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ContosCultura

Crónica de um sono eterno

Não havia melhor forma de passar uma tarde quente de primavera. Deitei-me no sofá, olhar preguiçoso vidrado na televisão a querer mascarar-se de noite. Não valia a pena combater por isso desliguei-a e deixei os olhos cerrarem-se. Fixei-me então no silêncio que inundava a sala de mãos dadas com a luz do sol. Quase a adormecer recordei quando quebravas o silêncio da tarde ao saltar do móvel em que te deitavas em frente ao sol. Não sei se ficavas com demasiado calor ou se apenas querias vir para junto de mim agora que me encontravas no silêncio de que tanto gostavas. As unhas batiam forte no chão de madeira e de olhos fechados via o caminho que traçavas vagarosamente sem sequer o definir. Para ti o tempo não tinha importância, não tinha sentido, era uma dimensão, e eu como te invejava por isso.

Eu sabia que sempre vinhas para perto de mim e por isso libertava o espaço que sabia que ias procurar. Saltavas para o sofá e deitavas-te depois de dar uma volta a ti próprio. Felino, tão felino tu eras.

Desta vez sabia que não ias conseguias vir. O tempo quando se apresentou a ti fê-lo com o peso da tua idade avançada. E não perdoou anos e anos em que o ignoraste. Sem surpresa começaste este novo dia à espera que te levassem. Já quase te tinham secado. Ainda deste lado olhaste-me e eu fui-te buscar. Deitei-te onde te deitarias se pudesses vir até aqui por ti. Assim ficámos. Assim permanecemos. O meu pescoço queixou-se e por isso mexi-me procurando maior conforto. Sem querer quase te atirei ao chão mas segurei-te e trouxe-te para segurança. Deixei a mão pousada a pentear o pelo negro da tua barriga. Adormeceste de novo sem reflexo de incómodo. E eu logo a seguir, embalado pela canção do teu ronronar. O teu último ronronar. O teu último ronronar foi um perfume de som que penetrou nas paredes e lá se alojou. Ainda hoje ouço-te quando faço silêncio.

Já sem forças, um ser derrotado numa luta que não podias vencer, esticaste a patinha com a última força que te restava e tocaste-me. Soltei uma lágrima. Sabia que ias partir. Vi a dor a atingir-te e frustrei-me na minha tão humana impotência. Não consegui fazer mais do que te falar, te acariciar tentando impregnar-te de amor. De amor que te protegesse nesta viagem final.

Praticamente assisti à morte a chegar e a roubar-te de mim. O teu último suspiro foi silencioso mas ainda ecoa no meu dia a dia. Arrancaram-te dos ossos e partiste. Em paz. No teu tempo. Na hora que foi escolhida para ti.

(…)

Eu apenas consegui ver-te a ir. Impotência, impotência. Fiquei com as lágrimas, a saudade que foi imediata e perdura intensamente, e fiquei com o teu corpo frio. Soube que tinhas ido quando olhei os teus olhos. Olhei-os e fiquei com a mais dolorosa imagem de que me recordo, a imagem do teu olhar sem ver, olhos negros, vazios, não mortos apenas sem qualquer vislumbre de vida.

Fechei-te os olhos com a palma da mão numa última festa. Hoje quando fecho os meus, vejo-te sempre em primeiro.

Dorme o teu sono eterno.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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One Comment

  1. RIP
    O tempo nunca é suficiente, além de um belo exemplar era um doce de gato, disponível e bem disposto. Viverá enquanto as boas memórias deles viverem contigo. Abraço!

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