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África e China – Declara-vos parceiros estratégicos para a vida

Os chineses foram à conquista de África, após longos anos de relações económicas, políticas e comerciais. A China arrisca cada vez mais no apoio a alguns países africanos, na construção de infraestruturas e na aposta em algumas empresas.

O Governo Socialista Comunista Chinês pretende a manutenção do poder e a afirmação geopolítica, actuando hoje o programa do governo num território de língua oficial portuguesa. A crescente presença da China em África é uma realidade que representa uma oportunidade, mas para quem? Os benefícios serão mútuos? Ou a China somente está interessada nos recursos naturais e prejudicará o desenvolvimento africano?

“Amizade Sino-Africana”
A amizade entre estes dois países nasceu no século X a.C. com trocas comerciais, afirmou-se com os primeiros movimentos migratórios de chineses para a costa de África vinte séculos depois. Porém, foi na Guerra Fria que esta amizade cresceu. Durante este período, sob o governo de Mao Tse Tung, a China estabeleceu relações com alguns países africanos. Desde esse momento, a expansão das relações da China com a África é a dinâmica mais importante nas relações externas da política do continente citado.

No entanto, foi numa época contemporânea, sobretudo desde a formação da República Popular da China, que se acentuou o interesse pelas nossas ex-colónias. Nesta continuidade, em 2000 nasce, fruto desta “amizade Sino-Africana”, o Fórum de Cooperação China-Africa.

África tornou-se centro de desenvolvimento do Soft Power Chinês, sendo a intenção garantir acesso a matrizes energéticas. Perante a situação Princeton Lyman, também do Council of Foreign Affairs, defende que os métodos aplicados neste continente são quatro. Assim, segundo ele, a acção passa por professar solidariedade à África em fóruns internacionais sobre comércio e assuntos de direitos humanos, perdoar mais de um bilhão de dólares em divida de países africanos, enviar mais de 900 médicos por toda a África e efetuar grandes investimentos em infraestrutura, agricultura e energia, entre outros.

Alguns críticos afirmam que a estratégia chinesa é totalmente auto-promocional, tendo como intenção a manutenção do acesso a recursos preciosos minerais, mesmo significando isso sustentar governos. A estratégia do governo Chinês motiva, sem dúvida, esta “amizade sino-africana”. Em África, os chineses encontram os recursos e a forma de garantir o abastecimento de matérias-primas para as suas crescentes necessidades energéticas. Este continente oferece, ainda, uma arena para o desenvolvimento de empresas chinesas, bem como um mercado de consumo com grande potencial. Resumindo “A África é vista por muitos como a última fronteira para expansão de mercado no mundo.” como verbaliza Conrado Esber.

Um mercado emergente no continente africano, para além da Nigéria e da África do Sul, é o de Angola, extremamente importante para a China, onde lhe interessa a economia e o petróleo. Todos estes interesses, trazem um ingresso com uma situação praticamente única no mundo, pois não se encontram impostas condições para os empréstimos feitos. A exportação de petróleo da China decorreu até 1993, mas, nesse ano, este recurso se tornou insuficiente para responder às necessidades e por isso hoje importa cerca de 40% do petróleo que consome. “São conhecidos os números de crescimento da economia chinesa nos últimos anos e as projecções para o futuro próximo. É isso que torna a China o segundo maior consumidor mundial de petróleo (depois dos EUA, tendo ultrapassado o Japão em 2003), tornando-a também responsável por quase 40% da procura de petróleo nos mercados mundiais.”, mostra-nos Duarte Bué Alves.

O principal interesse Chinês em Africa está nas fontes de energia, mas, sobretudo, no petróleo de Angola, considerando a dificuldade de acesso ao petróleo do oriente médio, o qual se destina prioritariamente à Europa e aos EUA. Deste modo, Angola foi um dos países africanos que recebeu mais crédito chinês. Apesar destes investimentos, os empresários angolanos queixam-se da concorrência desleal dos empresários chineses e da passividade oficial.

A China tem causado na economia mundial um enorme impacto. Perante a procura de recursos energéticos e bens primários, a China parece surgir como rival estratégico dos EUA, concorrendo no acesso a recursos escassos. No entanto e contrariamente aos norte-americanos, os chineses quando aterram nas capitais africanas não procuram apenas barris de petróleo, trazem investimento e oportunidades de reconstrução, negócios, linhas de crédito, perdão de dívida, matérias tecnológicas, comércio e mão-de-obra especializada e operária. Dambisa Moyo defende que “A China oferece à África uma alternativa ao assistencialismo. Promove a entrada de capital no continente – empréstimos e investimentos em infraestrutura. Assim, estimula o comércio, o empreendedorismo, cria empregos nas regiões em que está presente. Funciona como uma troca ou simbiose. O modelo chinês oferece às economias africanas oportunidades reais de crescimento e de fazer parte da economia global. O americano não. É simples assim.”

Deborah Brautigam afirma que a China está a usar os recursos naturais africanos e a poluir o ambiente, para ela “a estratégia chinesa é a torneira para a riqueza natural de África desde que o crescimento chinês ultrapassou os seus próprios recursos”. Observa-se, ainda, que inúmeros africanos reclamam que os projectos chineses não usam suficientemente a mão-de-obra nacional, ou não fazem o suficiente para lhe transferir as habilidades necessárias.

Casamento Perfeito ou jogo de interesses desleal?
Nesta amizade, baseada em investimentos e recursos naturais, é necessário ter em conta a realidade sociológica e económica dos países, considerando sempre as diferenças sociais e linguísticas. Devemos estar atentos ao desaparecimento de empresas nacionais, ao aumento do desemprego nacional e à deterioração das relações entre as comunidades envolvidas. Vemos nesta amizade aquilo que muitos designam por “casamento perfeito”, mas será que a África está somente a vender as riquezas naturais à China e a hipotecar o seu futuro? Ou este casamento poderá trazer frutos de riqueza para ambos antes do divórcio?

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Marisa Mourão

Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. É apaixonada por uma boa história. Ainda é das que acredita que os media podem ajudar na construção de uma cidadania ativa.

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