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Chão firme

A mão por cima das páginas do livro aberto era um gesto contra o vento. Rajadas espontâneas ameaçavam virar a página antes de a terminar de ler. Ao mesmo tempo procurava abstrair-se daquela luta e transportar-se para a trama que seguia com entusiasmo silencioso. A areia levanta-se e sacudia-lhe a pele clara. Aquele dia de sol estava longe de ser o ideal, mas não a esmorecia. Uma mancha vermelha na pele, a meio das costas, denunciava o ponto onde não chegara com as mãos. Noutros pontos a camada de protector solar tornava-se demasiado evidente quando interrompia o brilho da pele sob a força do sol. Madeixas loiras balançavam em inocência, protegidas por um chapéu de palha que ainda que de aba pequena, conseguia o sacrilégio de esconder o seu olhar. Os lábios falavam ao ritmo das palavras consumidas.

O tempo passava e as páginas também. Arrumou o livro, esticou as pontas da toalha acrescentando um pouco mais de espaço para si naquela praia. Deixou-se rebolar  na utopia de que o sol lhe pintasse a pele de vida por igual em todo o corpo. Dois dedos puxaram o chapéu até com ele proteger os olhos. Deixou-se ficar soterrada nas ondas de maresia quente, imersa numa profusão de pensamentos que deixavam qualquer um sem saber o que sentir. Para quem a via transmitia paz e serenidade. Mas dentro de si havia uma guerra a acontecer.

Os lábios brilhavam a vitalidade da sua paixão pela vida. Na ausência do olhar o carisma de uma lição aprendida que a catapultou para a solidão que agora trespassava a sua vida. Levantou-se e tirou o chapéu. Guardou-o na mala e soltou o cabelo loiro atirando-o para trás de si num gesto de plena sensualidade espontânea. Caminhou até à água em passo lentos, observando como os pés se enterravam na areia. Deixou-se alcançar por uma fina folha de água que se apressou a cumprimentá-la. O frio parou-a por uns instantes em que contemplou o mar diante de si. Hesitou nos passos seguintes temendo o abraço da espuma das ondas. Por fim mergulhou e sentiu-se revitalizada. Voltou à toalha e deixou-se imóvel, o olhar de novo perdido dentro de si.

Pouco mais de uma hora após ter chegado. Pegou nas suas coisas e caminhou. Os pés queixavam-se da areia quente e dos pequenos estilhaços de canas,  cochas e pedrinhas que ia pisando. Lamentou-se por ter desaprendido a saber o que oferecia o chão que pisava. Ali na areia seguia um exercício de adivinhação igual ao que seguia constantemente na sua vida. Hesitava e temia o que a esperava, mesmo sabendo muitas fezes o que era. Só que nem isso lhe permitia dar conforto nas passadas que empurravam a sua vida. Almejava chão firme, sonhava com a segurança dada pelo segundo em que confirmamos que a textura do chão era aquela que nos deu razão para o pisar. E nesse conforto caminhava confiante desafiando os ventos que a procuravam desequilibrar. Na areia macia temia cada passo e sonhava com a firmeza que sentiu quando pisou as pedras. Sentiu-se segura. Calçou-se e caminhou, içando o rosto e sorrindo ao mundo.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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