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Cultura Portuguesa: ganha ou perde na era digital?

A evolução das tecnologias trouxe consigo vantagens e desvantagens. Se no campo das relações humanas fez com que as pessoas se isolassem e perdessem contacto físico, por outro lado, permitiram ao ser humano estar contactável em qualquer parte do mundo. Muitos defendem que as novas tecnologias vieram diminuir o consumo de bens tradicionais como os livros, jornais ou CDs. Outros acreditam que as novas tecnologias permitiram utilizar ferramentas bastante úteis no dia-a-dia e em qualquer lado, mas para a divulgação de conteúdos, em particular da cultura portuguesa? O desenvolvimento das novas tecnologias terá sido benéfico?

“A tecnologia, por vezes, facilita tanto as pessoas que já nem tentam ser originais e, muitas vezes, preferem agarrar num sampler do que aprender um instrumento real, o que é um pouco lamentável”, diz Pedro Raposeira, autor do site Cordas Portuguesas. O projecto que surgiu no âmbito de mestrado, mas que continua, com o objectivo de divulgar os “cordofones tradicionais portugueses, já que normalmente esse material é mal apresentado, ou pouco desenvolvido. Pretendi criar um elo de ligação entre os construtores e músicos com o utilizador comum”, apostando também num site adaptável às plataformas móveis.

Apesar de achar as tecnologias um benefício dos dias de hoje, nem por isso Pedro Raposeira acha que há uma boa divulgação da cultura portuguesa. “Somos bombardeados por tanta informação que já não ligamos tanto ao que nos rodeia, por outro lado, a maior abertura ao mundo faz com que diariamente preferíssemos conteúdos estrangeiros aos nacionais”.

Ana Cerdeira, fundadora do Aliment Art, concorda. “Ainda se valoriza muito pouco e descredibiliza a cultura portuguesa”. O seu site, criado na rede Tumblr, nasceu da sua paixão pelas artes visuais, como a fotografia e a ilustração. O que inicialmente era para ser uma plataforma de divulgação de trabalhos próprios, acabou por se transformar num “interesse em divulgar os artistas desconhecidos”. Quanto à tecnologia, Ana acredita que por ser um meio “rápido, eficaz e em grande escala”, pode vir a tornar-se numa importante ferramenta da divulgação da cultura portuguesa, “seja relativamente a novos projectos ou às nossas tradições”.

“Hoje em dia existe uma maior divulgação da cultura portuguesa e muito se deve sem dúvida às novas tecnologias”, contrapõe Ana Mateus, acrescentando que são já alguns os sites que se dedicam exclusivamente a esse propósito. Ilustração Contemporânea Portuguesa, projecto de que é fundadora, nasceu como uma tese de mestrado e, desde aí, tem vindo a crescer, com o objectivo de “intensificar a importância do papel da ilustração nos dias de hoje, na sua relação com o design gráfico, contribuir para um maior interesse pela ilustração contemporânea portuguesa e incentivar o público a participar e a criar ilustrações, através de concursos”. Demonstrando, assim, que a ilustração é também a sua grande paixão, porque “é uma forma de expressão, uma marca, baseada em ideias e imaginação, flexível a vários estilos. A ilustração sempre foi o grande motivo pelo qual continuei a estudar, a desenvolver-me profissionalmente e a procurar outras áreas de estudo com que me envolvo”.

Ana Cláudia Silva constatou que “o que vemos é que não há assim tanta divulgação da cultura nacional, porque não vemos na TV, ou nas rádios alguém que toque viola da terra, ou campaniça e muitas das pessoas nem sabem do que se trata”, no entanto, assume que a tecnologia contribui “para essa divulgação, no ponto de vista que une as pessoas. Agora é preciso que alguém fale dessas tradições / projectos e isso, a nosso ver, ainda não acontece”. Ana Cláudia é uma das coordenadoras do projecto A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria, uma plataforma online que pretende “gravar, documentar e divulgar a enorme variedade de música feita em todo o Portugal” e que tem vindo a estabelecer algumas parcerias nesse sentido, uma delas foi no Festival Bons Sons, este ano em Tomar, onde levou alguns dos “seus” a um espaço conhecido como o palco A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria.

Já antes da Internet e destes sites surgirem, havia outros meios de divulgação da cultura portuguesa. As embaixadas portuguesas, por exemplo, têm um papel importante neste aspecto: levar aos muitos locais onde estão instaladas um pouco do que é português, através de uma programação diversificada que permita mostrar várias áreas da cultura nacional.

Hoje em dia, surgem cada vez mais sítios online com o objectivo de mostrar novos artistas, sejam criados pelos próprios, ou não. Ana Cerdeira deixa uma mensagem de esperança para a cultura portuguesa – “acredito que se consiga mudar esta realidade [pouca valorização da cultura nacional] e acredito também que agora, nestes tempos de austeridade, se começa a valorizar mais quem ainda tem a coragem de desenvolver o que é português, a nossa excelente cultura!”

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Diana Teixeira

Desde cedo que quero ser jornalista. A investigação, a curiosidade e o gosto pela escrita levaram-me a licenciar-me em Comunicação Social, na ESEC. Gosto de viajar, de conhecer novas realidades e culturas.

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