 25 de Abril e em todas as decisões que são tomadas em “nosso” nome e para “nosso” bem, sem que nos perguntem coisa nenhuma, parece-me que entre cobardia e ignorância, assim vamos andando. Foi cobardia e muita ignorância o que levou a que uma ditadura perdurasse e que se cometessem as atrocidades nos campos de concentração.

Assiste-se, neste momento, a “ditaduras” das Empresas, das Corporações e do Lucro. Os bancos “roubam” o dinheiro ao cidadão, tornam-no miserável, em consequência de políticas feitas à revelia do eleitor, e, em Portugal como noutros países, continuamos todos como se nada fosse. Por cá, as manifestações dão-se apenas nos transportes para complicar ainda mais o dia-a-dia.

Acordos internacionais, como o Tratado Transatlântico, preparam-se para impor políticas de lucro e exploração sem qualquer preocupação ambiental, social, cultural – porque essa não é a vocação das empresas, mas sim do Estado – e ninguém fala disto.  Vamos todos assinar, pela mão dos governos nacionais e europeus, leis que exploram o Homem e os Recursos de uma forma criminosa. Cobardes e Ignorantes, queixando-nos que ganhamos mal e que a vida está difícil. Assim se vai andando, com a cabeça entre as orelhas, até à próxima revolução, se ainda tivermos a capacidade de a fazer.

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Ricardo Jorge

Lisboa, 1978. Licenciado e mestre em Arquitectura pela Universidade de Lisboa, estudou também Design e Ensino das Artes. Paralelamente a estas áreas desenvolve trabalho em Ilustração e Desenho com exposições regulares em Portugal.

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