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Com Poesia me (En)Cantas

Existem poemas que são feitos e um dia acabam por ser cantados. A música pode funcionar como veículo, que transporta a poesia para os ouvidos do mundo, independentemente do idioma, existe sempre a possibilidade de atingir alguém através da melodia, quantos são aqueles que não lêem poesia e, quando menos esperam, estão a trauteá-la?

Pela música, muita poesia transcendeu-se, ganhou maior alcance, é um meio de ampliar a dimensão das palavras e do sentimento. A música tem o especial dom de tocar a alma, é sem dúvida alguma a forma de expressão mais universal alguma vez criada. Não é preciso saber ler, ou dominar um idioma para perceber a intenção do compositor, o ritmo encarregasse disso. A incorporação de um poema numa música requer arte, engenho. Shakespeare foi cantado, revelando-se um fracasso. Existem perigos na interpretação de grandes clássicos da poesia, pois um texto de menor importância pode ser aceite pelo público, graças à falta de popularidade, mas um clássico tem de superar. O povo é implacável.

É imperativo criar condições para que um poema seja incorporado numa canção. A melodia e a voz têm de conter a essência das palavras. A afinidade entre estas duas formas de expressão foi bastante explorada entre a lusofonia, principalmente por Ary dos Santos e Vinicius de Moraes.

Nascido em Lisboa a 7 de Dezembro de 1937, Ary dos Santos revelou o seu génio ainda em tenra idade, aquando da publicação do livro Asas. Nos anos que se seguiram à publicação deste livro, dedicou-se à poesia e os seu poemas transformaram-se em música, sendo que alguns tornaram-se em grandes êxitos do Festival da Canção, representando Portugal na Europa. Entre eles, conta-se a Desfolhada cantada por Simone de Oliveira, Menina por Tonicha, Meu amor, Meu amor por Amália Rodrigues, Portugal no coração pelo grupo Amigos e a Tourada por Fernando Tordo. Foram mais de 600 poemas escritos e alguns deles tornados grandes canções. Na produção desta arte divina, fez parceria com Fernando Tordo, uma dupla que enriqueceu o espólio da Sociedade Portuguesa de Autores e a história da música portuguesa. É por esse motivo que, 40 anos após a morte do lisboeta da rua da Saudade, as homenagens musicais sucederam-se.

Do outro lado do Atlântico, Fagner cantou Florbela Espanca e Fernando Pessoa. Disse um dia que: “poesia o aproximou do povo brasileiro.” É também no Brasil que encontramos outro mago das palavras, o “poetinha” Vinícius de Moraes, o pai da “garota de Ipanema”. Em colaboração com António Carlos Jobim, Toquinho, Baden Powell, entre outros, fez músicas intemporais, interpretadas pelos mais variados artistas.

Graças a pessoas como Ary dos Santos e Vinicius de Moraes, podemos encontrar poesia nos lugares mais inesperados, num bar, no rádio do carro, ou no genérico de uma telenovela.

 

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Marguerita Harris de Pina

Nasci no final da década de 80 e o meu nome é composto por 10 letras. Sou apaixonada por bicicletas, música e desporto. Gosto de livros e de conversar

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