Desporto

Comentário futebolístico: muito siso, pouco riso

Onde há futebol, há gente a comentar. Qualquer adepto que acompanha de perto o seu clube do coração, ou o futebol em geral, não se abstém de dar a sua palavra sobre todos os aspectos do “Beautiful Game”, como dizem os ingleses. Tácticas, escolhas dos treinadores, performance dos jogadores nas partidas, decisões da arbitragem, tudo isso de facto é debatido até à exaustão. Naturalmente, a comunicação social reflecte essa tradição e oferece terreno fértil para o comentário futebolístico – Geralmente chamam-lhe “comentário desportivo”, como se o futebol fosse o único desporto profissional que se pratica em Portugal…

No caso particular das televisões, os canais informativos das emissoras abertas têm todos opções de comentário sobre futebol. Espaços televisivos como Prolongamento, Trio d’Ataque, Tempo Extra, O Dia Seguinte e tantos outros têm todos o mesmo estilo: mesa redonda que reúne um moderador e três jornalistas ou personalidades com ligação ao futebol, que defendem as cores dos três grandes portugueses, Porto, Benfica e Sporting. Factos e lances dos encontros da jornada, análises aos árbitros e às decisões que tomam ou deixam de tomar, desempenho dos jogadores, vai e vem das transferências e outros assuntos são abordados nesses espaços. No entanto, este modelo de quatro senhores de fato à volta de uma mesa a falar sobre o mundo da bola parece-me desnecessariamente sério e sisudo.

Confesso que não sei qual é o público que ainda acompanha esse género de programa, mas dá para dizer que são aqueles que adoram polémicas. O comentário futebolístico vive de discussões e argumentos sobre os casos da bola, isso é natural, mas essas mesas redondas às vezes levam essa lógica a um nível de seriedade que me parece exagerado, tocando inclusive em assuntos que vão para lá das quatro linhas. Afirmações polémicas sobre casos de corrupção no futebol, supostos esquemas em que os árbitros beneficiariam determinado clube a troco de recompensas (nos casos que vejo geralmente é o comentador do Porto a reclamar de favores ao Benfica, ou vice-versa), histórias de assuntos financeiros e administrativos dos clubes e de figuras do futebol português e os seus interesses escusos também rodeiam o comentário televisivo.

Quando os comentadores começam a trocar farpas entre si, às vezes de cunho pessoal, fico admirado de que a situação se fique pelas palavras. Dá uma agonia ver o pobre jornalista que modera o debate a tentar colocar rédea curta nos participantes, enquanto estão a insultarem-se uns aos outros e levantarem a voz após algum comentário mais problemático. Onde fica o debate futebolístico nessas alturas? Já bastam os adeptos arranjarem motivo para as picardias do costume (ou pior). Não precisamos de supostos entendidos da bola a fazerem o mesmo em directo em vez de trazer análises produtivas com foco exclusivo no que acontece nos relvados.

O único programa que vi tratar o futebol de facto como um desporto, com doses saudáveis de humor e boa disposição foi a Liga dos Últimos. Mostrando o futebol sob um ângulo diferente, a Liga dava destaque aos personagens do futebol português das divisões inferiores em toda a sua glória. Relvados que de relva só têm o nome, cidadãos comuns e suas histórias engraçadas, adeptos de perfil inusitado, as equipas de freguesia e os percalços por vezes bizarros que enfrentam para se manter na activa são só alguns dos pontos em que o programa tocava para trazer aos holofotes os clubes que são sumariamente ignorados pelo comentário futebolístico nacional. Para não falar dos jogos distritais que mostravam que o futebol também tem um lado mais singelo, afastado das grandes claques e dos grandes embates. A Liga já saiu de emissão há muitos anos, e não há hoje em dia um programa com proposta semelhante.

