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Das correntes que nos colocamos

Tinha oito anos e lembro-me desse dia como um precipício.

“Esse branco do teu pai”, cuspiu a minha avó preta, nem me lembro porquê.

Eu estava sentado no sofá, de pés pendurados. Olhava para um abismo qualquer interior, a pensar no que seria eu, nem branco nem preto, num limbo racial caótico.

A música africana estava alta e a minha família preta dançava. O rabo espetado, cada centímetro do corpo em movimentos selvagens e graciosos, duros e emotivos, animados por um sopro qualquer. Como se África estivesse mais perto das batidas do coração do Universo e dançasse seguindo a sua pulsação. Como se aquilo que somos por dentro estivesse descontroladamente feliz. As minhas primas riam e competiam nos passos elaborados, algumas mais novas do que eu, tranças esvoaçantes, entre as notas da música surgiam gargalhadas infantis. Eu sentado no sofá com dúvidas adultas, contrastando com elas, sobrancelhas unidas na dúvida, algo sem nome a abrir-se dolorosamente em mim. O meu pai encostado a uma porta, a bater palmas descompassadas, a observar a alegria da minha mãe no seu mundo. Ela a sorrir e a chamá-lo com os dedos e com as ancas. “Esse branco do meu pai” que não sabia dançar, não aguentava o picante, queimava-se no sol. Eu tinha saído a ele – desajeitado, insosso e de pele clara.

Esse dia foi como um precipício:

Nunca tinha passado muito racismo na pele, embora não me fosse desconhecido: alguns meninos na escola que tornavam a palavra “preto” num insulto; brancos e pretos que olhavam com nojo para os meus pais juntos; os meus avós paternos, que tinham escolhido não fazer parte da nossa vida; a minha avó materna, desprezando o meu pai. Só que no momento em que ela disse aquilo, percebi que “branco” podia ser tão negativo como “preto”, que “preto” podia ser tão positivo como “branco”; que cada um dos meus pais pertencia a um lado diferente; que, apesar de tudo, tinham escolhido pertencer ao mundo juntos. E entendi que eu acabava por ser duas coisas, o que era o mesmo que não ser nenhuma, o que era o mesmo que não pertencer a lado nenhum.

“O menino é de onde?”, arrasaram-me um dia, com um sorriso. O tom era de curiosidade, mas a pergunta fez-me sentir estrangeiro, “o outro”. Era como se tivessem afirmado: tu não és como nós, tu não fazes parte de nós. A minha mãe sorriu e permitiu-se uma conversa – a família era originária da Guiné, mas tínhamos nascido cá. O senhor falou dos bons tempos que tinha passado em África e das saudades. Eu não consegui ver boa intenção, só pensava que era verdade o que dizia a minha avó preta: “os mestiços não têm bandeira”. Não estava preparado para descobrir isso e muito menos para tudo o que comecei a sentir.

Procurava desesperadamente um lugar utópico onde eu faria parte de qualquer coisa, nem que fosse de uma grande multidão que também não fizesse parte de nada. Em todos os espelhos – os de vidro, os de plástico, os olhos dos outros – me via desajustado por causa do meu tom de pele. Eu era menos, pensava. As piadas bem-intencionadas caíam-me no estômago como uma rejeição. Quando as brincadeiras passavam a insultos e quando a raiva pintava as conversas, eu mantinha-me à parte. Quando insultavam brancos ou pretos e me salvaguardavam “mas tu não és assim” ou justificavam “eles ainda não mais racistas que nós”, eu concordava na ânsia de pertencer. Ignorava a dor no peito, mordia os lábios e as lágrimas. A vergonha e o orgulho de mãos dadas, inadequados e exagerados. Sentia vergonha: um preto desonesto, ou um mal-educado nos transportes públicos, a chamar racista a quem o chamava à razão, como se sozinho condenasse a raça. Sentia orgulho: um preto bem-sucedido, ou um que apenas se levantava para dar lugar a alguém mais velho, como se sozinho redimisse a raça. Como se todos eles fossem o meu espelho. Como se não fôssemos todos só pessoas. Só isso. Só pessoas.

Os meus pais não percebiam o que eu sentia. Cada um deles vivia totalmente naquilo que era; eu não passava de uma divisão. Cada um deles estava confortável e seguro no seu corpo, no seu micromundo, nos seus costumes; eu era empurrado por cada um dos meus lados, demasiado um para ser outro, até me encontrar numa fronteira que só eu habitava. Na altura ofendeu-me a sua incompreensão. A deles e a de muita gente, das pessoas que não estavam na minha pele e me diziam como é que eu me devia sentir. Hoje sei que é normal: as pessoas sentem o que sentem e pronto, independentemente dos outros, do que eles digam ou queiram ou sintam, e que só resta respeitar quando não podemos ajudar a resolver. Existem muitos mal-entendidos verbais e emocionais no mundo – dizemos uma coisa, percebemos outra, sentimos outra ainda. Eu, que pouco tinha vivido o racismo, via-me totalmente rejeitado. Sempre o outro. “Já pensaste que tu é que estás a ser racista?”, perguntaram-me os meus pais um dia. “Racista com os outros e contigo próprio?”

Estava no sofá da minha casa, já adulto, quando o precipício começou a fechar. Não sei em que dia foi. Vi qualquer coisa na televisão e senti um abanão dentro de mim, palpitações como um ritmo africano, um terramoto. Recordei essa noite de festa e dança. Mas soube de repente que aquelas correntes pesadas à volta dos meus pulsos tinham sido colocadas por mim mesmo. Os meus pais tinham razão: rejeitado, sim; absolutamente rejeitado por mim mesmo. Olhei para os meus braços, esperando vê-las cair fisicamente. Sentia que o me cansaço ia escorrendo de mim. O mundo parecia tão diferente que chorei. Conseguia respirar pela primeira vez.

Decidi naquele minuto que a minha pátria eram os meus pais. Era eu. Libertei-me das regras invisíveis que classificam os melhores, que separam as fronteiras, que diferenciam as raças. Lavei os meus olhos cegos, que tinham deixado de ver os sorrisos e a beleza, concentrando-se, aumentando e distorcendo o mal. Pensei na sorte que tinha tido de não ter passado por praticamente nenhum tipo de preconceito, quando os meus antepassados tinham limpado cuspo da cara e lutado para serem vistos como pessoas. Ainda havia países a lutar por direitos básicos, pessoas raptadas e mortas pela diferença – de todas as raças, géneros e nacionalidades. Grita-se muitas vezes lobo, e depois os outros ignoram o lobo quando ele realmente nos morde as canelas.

Tive coragem para me rir à gargalhada das piadas de pretos contadas por brancos e de brancos contadas por pretos; para fazer conversa com quem queria saber mais de mim e da cor exótica da minha pele; para não me desculpar pelo que sentia e também para saber ver mais além disso; e para sorrir e responder “as generalizações são perigosas” ou “desde quando o errado se justifica com o errado?” quando o tom da conversa passava os limites. Os meus limites. Os meus novos e felizes limites. Porque o preconceito existe. Mas nem sempre. E certamente que não é tudo. O mundo é tão mais do que isso.

Nesse dia que lembro como um precipício fui incapaz de ver mais além: apesar da diferença e do desprezo, o amor dos meus pais unia-nos a todos. Somos só pessoas. Só pessoas. Mas somos também muito mais do que aquilo que pensamos ou que fazem de nós. E, embora eu seja muitos, os meus pais escolheram fazer de mim o melhor dos dois.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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