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Constantine

Batman. Flash. Arqueiro Verde. Estes heróis da DC Comics são nomes grandes e reconhecidos pelo público, apesar de uns serem mais do que outros. Porém, todos eles são mais conhecidos pelos seguidores de séries do que o anti-herói exorcista John Constantine. Por isso, não é de admirar que um projecto televisivo centrado nesta personagem, repleto de conjurações e feitiços, pode ser uma bênção e uma maldição em simultâneo – existe uma rica mitologia para ser trabalhada e desenvolvida com novas interpretações à personagem, mas isto poderá gerar demasiada confusão no público, enquanto poderá afastar os fãs da banda desenhada. A ajuizar pelos primeiros episódios que vi, é possível que Constantine se transforme na série sobrenatural de êxito da temporada.

Antes de avançar com a minha opinião sobre a série, gostaria apenas de referir que não estou muito familiarizado com a banda desenhada Hellblazer e que grande parte do conhecimento que tenho desta personagem advém do (não muito bom) filme com Keanu Reeves. Com isto dito, vou analisar a série sem ter termo de comparação, nem grande conhecimento sobre o passado da personagem principal e terá de ser a história contada a educar-me, ao mesmo tempo que me mantém entretido. Até agora, missão cumprida nestes dois pequenos problemas.

A apresentação à personagem de John Constantine é feita através de uma auto-imposta visita a um hospício, onde se submete a uma terapia de choques numa tentativa de se esquecer do violento assassinato de uma jovem rapariga, que foi morta por um demónio, mesmo em frente dos seus próprios olhos. É um início que pretende brincar com o nosso cepticismo, deixando-nos a interrogar sobre a veracidade das capacidades da personagem principal e se ele é realmente um intendido nas artes diabólicas. No entanto, esta questão depressa é respondida, quando vemos Constantine a seguir um conjunto de baratas até encontrar uma mulher a desenhar com sangue letras numa parede. Depois de executar o seu exorcismo e de alguma resistência, acabando por se partir as janelas que ali se encontravam, ele sucumbe aos feitiços que lhe são lançados. À medida que o a confusão naquela sala vai reduzindo, uma mensagem surge: “LIV DIE” e Constantine percebe que tem estado a perder tempo naquela instituição.

Não demoramos muito até conhecermos alguém “normal” na série, uma funcionária de Carros para Arrendar chamada Liv Aberdine. Lucy Griffiths faz um trabalho extraordinário ao interpretar uma jovem mulher atenta ao que a rodeia, mas que se vê exposta à verdade sobre o seu pai que pensava estar morto, a sua habilidade latente de ver almas presas na Terra e à violência que vai aumentando gradualmente na guerra entre o Céu e o Inferno. Como a sua vida está em risco, decide acompanhar Constantine e o seu parceiro, Chas Chandler, numa busca pelo demónio que pretende possuí-la e matá-la.

Apesar dos demónios serem, claramente, uma força nefasta no nosso mundo e possivelmente um dos muitos vilões da semana que a série irá apresentar no seu caminho, Constantine não conta também com o apoio dos anjos. Existe em especial um arauto com asas, de seu nome Manny, que gosta de aparecer para demonstrar o quanto não gosta da personagem principal. Em todas as suas ocasionais aparências, só o faz para atormenta-lo, recordando-o de que está condenado a ir para o Inferno e tentando convencê-lo de que deveria aproveitar o seu tempo na Terra para praticar o bem em nome do Céu. Constantine, no entanto, não se deixa influenciar por nenhum dos lados com tanta facilidade.

Gostei da personagem desenvolvida por Matt Ryan e, apesar de não saber até que ponto é fiel à da banda desenhada, consegue criar uma versão muito sua a este anti-herói. Consegue dizer as suas frases sem parecerem forçadas, tem um ar grosseiro de alcoólico e consegue transmitir uma familiaridade com o oculto ao ponto de tornar as suas interacções com o “outro mundo” num típico dia de trabalho, em vez de algo extraordinário, que não se vê todos os dias. É possível fazer uma comparação com outra série de detectives do oculto, Grimm, por causa da mitologia que têm em comum, dos esconderijos repletos de relíquias antigas, dos livros de magia e dos vários ajudantes divertidos que vão aparecendo. No entanto, cada uma é uma série distinta, sendo que do lado de Constantine existe um ponto incrivelmente único – a capacidade de incorporar nas suas cenas elementos do universo DC Comics, como foi o caso do capacete do Doutor Destino.

Existe muito misticismo e muita magia na série, desde possessões demoníacas, a interferências angélicas, invocações de seres sobrenatural, talismãs, feitiços protectores com recurso a símbolos místicos, entre outros elementos. Aliás, é notório que os produtores se divertem a incorporar estes elementos na história. Por exemplo, quando o cover de Johnny Cash, “Ring of Fire”, feito pelos Social Distortion toca na rádio de um táxi, que acaba por ser atacado por um cabo de electricidade controlado por um demónio. Porém, existe também um lado muito humano no centro da narrativa e que está relacionado com a jovem rapariga, cuja morte foi responsabilidade de Constantine. Não só cria a grande busca da temporada (o salvamento da sua alma da condenação eterna), mas também lança os indícios para um arco redemptório para a personagem principal (o seu sacrifício de forma altruísta). Contudo, prognósticos só no fim do jogo…

Tenho de confessar que gostei da estreia desta série, que conseguiu, ao mesmo tempo, apresentar uma personagem a uma audiência que não é muito familiarizada com a banda desenhada Hellblazer e fazer um tributo aos fãs da história original. Durante o primeiro episódio, gostei que tivesse sido desenvolvida uma história que teve uma conclusão, mas simultaneamente construiu o caminho para futuros confrontos. Constantine tem uma personalidade forte que atrai a nossa atenção com facilidade, sendo que este deverá ser o ponto principal dos episódios e será desenvolvido correctamente, juntamente com uma acção interessante. Também tenho de confessar que a altura em que estreou e o facto de existirem muitas séries baseadas em banda desenhada possa levar a um fim prematuro da série, mas, com sorte, Constantine é um demónio difícil de matar.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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