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Chegar a Las Vegas

Depois de um voo para Londres e de três horas à espera sem sair do terminal do aeroporto, mais de doze horas retido dentro de outro avião soa a extremamente cansativo. Só não o é porque o entusiamo disfarça-o ao ponto de nos elevar os níveis de energia. É um entusiamo que cresce à medida que o destino se aproxima. Por fim o Boeing 747 pousa e pouco depois imobiliza-se. Seguem-se longos corredores e uma espera quase desesperante, superior a meia hora, para passar a última burocracia.

Entra-se finalmente em território dos Estados Unidos da América, a cidade que aguarda lá fora é Las Vegas. Na espera começa-se a pensar nas luzes que se viu brilharem do avião. Chegar ao fim do dia, pelas dez horas da noite, pode parecer tarde, mas sente-se a cidade vibrar e o entusiasmo cresce mais um pouco. Tem que se esperar mais um pouco, falta a mala e isso obriga a mais uma pausa, agora junto à passadeira rolante. É nessa pausa que se percebe onde realmente se está. Olha-se para o lado e vê-se uma fila de slot machines, ali em pleno aeroporto. As pessoas aproximam-se e a tentação de logo começar a jogar multiplica-se. Afinal, é pelo jogo que as pessoas lá vão, seja para o experienciar, seja para jogar ou dinheiro, ou por vezes a própria vida. É preciso perceber que aquelas máquinas são um aviso dado pela cidade. É possível perder grande parte do dinheiro ainda dentro do aeroporto, ainda mais o é no exterior. Não se pode temer aquelas máquinas. Há que encará-las de frente e saber virar-lhes as costas. Pelo menos Las Vegas é honesta e revela-se logo ali, à chegada, para quem o quer entender.

McCarran Airport
McCarran Airport

No passo seguinte, o pensamento focaliza-se no hotel, num rápido arrumar de coisas e num primeiro momento de descontracção e comunhão com o que Las Vegas tem para nos oferecer. Sente-se que já se merece um copo de boas vindas. Sai-se então do aeroporto e uma pessoa sente-se ser abraçada com violência. São os fortes braços do calor seco do deserto a envolverem o corpo. A respiração adensa-se um pouco e sufoca os pulmões até se adaptarem. Quando lá cheguei, um letreiro mostrava estarem 32 graus e passavam das 10 dez da noite. Dentro do terminal dificilmente estariam mais de vinte. Nessa diferença está a força com que o calor nos atinge naquele rápido instante. Estranhamente, o intenso calor é também convidativo, pelo menos aquele na noite. Avisa-nos que é sempre intenso. Mas é afável, como se tratasse de uma autorização para lá permanecermos.

Depois há que se chegar ao hotel. O melhor modo de o fazer, atendendo ao conforto e custos, é usar um dos vários serviços de shuttles que ali operam. Além do pagamento, apenas exigem que se vista um casaco. O ar condicionado das carrinhas é sempre estupidamente frio. E este é um mal geral de toda a cidade. Arrisca-se um longo e demorado caminho, como foi no meu caso, mas tal pode não ser exactamente mau. Sendo que o meu hotel era o mais distante, fui o último de cinco clientes a chegar. Isso permitiu-me atravessar a Strip, o centro nevrálgico de Las Vegas. Tomei assim desde logo um contacto com a vida da cidade e com as imagens mais emblemáticas que fazem a imagem da capital do jogo e diversão adulta. O MGM Grand, o Bellagio, o Caesers Palace. Ainda parei por momentos no Flamingo, mas não vi o Johnny Depp do “Delírio em Las Vegas” (Fear and Loathing in Las Vegas).

Las Vegas Strip
Las Vegas Strip

Porque o iria ver? Por que razão pensei num impossível? Porque estava em Las Vegas e todo aquele ambiente que se respira, sente-se e vive-se, aquela paisagem vibrante de luzes e cores, o som constante feito música ininterrupta, a magia que a cidade carrega na sua fama, consegue de certa forma, transportar-nos para o imaginário do tanto que dela já vimos e conhecemos. Os mais incautos irão perder-se aqui, não tenho dúvidas. Aqueles que se deixarem arrastar pelos convites constantes da loucura, irão fraquejar rapidamente e deixarão de ser eles a consumir a cidade para ser a cidade consumi-los, a Fabulous Las Vegas!

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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