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CulturaLiteratura

Cinco Esquinas de Mario Vargas Llosa

Gostei tanto de Travessuras da Menina Má, do ritmo e da história, do final e do inesperado, que, quando Cinco Esquinas saiu, não resisti a comprar e continuar a ler mais um livro deste prémio Nobel. Aliás, a história parecia-me mais apelativa, basta dizer que havia um crime e a possibilidade de ter um lado mais policial ou thriller. E, no entanto… não. Não gostei mais do que do outro, nem sequer está em pé de igualdade. Não me interpretem mal: gostei de o ler, claro que gostei! Vargas Llosa escreve muito bem, há imenso neste livro que vale a pena… mas não me encantou tanto, nada daquela paixão que tive (e que permaneceu muito tempo depois de acabar o livro) pelo primeiro.

No entanto, como disse, há muito que vale a pena e vamos falar disso.

Primeiro, o calor sul-americano que adoro, nas expressões, nos diminutivos, em todo o ambiente que parece estar nas entrelinhas. Penso que Vargas Llosa capta-o de uma forma muito bonita e própria.

Depois, a história e a História: um assassínio que pode estar ligado ao governo de Fujimori, terrorismo e medo, descobertas e «pecados» sexuais… enfim, o autor sabe muito bem intercalar a realidade e a denúncia com a ficção e as vidas dos personagens. Consequentemente, gostei (de uma forma que faz aflição) da crueldade de algumas partes, que deu mais verosimilhança à história – a banalização da morte, a criminalidade e a corrupção, o poder sem limites, o medo. Uma realidade que sabemos bem que faz parte de muitos países (sul-americanos e não só). Foi também uma boa surpresa a volta que a história deu, embora tenha ficado com um sentimento agridoce – ainda bem que aconteceu, mas podia ter acontecido de outra forma. Ei, mas deixar-nos incómodos, mostrar as partes feias e mexer connosco é o que um escritor deve fazer, não é? Conseguido.

As personagens são interessantes, embora deva dizer que me foi mais fácil amar, odiar e identificar-me com as de Travessuras do que neste. Em Cinco Esquinas, vivemos na pele de várias e vamos percorrendo o livro de vários pontos de vista, enquanto que em Travessuras estamos na cabeça de uma só e vamos navegando noutras vidas. Com a distinção de classe social, Vargas Llosa consegue marcar bem as diferentes de visões e problemas, o esforço tão díspar que cada qual tem de fazer para sobreviver, e mostra-nos um sistema que, embora engula os fracos (ou os torne duros), também é capaz de ser implacável com fortes. Até certo ponto, pelo menos.

Aproveito para desvendar que há uma parte do livro em que todas as histórias são misturadas e contadas ao mesmo tempo, aos pedacinhos, mudando de parágrafo em parágrafo, e eu adorei! O ritmo ficou muito interessante e tornou tudo muito mais misterioso e estimulante.

Outra nota é para a sexualidade do livro. Um pouco explorada demais, porque creio que não era tão importante para a história, mas tornou o livro sexy. Gostei que tivesse sido abordada de várias formas e que não tenha parecido uma repetição do livro anterior, a inovação e diferença também são boas.

Li algumas críticas que falavam mal deste livro, outras que falavam maravilhas – nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Vale a pena ler, devorei de uma assentada e desfrutei muito da leitura. Mas se me pedissem para escolher entre este ou o anterior, não teria a menor dúvida.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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