Na Inglaterra, programas como o Match of the Day, transmitidos nos fins de semana das jornadas das ligas inglesas, fornecem um comentário que, embora sério, é mais leve do que os programas portugueses. Antigos jogadores e jornalistas partilham suas visões sobre os jogos da jornada de uma forma mais geral, e percebe-se que suas análises são bem mais focadas no que acontece dentro dos relvados e nas escolhas dos treinadores. Na minha visão, é isso que o fã de futebol mais procura, ouvir o que quem já jogou o jogo tem a dizer e assistir a debates produtivos que, embora carregados de emoção às vezes, não descambam em críticas e insultos, excepto para os jogadores que tal façam por merecê-lo, com todo o respeito, claro.

Mesmo os programas de comentário das partidas em directo, uma alternativa, digamos, engenhosa de algumas emissoras para cobrir os jogos dos três grandes apesar da falta dos direitos de transmissão, também passam um ar de seriedade desmedida e sisudez maçante, pois os comentaristas focam muito em assuntos acessórios sobre o grande que está a jogar, em vez de se debruçarem sobre o jogo em si. Esse comentário constante sobre uma equipa em particular pode ser uma resposta ao que o público mais inteirado deseja ver e ouvir, e o foco exclusivo nos três grandes reflecte o facto de que a população portuguesa que apoia algum clube está quase inteiramente dividida entre eles, mas falta um formato que enfatize o entretenimento e a leveza que o desporto pode proporcionar em vez do jornalismo puro e duro.

Nesse quesito, volto-me para a Inglaterra mais uma vez, mais precisamente para o Soccer Saturday, um programa que se utiliza dos mesmos artifícios, isto é, comentadores em estúdio para acompanhar os jogos, mas que cobre a jornada futebolística de forma mais geral. A diferença é que, em vez de só um jogo de algum dos grandes ingleses, os jornalistas acompanham vários jogos de várias divisões ao mesmo tempo, num formato muito mais dinâmico, ágil e sobretudo entusiástico. Quando comentam os lances do jogo, por vezes reagem tal e qual os adeptos, com toda a emoção e paixão que o futebol proporciona. Em comparação, a cobertura dos encontros das divisões inferiores do futebol em Portugal é limitada ao rádio e mesmo aí, pouco se fala para além dos resultados das jornadas e das tabelas classificativas.

O Brasil é o país do futebol (bem… depois do 7-1 no Mundial não sei se ainda se diz isso) e, naturalmente, é o país do comentário futebolístico. Programas sobre futebol são comuns na televisão aberta e ainda mais comuns no cabo, mas nota-se que têm um estilo muito mais leve e descontraído, em que os comentadores não deixam de lado a sua visão objectiva sobre os lances dos jogos e os acontecimentos do mundo do futebol, mas também não se esquivam de declarar as suas preferências futebolísticas, bem como de fazer piadas com os clubes dos outros. Os programas portugueses precisam mais do que nunca de uma pitada desse bom humor.

Por mais envolto em redes nebulosas de interesses e valores monetários astronómicos que esteja, o futebol não deixa de ser um desporto e como tal, tem um elemento lúdico, de entretenimento e mexe com os gostos e as emoções das pessoas. Longe de mim dizer que as análises sóbrias e racionais da realidade da bola são ruins ou que devem ser abolidas da comunicação social. Sem sombra de dúvida, aquilo que há de podre no futebol português e mundial deve ser denunciado. No entanto, o futebol não é só lama. Para quem vê, também é saudável que se dê mais espaço para o lado leve, mais humano e bem humorado do desporto-rei.

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Victor Leôncio

Jornalista de formação, viajante de coração. Nasci no Brasil, mas se me perguntarem, sou brasileiro com costela portuguesa, sangue japonês e influências inglesas. Cidadão do mundo, talvez? Viajar é minha paixão, escrever é meu amor. Gosto de esportes, música, línguas estrangeiras e aventuras, tanto as do mundo real, quanto da imaginação.

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