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Da literatura à realidade: o imaginário dos vampiros

Nos últimos anos, assistiu-se à proliferação de um interesse renovado sobre histórias de vampiros, quer em sagas televisivas, quer em romances, transpondo para a contemporaneidade antigas lendas, recriando-as em novos cenários. Todavia, o local por excelência destas criaturas continua a ser a Europa Central e com razões para isso. O Conselho Municipal da cidade sérvia denominada Zarozje emitiu, no mês passado, um comunicado de saúde pública, alertando para o facto de o alegado vampiro que, segundo a lenda, assola a região, estar à procura de novas presas. O que parece ser um guião de um novo filme, trata-se afinal da realidade.

Sava Savanović, assim se chama o vampiro, é um dos mais conhecidos do folclore sérvio. Segundo a lenda, vivia num moinho da região e alimentava-se do sangue de quem procurava o moinho para transformar em farinha os seus grãos. Acontece que o moinho que lhe servia de morada colapsou e está em ruínas, fazendo crer que procurará uma nova moradia e levando os moradores a pendurarem réstias de alhos às suas portas.

O arqueólogo forense Mark Collins Jenkins, autor de Forensics Vampire e arqueólogo forense, e o antropólogo Matteo Borrini consideram que, apesar de poder tratar-se de um esforço para atrair turistas, a história demonstra que não se trata de um fenómeno raro. Nas sociedades antigas, aquilo que chamam de histeria vampírica, coincidiu com períodos de surtos de pragas e pestes. Face à alta da mortalidade, as populações atribuíam a culpa a criaturas sobrenaturais, como bruxas e vampiros. Além disso, os altos índices de mortalidade e o medo da contaminação da peste, obrigavam à abertura de valas comuns, onde os mortos eram enterrados. Essas valas comuns seriam continuamente reabertas, para enterrar novos mortos. Ao deparar-se com os corpos anteriormente aí depositados e sem conhecimentos alguns sobre a decomposição dos corpos, reparavam como muitos deles apresentavam, perto das bochechas, uma acumulação do que pensavam ser sangue, mas que se trata apenas daquilo que a moderna ciência forense denomina de líquido de purga, isto é, dos líquidos decorrentes da decomposição natural do corpo humano que, pela sua cor, é facilmente confundida com sangue. Face a isto, muito facilmente atribuíam a causa da peste àquele que primeiro tinha morrido.

O fenómeno da licatropia, ou seja, da transformação do homem em animal, nomeadamente em lobo, era também recorrente, uma vez que constantemente junto das sepulturas dos supostos vampiros se encontrarem pegadas destes animais. O fenómeno é facilmente explicável pelo cheiro do corpo em decomposição, que atraía matilhas de cães vadios e esfomeados.

Bela Lugosi no papel de Drácula, no filme homónimo de 1931, baseado no romance de Bram  Stoker e estreado em Portugal apenas em 1976.
Bela Lugosi no papel de Drácula, no filme homónimo de 1931, baseado no romance de Bram Stoker e estreado em Portugal apenas em 1976.

A solução do alho como tendo poderes apotropaicos, isto é, como tendo o poder de afastar os maus espíritos, prende-se com o facto de esta planta possuir um cheiro forte. No entanto, terá sido a literatura romântica do século XIX que terá popularizado especificamente o alho como o remédio eficaz contra os vampiros, assim como foi também a culpada da proliferação de muitos outros mitos associados aos vampiros, tal como hoje os conhecemos nos nossos dias. O fascínio que o tema atrai, visível pelo sucesso de filmes e séries televisivas, advém das características assumidas pela literatura do século XIX e pela cinematografia do século XX, que associaram os vampiros à aristocracia, à sedução e, sobretudo, a amores proibidos, aliando a isto tudo a persistência do medo pelo desconhecido, nomeadamente da vida para além da morte. Porém, na realidade, todas as exumações dos corpos suspeitos de vampirismo, tratavam-se de normais corpos em decomposição.

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Pedro Urbano

Nasceu em Lisboa em 1979, tendo frequentado o antigo Liceu de Setúbal. Licenciou-se em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e é actualmente doutorado em História pela mesma Universidade, onde também concluiu o mestrado em História Contemporânea.

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