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Dai-me vinho e dai-me música

Ouvi um dia, na Antena 2, que o maestro e compositor Fernando Lopes Graça não tolerava comer e ouvir música ao mesmo tempo. Ao que parece, chegava a ser desagradável e mal-educado, recusando-se a alimentar-se ao som de qualquer música.

Entendo uma parte. A música – através dos músicos – foi, durante séculos, um penduricalho que os poderosos acrescentavam à refeição. Comer, falar, gritar e sabe-se lá o quê é, de facto, achincalhante para quem está a exercer a nobre arte da música.

Lopes Graça, como todos os génios (garantem-me amigos esclarecidos em música, embora não entenda a sua obra e não a aprecie), tinha “génio”. Há algumas pessoas que têm esse direito de “absolutismo” e penso que, só por uma questão de princípio, de conceito, se recusa a música dum disco, ao mesmo tempo que se saboreia uma sopa.Talvez não haja nada de mais nobre do que a comida, pois é graças a ela que nos mantemos vivos. Mesmo a mais barata e má consegue saciar a fome. Aqui, em comida, incluo a água, o vinho…

Juntar artes é coisa antiga. O teatro, o bailado, a ópera ou o cinema são arte em si mesmos e ainda agregam diferentes ofícios. Por isso, não vejo por que não há-de o espectáculo (quando o é ou tenta)da refeição contar com a música.

Seguindo o raciocínio de Fernando Lopes Graça, reconheço que, por vezes, juntar alimento a som é uma catástrofe. As casas de fado – além de fazerem mal ao fado, porque lhe negam a verdade do nascimento – são oficinas de malfeitorias.O bife está tão bom, mas tenho de parar de o comer, para não ser mal-educado com o fadista. Tenho sede e não tenho água, mas não posso pedir, porque a fadista está a cantar. Seis fados depois, as dez mesas pedem 15 garrafas de água ao mesmo tempo aos dois empregados, que correm para buscar três jarros de vinho da casa, quatro cestos de pão, três manteigas e os palitos.O bife que passara de quente a frio já está em sola, o copo do vinho já tem água, porque o empregado se esqueceu de trazer um outro copo e já não dá para resolver, porque passaram os cinco minutos de intervalo. As casas de fado fazem mal ao fado e à comida. Sim, há situações em que comida e música não podem (!) juntar-se.

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Há músicas para momentos diferentes e o mesmo acontece com o vinho e a comida. Os prazeres e as companhias fazem-se. Em improviso jazístico debito:

  • A Tocata e fuga em ré menor BWV 565 e espumante Quinta das Bágeiras Super Reserva 2011: Johann Sebastian Bach e Mário Sérgio Nunes.
  • The Golden Age (The Astroids Galaxy Tour) e Mateus Rosé.
  • Oh Fortuna (Carmina Burana) e Quinta do Vale Meão 2007 – Carl Orff e Francisco Olazabal.
  • Música para o fogo-de-artifício Real (George Friedrich Handel) e Taylors Scion (viticultor anónimo do século XIX).
  • Cantaloop e Beyra Quartz Branco 2011 – US3 e Rui Reboredo Madeira.
  • Senhora dona piela e Faisão Adamado – António Mourão num fado muito
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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa. Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais. Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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