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CinemaCultura

Comédia, a fera do cinema

Bringing Up Baby não é uma comédia sobre como se “criam” os bebés, mas uma comédia sobre como tratá-los. Tudo no contexto do pós-Depressão de 1929, em que o público precisava desesperadamente de rir.

O facto de ser maravilhosamente realizado por Howard Hawks, um dos mais versáteis cineastas da era de ouro de Hollywood, cuja carreira inclui filmes como Come and Get it/ Pai contra filho (1936) – comédia, The Big Sleep/ À Beira do Abismo (1946) – film-noir, Rio Bravo/ Rio Bravo (1959) – western, tornou esta película um clássico de crescente importância.

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Protagonizado pelo sempre desajeitado e atrapalhado David (Cary Grant), visa exemplificar como um paleontólogo se sente atormentado em obter todas as peças de um dinossauro. Mesmo sem saber o que está reservado ao seu “animal” pré-histórico – neste caso, num duplo sentido da palavra, o fóssil em si e o carácter da personagem.

Em boa verdade, Grant ficou conhecido como um indivíduo de excessividade de gestos e uma certa ambiguidade sexual no cinema de Hawks. As típicas piadas amargas da screwball comedy (subgénero em que o filme se insere) são postas, quando o realizador brinca com a orientação sexual dele e imediatamente a audiência o infere. Além disso, Grant era ator de parcerias, para além de Hawks, colaborou com o mestre do suspense, Alfred Hitchcock. Dos quatro filmes contam-se North by Northwest/ Intriga Internacional (1959), no qual é contraditoriamente apresentado como um irresistível sedutor.

Ao seu lado está a sempre magnífica Katharine Hepburn, na pele de Susan Vance, uma boneca de luxo. A atriz galardoada com quatro Óscares da Academia reflete, com todo o glamour que lhe é configurado, a imagem do star-system hollywoodiano. É a sua personagem que desperta novos sentimentos em David, sempre acompanhados por uma série de desgraças.
Todavia, na época, o filme não foi um êxito imediato. Com o fracasso na bilheteira, a estrela foi a grande responsabilizada, posto que Grant era já venerado pela comunicação social e pela sua legião de fãs. Mesmo assim, Hepburn não deixa de ser a rainha da cena, em todo o seu esplendor. Susan Vance é completamente extrovertida, encaminha David para uma série de peripécias, que envolvem a ausência do noivo num seu casamento, muita falta de roupa, assaltos a carros que não lhes pertencem e perseguição a animais, um leopardo – de nome Baby -, e um cão – George.

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O primeiro dá título ao filme e adora a canção “I can’t give you anything but love, Baby”. Esta é quase sempre tocada em disco, ou cantada pelos protagonistas, para o animal se comportar bem. Moderno e perfeitamente domesticado, este animal fora oferta do irmão de Susan, para a tia milionária Elizabeth. Com efeito, cria conflito e o espetador, meticuloso, conserva o seu olhar no ecrã, sem se desprender do ambiente criado.

Além do que há todo um ritmo acelerado conferido pela arrojada edição, nos momentos em que David e Susan temem para que George sirva de alimento ao leopardo. Contudo, Baby “adora cães”, o que de mal que lhe pode ocorrer?

A reação de David ao ver o leopardo na casa de banho repete-se também noutros momentos da história do cinema. Prova disso, é o mais recente The Hangover/A Ressaca (2009), de Todd Phillips. Num mesmo espaço, o despertar de Alan (Zach Galifianakis) eterniza, uma vez mais, tão divertida cena.

Aquilo que vemos em Bringing Up Baby é no geral a fuga incessante de um homem de uma mulher, que por fim, cansado de resistir ao seu charme, cai nos seus braços. Até o maior cinéfilo esperaria um beijo, no entanto, compreende o porquê da sua ausência.

Aquela que é a 14ª melhor comédia de todos os tempos, segundo a lista do American Film Institute, deveria ocupar uma posição bem mais próxima de Some Like it Hot/Quanto mais quente melhor (1959), de Billy Wilder, detentora do primeiro lugar. Dado o seu argumento imprevisível, eficaz nos tons de comédia, e uma excepcional química do casal protagonista, Duas Feras (no sempre inconveniente título português) é um filme ideal para noites de Verão, melhor que qualquer outro do ano, sempre arquétipo da mutilação que o género tem sofrido.

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Ano de Produção: 1938/ Título português: Duas Feras/ Título original: Bringing Up Baby/ Realizador: Howard Hawks/ Argumento: Dudley Nichols & Hagar Wilde/ Elenco: Katharine Hepburn, Cary Grant, Charles Ruggles, May Robson, Walter Catlett, Barry Fitzgerald/ Música: Roy Webb/ Duração: 102 minutos

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Virgílio Jesus

Licenciado em Ciências da Comunicação e com Mestrado em Cinema e Televisão pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sou um apaixonado por cinema desde os meus 10 anos. Todos me conhecem como o 'viciado em filmes' porque na realidade estou sempre interessado em ter a sétima arte como tema de conversa.

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