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Conto do Mar by Ana Domingos

Disse-me um amigo que o mar era tão pequeno, que se via todo ele por um sumidouro. Como nunca tinha visto o mar, acreditei.

Acreditei piamente.

Todos os dias me contava histórias de como era horrível. Falou-me, a certa altura, que o mar era assassino. Como nunca tinha visto o mar, acreditei.

Os dias, os meses, os anos, foram passando. Já adulto, falou-me de como o mar era um mostro repleto de seres monstruosos e ridiculamente agressivos, ao ponto de se comerem e matarem uns aos outros. Como nunca tinha visto o mar, acreditei.

Sempre que ouvia falar do mar, partia em defesa da vida e, claro, condenava o mar. Como nunca tinha visto o mar, acreditava.

Era quase obsceno para mim, ouvir alguém falar em defesa do mar. Seriam loucos e insensatos os defensores desse maquiavélico Mar ‘que viajava por todo o mundo’, como me dizia o meu amigo.

Num enfadonho dia de domingo, entre a neblina e a chuva miudinha, a minha mãe, apercebendo-se de que os Anjos a esperavam para lá das nuvens, pediu-me que a levasse a ver o Mar. Era esse o seu último desejo. Era esse o bálsamo para acalmar a despedida anunciada desta vida terrena.

Pensei em chama-la de insensata. Maluca. Pensei que tivesse endoidecido e estivesse com alucinações macabras. Mas, o seu ar tranquilo não condizia com os julgamentos que de dentro de mim vinham à tona, em querer desvia-la de uma visita ao Mar.

Mãe só tinha aquela. Mãe, minha amada mãe, jamais algum dia me falou do mar. No seu último dia, falou-me com uma súplica, como que esperando um leito de aconchego de algodão e pétalas de rosa.

Entre pernas a tremer e um ódio barroco por esse ‘mar’, enchi-me de coragem e fui.

Parei o carro. Pelo canto do retrovisor vi uma lágrima afagar o rosto angélico da minha mãe, enquanto o olhar dançava ao sabor do seu último desejo.

Abri a porta… e cai de joelhos.

De joelhos caídos fiquei, de joelhos chorei convulsivamente. De joelhos senti um dor infinita e dó de mim mesmo.

Oh Deus. Meus Deus.

Deus meu, como pude ser tão pequeno?

O mar estendia-se a meus pés como um lençol azul vibrante. Dançou-me no olhar, baloiçou-me a audição.

Deu Paz ao meu peito.

Tarde, já velho, cansado, percebi que muitas das minhas rugas surgiram de ira e ódio ao Mar.

Julguei-o de pequeno, monstro, assassino. Não o conhecia. Nunca o tinha visto. Nunca o tinha cheirado. Nunca o tinha visto. Mas julguei.

Acreditei nas dores de um amigo e deixei que as mesmas dores nascessem em mim.

Percebi que os demónios de uns, são os anjos de outros. Certos? Errados? Não vamos por aí. Cada um tem as suas razões e sempre as terá. Percebi que apenas temos o direito de ser fiéis a nós mesmo. Ser fiel a mim mesmo!

Respeitar os outros não é mesma coisa que defende-los, mas perceber que têm razões diferentes de acreditar no Mar, e de uma perspectiva diferente da minha.

Vejo o mar como infinito para os sentidos. O meu amigo, como uma miséria.

E, como vi o mar, acreditei! Acreditei que devo acreditar… em Mim!

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Ana Cláudia Domingos

Talvez por ter nascido na Guarda, a cidade mais alta de Portugal, vivo com a cabeça nas nuvens (quase) a tempo inteiro. Para quem vive na cabeça nas nuvens, só isso, não chega. Falta o charme de exprimir emoções e sensações. Enquanto escolha, foi na saúde a minha aposta de vida. Na escrita e outras artes, como na música, encontro aconchego e pó mágico para esta vida. Longe de ser perfeita, enfim.... sou eu!

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