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Dar o Rabinho ao Manifesto

Aposto que neste momento estás a coçar a cabeça e a pensar: “O que passou pela cabeça deste para escolher um título assim?” Ou, então, estás a questionar-te sobre se irei falar-te de pornografia, ou algo parecido. Posso já avançar-te que, desta vez, não me irei debruçar sobre temas tão mundanos como a pornografia, apesar de pretender tocar num assunto que roça o pornográfico. Falo, claro está, dos títulos de jornais e da forma com a comunicação social os usa para chamar a atenção, tal como eu usei este título para chamar a tua atenção. Resultou, não resultou?

Simples, conciso, claro e atractivo. Assim devem ser os títulos jornalísticos para chamar a atenção dos leitores. Estes devem ser um resumo da notícia que se segue e bem escritos para motivar os leitores a ler o assunto noticiado. É a partir dele que o leitor vai saber se o que está na notícia lhe interessa, ou não e se vai continuar com a leitura. O título é o que realmente tem mais destaque nas páginas dos jornais, é para eles que os leitores olham em primeiro lugar, deixando para trás os leads, o próprio conteúdo e as imagens. Por vezes, os títulos juntamente com as imagens são mesmo a única parte que o leitor atenta no jornal. Nos dias de hoje, a vida agitada leva o leitor a querer consumir informação em menor tempo possível e, portanto, passa os olhos pelas páginas de um jornal, saltando de título em título, até alcançar algo que lhe prenda a atenção.

O facto de o leitor se interessar, ou não por ler uma notícia deve-se a um título bem elaborado e atractivo capaz de chamar a sua atenção e de conseguir retê-la. Tem de saltar à vista, surpreender e despertar em nós o desejo de saber mais sobre o assunto da notícia. Um título vende, sem dúvida, uma notícia, ou até uma edição de um jornal. Porém, por vezes deparamo-nos com títulos que dizem mais do que as próprias notícias, ou, então, que não dizem nada relacionado com o que é noticiado. Muitas vezes existem títulos jornalísticos exagerados só para chamar a atenção para uma notícia cujo conteúdo não está relacionado com o título. Outras vezes os títulos apontam para uma ambiguidade, podendo mesmo trazer uma ideia contrária ao que o texto vai desenvolver, com o objectivo de quebrar expectativas.

Quando se fala em sensacionalismo, fala-se em questões de fundo e de forma: tratar a informação de modo incompleto, ou parcial e apresentar essa informação num formato excessivo, ou enganador. Sensacionalismo é, também, sugerir aos leitores que se tem aquilo que de facto não se tem, ou dar a entender que se dispõe de certezas inquestionáveis, quando o que há são opiniões, hipóteses, casos isolados. Sensacionalismo é, enfim, fazer apelo a reacções mais baseadas na emoção do que na razão, simplificando questões, tocando sentimentos, suscitando respostas primárias e imediatas, em vez de fornecer elementos que permitam pensar, compreender, formar opinião. Neste contexto, não interessa só aquilo que num jornal se diz, mas também o modo como se diz.

Exemplos deste modo de vender jornais não faltam. Basta recordar o dia 14 de Dezembro de 2013, quando sete jovens tiveram um terrível final de noite no Meco, ao serem engolidos por uma onda, tendo apenas um deles a sorte de sair com vida. Foi a primeira vez que vi um caso destes nas nossas praias e foi também a primeira vez que vi o nosso jornalismo perder a parcialidade sempre que falava de praxe, acusando-a de ser cobarde e de fazer mal aos jovens, numa transmissão de informação completamente medíocre e podre. Sensacionalismo barato.

Existe uma crise dos media. Uma crise explicada pela corrida para o simplismo e para o sensacionalismo, acompanhada pelos cortes abruptos na qualidade da comunicação social. Os leitores continuam a querer compreender aquilo que acontece no mundo e isso exige um jornalismo que vá para além da histeria das aparências, feito por jornalistas que vão aos locais para contar as histórias e entender as pessoas e as suas circunstâncias. Em pleno século XXI, os nossos jornais têm muito menos leitores. Porém, não foram eles que desapareceram, são os jornais, a comunicação social e os jornalistas que não estão a cumprir devidamente o seu papel de informar com qualidade. O que fazem não serve.

Existe ainda, na minha modesta opinião, outro problema com o jornalismo actual. Se queremos fazer jornalismo a sério, se queremos ter jornais dignos desse nome, então, temos de os pagar e isso é um problema. Não é possível ter jornalismo verdadeiramente isento e imune a pressões, enquanto um jornal para sobreviver precise da publicidade. Para isso, é necessário ter consumidores que estejam dispostos a pagar o preço justo de capa. Melhor dito, é preciso que um jornal tenha um preço de capa que, por si só e em conjunto com as assinaturas, suporte todos os custos do mesmo. Ora, eu tenho sérias dúvidas que isso se consiga. Pelo menos em papel. Sérias dúvidas.

Tendo os consumidores “normais” fugido do papel para o digital, quem sobrou? Os consumidores que gostam de sangue e uma espécie em vias de extinção – os aficcionados do papel. Por isso mesmo, quem ainda investe em jornais, como quer o retorno do seu investimento e o óbvio lucro, seguem o caminho do sensacionalismo. Um mau caminho. Ou melhor, um caminho óbvio, escolhido por quem investe e quer ter resultados. Sejamos pragmáticos: se não fosse a SONAE a suportar os prejuízos, o Público ainda existia? Se não fosse o investimento gigante que Joaquim Oliveira fez e que procura desesperadamente recuperar, será que o DN ainda estaria nas bancas? Se não fosse a força comercial da marca JN, será que ainda existia o único diário do Norte de Portugal? O problema também está nos consumidores que restam, na dependência da publicidade e na falta de uma fórmula no digital que permita a sobrevivência do jornalismo de investigação, ou, por exemplo, do jornalismo de guerra.

Que a realidade com que diariamente nos confrontamos é por vezes chocante, não se contesta. Que os assuntos não devem ser tabu só pelo facto de bulirem com áreas mais sensíveis das pessoas, aceita-se. No entanto, há muitas maneiras de tratar assuntos sensíveis e chocantes. Aliás, é precisamente por aqui que passa uma das distinções fundamentais entre jornais: enquanto leitores, escolhemo-los e apreciamo-los não só pelos temas que escondem, ou revelam, sendo que boa parte dos temas da actualidade são, hoje, comuns à generalidade da Comunicação Social, mas pelo modo específico como os abordam, como os desenvolvem, como os tratam. E, claro, pelo modo como os apresentam. Mesmo quando são, em si, potencialmente chocantes…

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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