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Conversas de balcão

Tigelas, cervejas, figos secos, amendoins, conversas de balcão e a ignorada “Vida Secreta dos Crocodilos” são o aquecimento para o clássico no Dragão.

Aproxima-se o cair da noite e já dois homens aguardam ansiosos pelo início do Porto – Benfica. A companhia não tarda em chegar. Fecham-se os guarda-chuvas e sacodem-se os casacos humedecidos pela chuva que já traz cheiro a inverno. Já o esfregar das mãos anuncia o frio que se faz sentir no exterior.

“Quero um branquinho”, ouve-se logo que começam a entrar os clientes. “Aliás, que sejam dois”, acrescenta o homem que já estava encostado ao balcão. As tigelas do branquinho da casa e as cervejas começam, então, a partilhar o balcão com os figos secos e os amendoins.

A hora do jogo, o vinho do cunhado que tem muito gás, uma fotografia tirada em Lisboa, quando furaram um pneu, a chuva do dia dos Santos e o castanheiro da Alfandega são os temas de conversa nesta “casa”, onde só a voz masculina nos soa nos ouvidos. Se ouvirmos com muita atenção, chocamos, ainda, com um contraste de línguas. Porém, o documentário “Vida Secreta dos Crocodilos” passa completamente despercebido.

Aqui, o Orçamento de Estado cai no esquecimento e as eleições norte-americanas nem são lembradas. Aqui, a política não é som de fundo, muito menos o documentário que está a dar na televisão, cujo som é abafado pelas conversas paralelas.

Perante este cenário, comecei a perguntar-me se o documentário passaria sempre completamente desapercebido ou se aquele era apenas um momento de descontração. Se as questões mais “aborrecidas” são sempre um mero som de fundo ou se simplesmente há momentos em que é preciso desconectar.

Claro que é legítimo que o documentário seja um mero som de fundo. Porém, que acontece se nunca chegar a ser escutado? Perdemos a oportunidade de saber o que poderiam estar a dizer e de encontrar algo que poderia ser útil. E o mesmo acontece quando ignoramos o mundo à nossa volta. Obviamente que não é necessário estar constantemente a consumir informação. Porém, é irresponsável ter sempre essa informação como um mero som de fundo do nosso dia-a-dia.

Muitos poder-me-iam contradizer, afirmando que não vale a pena escutar, porque nada vai mudar. Quanto a isso só posso dizer que não nos podemos resignar a um discurso fatalista, nem cruzar os braços e ignorar a realidade, pois só se o fizermos é que há a certeza absoluta de que nada vai mudar. Além disso, é preciso escutarmos para tomarmos decisões que podem ir desde o que vamos comer até em quem vamos votar.

Não sei se aqueles homens me poderiam contradizer ou não. Sinceramente, naquele momento também não o quis saber, apenas contemplei, mantendo em mente um desejo profundo de que a “Vida Secreta dos Crocodilos” algum dia fosse ouvida.

E, no café já com 30 anos, numa aldeia do Minho, lá continuaram cerca de dez homens à espera da vitória do Benfica, enquanto o dono queria saber se a “água da caixaria que tem uvas” estava boa antes de lavar a tigela. Contudo, antes de a lavar foi preciso mudar de canal. Afinal, naquele momento, o importante era saber quem vai ganhar o tão aguardado clássico.

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Marisa Mourão

Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. É apaixonada por uma boa história. Ainda é das que acredita que os media podem ajudar na construção de uma cidadania ativa.

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