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Conspiração

Niki tinha fama de terrorista, de louca, de rebelde.

Chamavam-lhe Nikita, e assentava na perfeição com a sua alma lutadora. Tinha uns grandes olhos verdes e movimentos felinos, quase de ninja. Gostava de provocar mas também gostava de lutar pelas injustiças, de tentar livrar o mundo – ou simplesmente a sua rua – de qualquer ameaça.

Niki sabia demais. Trabalhava para uma organização secreta, juntamente com o seu irmão, e a sua vida consistia em atacar no escuro, em fazer que amanhecesse mais um dia.

Rocky, o seu irmão, era imponente como um pugilista, de cabelos pretos. Estavam sempre a provocar-se, mas não podiam viver um sem o outro, e tinha sido Rocky a ajudá-la a entrar nessa organização secreta, assim que lhe viu rebeldia no olhar e solidão no corpo após o abandono da mãe.

Os irmãos trabalhavam em conjunto com Chet, uma rapariga loira de olhos cor de mel, enorme como uma amazona, a quem chamavam “finisher”. Eles tratavam do principal; descobriam o inimigo e neutralizavam-no, e Chet acabava sempre o trabalho, liquidando-o e, por vezes, tratando dos vestígios.

Naquele dia, Nikita saiu de casa com a nítida sensação que não voltaria. Ia em mais uma missão com o irmão e a companheira, mas desta vez parecia-lhe demasiado arriscado. Não sabia porquê, sabia que era capaz de tudo! Tinha medo, mas também tinha a certeza que, se morresse, não havia melhor maneira de ir. O irmão olhava para ela. Ele lia-lhe medo e esperança nos olhos, ela lia receio e segurança. Deram as mãos e sorriram carinhosamente um para o outro. Atrás, ouviam os passos de Chet, que os seguia, mas o nervosismo era palpável. Os três sentiam que conseguiriam levar a cabo a missão, mas um arrepio percorria-lhes a espinha, um mau pressentimento, a sensação de que poderiam ser apanhados de surpresa.

Nikita foi a primeira a entrar no armazém. Entrou devagar, sem o mínimo ruído, adaptando os olhos ao escuro. Podia ver claramente o inimigo, mas ele não a via a ela. Estava parado, sossegado. O chão brilhava com o luar. Mas algo estava errado. O que estaria ele a tramar? Porque é que não se mexia, porque é que não a via? Porque é que ela o via tão bem naquela escuridão? Não quis saber; saltou-lhe para cima e com um só golpe deitou-o ao chão. O irmão correu para ela, e, juntos, imobilizaram-no. Sorriram; tinham conseguido. Chet apareceu pouco depois, e acabou o trabalho, acabando com o inimigo para que não voltasse a ser uma ameaça.

A meio, as luzes do armazém acenderam-se.

Eles olharam para trás, assustados e encurralados, e foi aí que a viram. Ela!

Tinham sido apanhados!

“Nikita!” gritou Susana. Pegou na gata, que olhava para os companheiros e lhes pedia que se salvassem, que ela daria a pele por eles. Susana tentou apanhar o gato e a cadela, mas os dois fugiram assustados, sem olhar para trás, abandonando Nikita à sua mercê.

“Miiiaaaauuuu!” defendeu-se.

Susana suspirou e levou a gata ao colo para a sala, anunciando à amiga:

“Andreia, os gatos e a cadela destruíram outro papel higiénico!”

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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