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Cohen, “dança comigo até ao final do amor”

Ao primeiro álbum chamou-lhe As Suas Canções; ao último, deu-lhe o título de Velhas Ideias mas nada no seu percurso faz crer que a velhice é sinónimo de falta de qualidade, pelo contrário. Já escreveu Flores a Hitler e alicerçou, nas letras, o desejo de Música Estranha. Rompeu com os paradigmas da religião enquanto judeu e viveu, durante 5 anos, num convento budista perto de Los Angeles. Para lá do seu nome da certidão também lhe foi dado, no meio desta paz, o nome de “Dharma de Jikan”. A partir dos anos 80 começou a inspirar músicos de folk e de indie rock e é fácil chegar até ele quando ouvimos alguém, no rádio, a cantar-nos “I’m here, I’m your man”.

Leonard Cohen nasceu no Canadá e descobriu o mundo através das artes. Deu-se a conhecer através da poesia e, 15 livros depois, continua a ser procurado nas prateleiras das livrarias, bem como das lojas de música. Oscila entre as artes, as notas musicais e a consciência de ser profundo naquilo que produz. Durante a sua carreira precisou de se afastar dos palcos e dos flashes e, durante essas duas vezes, refugiou-se nas letras e no deslindar de frases que o guiaram para novos livros. Com o dom de saber esperar pelo momento certo em que as frases surgem, Cohen é o mestre dos poemas. O perfeccionismo que lhe é característico molda cada trabalho que faz.

As suas palavras correm o mundo, nos livros e nas canções. Os aplausos multiplicam-se quando pisa os palcos e é provável que haja vozes a gritarem “Hallelujah”. Como soldado das artes, vestiu ao longo da sua vida o fato mais honrado entre os seus: o dom de ser respeitado por milhões e admirado por outros tantos. Amplamente adorado por outros músicos e pela legião de fãs, Cohen nunca criou outro ser para além do seu. Fiel à identidade, acredita que nasceu num dia em que as folhas caiam, devagar, e desenhavam um manto de tons laranja, no chão perto do hospital. Diz não ser uma pessoa de arrependimentos e a nostalgia associada ao passado é um cartão que não costuma embarcar com ele.

A voz melódica e as músicas que canta são um carimbo que não se esquece. Ouvir Cohen é saber que existem vozes únicas, capazes de agarrar os sentidos. Cohen nega todo o brilhantismo que lhe é associado e considera que as coisas se tornam mais fáceis quando os artistas deixam de esperar alcançar o topo dos topos. Consciente da sua fama e da sua posição, carrega uma responsabilidade muito peculiar: a de ser o motivo de muitas vénias no mundo da música. Os fãs dizem que é capaz de tornar a escuridão num lugar bonito e que a raridade desta qualidade está alojada na sua capacidade de se distanciar do mundo material.

Entre os picos da sua carreira, “Death of a Ladie’s man” foi o álbum que pintou com mais escuridão. Sem poder comandar a edição das músicas, o produtor afastou-o do resultado final, do qual Cohen nunca se orgulhou. Mas se houve pouca luz durante esta altura, na qual também estava a atravessar um processo de divórcio, os anos que passou na Grécia equilibraram estas sombras. Com o sol a contornar-lhe a pele, Cohen bebeu a inspiração das ilhas e trabalhava perto das rochas, onde as varandas salpicadas por dezenas de margaridas abrilhantavam a sua inspiração.

As suas músicas já foram adaptadas por outros cantores, já foram a banda sonora de alguns filmes e continuam a ser entoadas um pouco por todo o mundo. Judeu, mas admirador da religião budista, Cohen soma curiosidades ao seu bilhete de identidade: durante a Guerra de Yum Kippur cantou músicas aos soldados Israelitas; inspirado por um poema judaico escreveu a canção “Who by fire”; em 2011 foi o vencedor do Prémio Príncipe das Astúrias de Letras e, apesar de ter experimento calças de ganga, nunca se rendeu a elas e vestiu-se sempre de fato, que afirma ser a roupa mais confortável do mundo.

Entre a aprendizagem e o equilíbrio, Cohen somou retiros espirituais, calma e também alguma adrenalina à sua vida. Apelidou-se de “Your man” e como resposta ouviu “I’m your fan”, de um conjunto de músicos que o admiram bastante. Nick Cave, Bono, Antony ou Rufus Wainwright foram alguns daqueles que, em 2005, lhe prestaram tributo. Considerada como uma forma de agradecimento, acreditam que Cohen lhes ensinou muito daquilo que não sabiam. E sem saber o que o futuro lhe reservava, Cohen soube que quis escrever alguma coisa enquanto lia os clássicos da Marvel, em pequeno, mas do alto desse sonho, não fazia ideia do sucesso que ia atingir e da admiração que ia gerar e que resiste ao tempo, há mais de 30 anos.

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Ana Guedes

Entre o Porto e Leiria, estou sempre de malas feitas para partir, para ficar ou para conhecer. Apaixonada por letras, cultura, fotografia e o mundo, tenho como fio condutor vital as histórias: as que ouço e quero contar, as que vivo e quero escrever

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