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Criolo, o Chico Buarque dos nossos tempos

Conheci a música do Criolo como tantos outros, era 2011 e o hino à cidade de São Paulo, Não existe amor em SP, inundava as rádios nacionais. Fiquei logo com vontade de ouvir mais. Não são todos os dias em que ouvimos pura poesia cantada. A voz era Mel. Límpida, mas sem medo de roçar os limites da afinação e o sotaque brasileiro fazia o resto. Mais do que a melodia e a música era a energia e o carisma que transbordavam e que ainda hoje acho hipnotizantes. 

“Nó na Orelha” foi considerado um dos melhores álbuns desse ano. Reconhecido por toda a crítica por ser uma combinação mágica de vários estilos musicais, entre eles, rap, samba, música ligeira, funk.

Este foi o álbum que mudou a carreira de Criolo, antes conhecido no circuito hip-hop como Criolo Doido. A sua carreira já era longa (desde 1989) e dedicada inteiramente ao Rap. Tinha lançado, em 2006, o seu primeiro álbum de estúdio, “Ainda Há Tempo” (remisturado no ano passado), e foi o fundador das Rinhas de Mc`s que se mantém até hoje (exposições de grafitti, espectáculos e batalhas de freestyle de Mc`s) e que lançaram nomes como o de Emicida. Já com 38 anos “Nó na Orelha” era considerado pelo próprio como a última cartada para continuar o seu sonho. E deu certo!

Rodeou-se de músicos brilhantes e de produtores geniais (Daniel Ganjaman ainda hoje faz parte da sua crew) da nova geração e juntos fizeram história.

Ainda com este álbum fizeram digressões pelo Brasil e pela Europa, sempre com casa a abarrotar e com uma energia que impressionava qualquer um. Digo isto, porque fui a dois dos quatro concertos que o Criolo deu em Portugal (Casa da Música, Ármazem F, Festival de Faro e Avante) e ambos foram impressionantes. No entanto, foi o do Ármazém F que nunca mais vou esquecer. A casa estava cheia só para ele. Todo o público sabia as letras de cor e todos faziam questão de o acompanhar. Era impossível estar parada, a energia era contagiante e o sentimento era todos somos UM, independentemente da origem e da classe todos se identificavam de alguma forma com a mensagem que nos chegava pelo PA. Encores foram dois e não continuou noite fora, porque a banda estava exausta, tinham tido concerto em Paris na noite anterior.

Depois de “Nó na Orelha”, fez várias colaborações com outros músicos, nomeadamente com Emicida, com quem gravou um espectáculo ao vivo no Circo Voador, e com Ivete Sangalo, com quem fez um tributo a Tim Maia, espectáculo que percorreu o Brasil com o apoio da Nivea e originou um álbum de estúdio. Lançou dois singles (“Duas de Cinco” e “Coccix-ência”) em 2013 e, no ano seguinte, presenteou-nos com Convoque seu Buda que veio confirmar que o talento e a genialidade estão realmente lá. “Nó na Orelha” não foi apenas um tiro certeiro, tínhamos Criolo para durar.

Na semana passada, lançou “Espiral de Ilusão” que é uma Ode ao samba e que nos mostra novamente o verdadeiro artista. Sem medo de quebrar barreiras e de se apresentar num registo diferente, Criolo reinventou-se e oferece-nos um álbum inteiramente cantado, que nos conta histórias, nos faz sorrir e nos lava a alma. Cá em casa já passou a ser obrigatório em cada churrasco que fazemos.

Voz marcante e activa na sua comunidade e também na oposição a Temer, Criolo, ou antes Kléber Calvalcante Gomes, é uma pessoa genuína que não se deixou levar pelo glamour da fama. Talvez pelas bases fortes que tem. Embora proveniente de uma família pobre, também se pode dizer que veio de uma família lutadora e intelectual. Onde cada um teve de traçar o seu caminho por mais que não fosse o normal. Imaginas que a mãe de Criolo fez o secundário com ele, quando tinha 40 anos?  Exacto! Hoje é pós-graduada em Filosofia e especialista em Literatura e Semiótica e já tem vários livros publicados. Les Crioles é a página da família no Facebook, onde dão a conhecer as várias iniciativas culturais e socias que promovem dentro da sua comunidade.

Se acham que o título é exagerado e até ofensivo, vejam a opinião do próprio Chico Buarque.

Aquele Abraço!

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Joana Duarte

Sou uma eterna estudante de Jornalismo, uma vez que o curso ainda está para ser terminado, escrevo por gosto e em forma de desabafo. Em jeito de conversa e sem pretensões espero dar-vos a minha visão do meu/nosso Mundo.

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