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ContosCultura

Chove

Um candeeiro solitário no nevoeiro a tentar ignorar o seu reflexo na calçada molhada de Lisboa. Não há ninguém na rua. Um abandono despido e íntimo, capaz de engolir toda a realidade. O mundo é o inverso do que conhecemos.

Chove-me por dentro.

Há um sinal no fundo das tuas costas que agora me vem à cabeça. Se fechar os olhos quase consigo tocá-lo, muito devagarinho, desenhando no teu corpo com a ponta dos meus dedos. Os meus dedos que nem parecem meus; são-me estranhos porque procuro neles partes tuas. Que eram minhas. Mas que são tuas. E levaste-as contigo. Não só os dedos e as mãos. Não só os sorrisos, os abraços, o cheiro, o toque. É um todo que era tudo em mim. Um todo tão concreto que agora és um membro-fantasma, uma parte-fantasma.

Às vezes não somos o amor da vida do amor da nossa vida.

Tenho-me perguntado para onde vão as palavras que não dizemos, os futuros inventados e o amor não correspondido. Se também os sonhos são átomos infinitos no Universo. E tenho medo de nunca deixar de me sentir preso a ti.

O meu peito torce-se com a memória das tuas gargalhadas na escuridão, da paz de te ter. Dele escorrem as utopias e as inocências todas até eu ficar vazio, partido, sem ar. Boneco de pano moribundo. O mundo torna-se no inverso do que conhecemos, mas nem assim paramos. Mesmo assim, caminhamos. Arrastamo-nos pela vida, esforçando-nos por subir montanhas com as unhas quebradas que nos doem. Até quando o passado está atado ao pescoço e os «e ses» são tão pesados que mal levantamos a cabeça. Rastejamos. Sobrevivemos. Seguimos. A terra treme e o mundo pára de girar, mas um dia voltamos a respirar e a olhar sorridentes para o Sol. Fomos criados com doses iguais de esperança e de desespero.

Um dia.

Ou noutra vida.

Num mundo que já não seja o inverso do que conhecemos, em que o inverso se tenha tornado o lado certo, em que já não me chova por dentro.

Talvez eu seja capaz de beber um copo contigo – e com o teu sinal no fundo das costas e com todas as gargalhadas que dás sem mim. Sorrirei para ti sem tristeza e já me terei esquecido de que quase conseguimos ser felizes; já me terei esquecido do quanto doeu quando rasgámos o coração um ao outro.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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