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Como a economia domina o mundo, segundo Gary Becker

Nascido no início do New Deal, nos anos 30, Gary Becker veio revolucionar a perspectiva santa, pura e louvável de ver o mundo. Quer saber a conclusão dos seus estudos? Bem, acima de tudo, tu moves-te pelo que te trouxer maior lucro – tal e qual, o banqueiro que vês nas notícias e tanto desprezas. Surpreso? Bem-vindo ao mundo da Economia Freak.

Formado em Princeton, uma das melhores universidades a nível internacional, em Matemática, Becker rapidamente começou a surpreender o meio académico, com as suas teorias arriscadas. Uma aventura noutros mundos outrora desconhecidos da Economia levou a que a sua tese reflectisse sobre o impacto da Economia na discriminação racial.

O contentamento, auxiliado pelo espanto, foi de tal forma exponencial, que, em pouco tempo, esta era adaptada aRS_comoaeconomiadominaomundosegundogarybecker_1 livro. Um desafio superado, que resultou na entrega do prémio, em Ciências Económicas, do banco da Suécia.

Um nobel, não só o incentivou, como provocou uma reflexão mais perspicaz e analítica sobre diversos temas da actualidade social.

Quantas vezes ouviu a expressão “capital humano”? Desde empresários, empreendedores, escolas e recursos humanos, este é um conceito que nos é bombardeado constante e ininterruptamente. O seu inventor? Nada mais do que Gary Becker e Theodore Schuctz. A sua importância? Muito mais do que possa estar a imaginar!

A percepção dos trabalhadores enquanto capital para as empresas funciona como um reconhecimento dos seus atributos. Estes vão desde o aumento produtivo até à empatia com o cliente. Os funcionários deixam de ser máquinas, inumanas, sem valor para o patrão, para serem uma fonte de investimento. Surgem-nos como super-heróis disfarçados capazes de fazer girar a Economia com um só dedo: a educação passa a ser primordial, quandoRS_comoaeconomiadominaomundosegundogarybecker_2 depois podemos fazer mais, com muito menos.

O seu doutoramento, nos anos 50, foi, também, crucial em temas como o Crime, a Punição e o seu funcionamento. Ficando célebre a sua expressão “I was not sympathetic to the assumption that criminals had radically different motivations from everyone else”. Colocando tudo em termos lúcidos, Becker desmonta a presunção dos homens maus versus os homens bons, em que mau é roubar e o bom só pensa em salvar a donzela em perigo. Assim, segundo uma lógica de maximização de utilidades e uma racionalidade exegética, Becker aplica o princípio do custo de oportunidades.

Exemplificando, um homem esfomeado, tipicamente categorizado, na sociedade pseudo-moral, como “bom”, poderá roubar pão. Isto, pois, o seu custo será passar tempo aprisionado, enquanto o seu benefício, em troca da privação da sua liberdade, seria sobreviver. Confiantemente, podemos concluir que, os benefícios ultrapassaram os custos da oportunidade, conspurcando o pobre e bom homem. Não seremos, todos nós, esfomeados por algo, durante a vida? Tudo isto, mais explanado, pode ser lido em Crime e Castigo: uma abordagem económica, de 1968, no Journal of Political Economy, 76.

De uma forma simplista, a Economia Freak vem tomar como seus domínios que interferem na nossa vida das maisRS_comoaeconomiadominaomundosegundogarybecker_3 variadas formas. Um pouco por todo o mundo vimos as sociedades serem regidas por princípios, valores e éticas que fundamentalmente apoiam-se numa racionalidade económica que todos conseguimos atingir. O seu cérebro foi mordazmente capaz de expor aquilo que, espontaneamente, sabíamos, mas eramos moralmente incapazes de admitir. O ser humano não é bom, nem mau. É, unicamente, guiado pela sua racionalidade e instinto para captar as melhores oportunidades, com os superiores benefícios.

Gary Becker, mais do que um líder pioneiro, foi um pai para a Economia. Os seus estudos foram o catalisador necessário para meio século passado desabrochar as obras de Steven Levitt – Freaknomics – Tim Harford e Robert Frank – O economista disfarçado; O economista natural, respectivamente. Na alçada de novos tópicos, outrora explorados singularmente por outras áreas, a Economia Freak avançou com uma racionalidade empírica, intuita e selvagem.

Outro popular exemplo, deste domínio económico, sobre o mundo, é o Feminismo. De raiz social, procurando acabar com a repressão, dos elementos femininos, num ambiente maioritariamente masculino e, tendencialmente, pejorativo de todos as mulheres, nasce este movimento. E como é que tudo isto é influenciado pelos raciocínios económicos? Basta analisar o aumento salarial que, com a entrada das mulheres no mercado de trabalho, fez disparar o aumento do consumo de fast food e electrodomésticos.

Mais uma vez, um ataque organizado pelo princípio do custo beneficio. Afinal, se uma mulher, a trabalhar, podeRS_comoaeconomiadominaomundosegundogarybecker_4 ganhar um salário, em vez de ficar sem benefícios em casa, a servir de doméstica, porque não compensar as falhas com mecanismos de substituição, rápida e eficazmente? Um argumento que veio auxiliar a demanda pela entrada e permanência das mulheres no mercado de trabalho. Mais um ponto, na dominação do mundo pela Economia.

Saciando o bichinho do conhecimento que desde cedo se revelou parte de Gary Becker, este criou um blogue em colaboração com Richard Posner, que poderá ser encontrado em www.becker-posner-blog.com. Porém, encontra-se encerrado para futuras publicações, com a morte do génio, em Maio de 2014, com 83 anos.

Deu-lhe Saturno quebrante, mas a sua memória permanece, até hoje, inflexível. Digno de uma reputação de fazer RS_comoaeconomiadominaomundosegundogarybecker_5inveja, Gary Becker permanecerá, para todo o sempre, como o revelador da maquiavélica dominação do mundo pela Economia. Esqueça os ET’s e os Zombies, o Planeta Terra tem mais do que se preocupar, para já.

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Raquel Soares

Aluna de Direito na Universidade Do Minho com uma paixão por livros, filosofia, psicologia e o mundo. Não procuro um mundo melhor, mas esforço-me para construí-lo!
Sou activista da Amnistia Internacional em Portugal e participante em projectos que visam a dinamização e a efectivação dos Direitos Humanos.
Membro da Associação Universitária de debates nacional e colaboradora da ELSA UMinho.

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