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Contra a arte tradicional: o século XX e o dadaísmo

Na arte, o século XX ficou particularmente marcado pelo surgimento de um novo conjunto de manifestações artísticas, período ao qual se decidiu atribuir o nome de Modernismo. Destacando-se daqui o rompimento com os cânones tradicionais, surgem importantes avanços, sobretudo, ao nível de se pensar a produção artística e no significado que esta transmite, como é o caso do Dadaísmo.

A I Guerra Mundial encontrava-se em curso e havia uma necessidade de se afastar dos artistas dos campos de batalha e de se refugiarem. ‘Cabaret Voltaire’ era um grupo de jovens, precisamente, nessa situação. Como sinal de contrarrevolta, o principal membro do mesmo grupo, Tristan Tzara, afirmou, um dia: “o início de Dada não foi um início de uma arte, mas de um desprezo.” Daqui, começa a ser traçada a trajectória para se definirem as linhas do dadaísmo.

Desde, então, as manifestações foram várias, no sentido anti-artístico. Ou seja, de recusar todos os modelos pré-definidos de arte e de os reverter. Devem ser destacadas temáticas como a exuberância do absurdo, a exposição irregular quotidiana, o lançamento crítico do capitalismo, ou a aplicação de um cunho pessimista e, por vezes, irónico.

Com tudo isto, revela-se conveniente explicar onde entra Dada. Na verdade, não entra. Num Manifesto de 1918, Tzara explica que “Dada não significa nada”. Basicamente, trata-se de uma palavra usada para expressar o vazio, o nulo, mas também, como foi visto anteriormente, o absurdo. Numa interpretação subjectiva, pode ser verificada a aplicação das sílabas ‘da’, num sentido tautológico, isto é, quase de forma a expressar algo vindo de um bebé. Além disso, pode constituir um meio de transmitir o referido pessimismo, tendo em conta a ausência de uma moralidade social aliada a um ambiente apático, causado pelo decorrer da Primeira Grande Guerra.

Ao longo dos tempos, vários foram os aderentes a esta corrente artística, que teve repercussões nas mais diversas formas de arte. Na pintura e na escultura, com ‘Chopp Mona Lisa’ (1919) e ‘A fonte’ (1917), respectivamente, destaque-se Marchel Duchamp. Na literatura, com ‘Karawane’ (1917), destaque-se Hugo Ball. Alguns pontos do globo de maior influência do dadaísmo foram Paris, Berlim e Nova Iorque. A posteriori, vários estilos receberam influências dadaístas: a Pop Art, donde se realçam os trabalhos de Andy Warhol, a arte conceptual, donde se realçam os trabalhos de Joseph Beuys, ou o surrealismo, donde se realçam os trabalhos de Salvador Dali.

De acordo com algumas pesquisas concretizadas, o dadaísmo entra em vias de extinção em meados de 1922. Alguns dos motivos apontados são a pequena dimensão do grupo, ou a demasiada relutância causada nos mais diversos contextos culturais.

Ainda assim, mais tarde, existiram preocupações com os recursos das deixas do ‘Cabaret Voltaire’, ao nível musical. Inspirada naquelas, uma banda do mesmo nome tentou, durante as décadas de 70, 80 e 90, conceber temas inseridos no género de música industrial e experimental, combinando punk e eletrónica. Atentando-se na sua concepção, apontam-se: a elevada sonorização, a exaltação do movimento, ou, inclusivamente, a demonstração de um sentimento de clausura. Entre o seu reportório, encontram-se faixas como ‘Nag Nag Nag’, ‘Crackdown’, ou ‘Sensoria’.

Mais ainda, em Portugal, é possível denotar alguns traços dadaístas. O caso de Joana Vasconcelos demonstra precisamente isso. Tendo associados à sua concepção resquícios do barroco, ou neoclassicismo, também o dadaísmo se revela uma inspiração. A obra ‘Candy Candy’ (2006) é um claro exemplo disso. Numa entrevista levada a cabo pelo director artístico da Malba – Fundação Constantini, Agustín Pérez Rubio, em 2007, a artista menciona algumas palavras que vão ao encontro desta informação:

Duchamp foi para mim um verdadeiro mestre, porque o que ele fez foi tirar tudo o que era supérfluo na obra: as considerações sobre o gosto, a estética, despojando a obra de tudo isso. Mostrou o objeto puro, sem pudor. Ao fazer isto, trouxe imensas coisas novas ao mundo da arte: o vazio, a fealdade, a falta de escala. Suprimiu uma parte importante mas, ao mesmo tempo, levantou novas questões.

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Pedro Ribeiro

Nascido em 1996, por terras vimaranenses, tem como principal ocupação os estudos na licenciatura de Ciências da Comunicação. Apreciador das relações Media e Sociedade e Sociedade e Cultura, o seu objetivo passará por se especializar na área do jornalismo. Nesse sentido, conta com várias colaborações, a desenvolver atualmente, de forma simultânea: para o jornal 'ComUM', no qual é redator nas secções de Cultura e de Sociedade, para o jornal 'Académico', juntamente com a sua participação semanal no 'Repórter Sombra', onde opina nas áreas de Sociedade, Cultura e Política. No seguimento desta última área, milita na Juventude Socialista, tendo-se revelado publicamente ativista da candidatura de António José Seguro. Além disso, desenvolve um certo carinho pela sociologia, a que se junta a filosofia e, ainda, uma enorme paixão por viagens.

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