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“Celulazinhas cinzentas” geniais: cinco razões para ler Agatha Christie

Antigamente, eu devorava livros. Nesse tempo, tinha interesse por novos autores e novas estórias, fixava enredos e nomes de personagens. Quando era preciso apresentar um livro nas aulas de Português, o difícil era escolher. No entanto, depois, com a universidade a par e passo com artigos científicos, listas de leituras obrigatórias e cânones para serem fixados, lá se foi o tempo para alimentar o interesse.

A dada altura, perguntei-me há quanto tempo não me sentava a ler um livro distante da realidade, há quanto tempo não me embrenhava em tramas recheadas de significado e aventuras bem pensadas. Foi então que, a meio de umas férias em que me obriguei a descansar, entrei na biblioteca não como obrigação académica, mas sim como puro recreio. Ao acaso, caminhei na direcção da secção de policiais. Ao acaso, olhei para as estantes destinadas a Agatha Christie. Ao acaso, escolhi um livro da Rainha do Crime. E foi assim que, por acaso, me reencontrei com a literatura e com um mundo de abstração que há muito tinha esquecido.

Eu, que pensava nem gostar de policiais, fui cativada por cinco razões:

Mistério até à última página – Em cada policial de Agatha Christie, tanto a personagem que investiga o caso como o leitor têm acesso exactamente aos mesmos detalhes, indícios e conversas. Contudo, enquanto para o leitor os pormenores não passam de singularidades da narrativa, quem investiga tem um olhar atento sobre associações que fazem todo o sentido, mas que passam despercebidas a quem lê. Nestes livros, tudo tem um propósito: um colar pode ser usado não como ornamento, mas sim como meio para ocultar uma cicatriz; o aquecimento central pode estar ligado não para tornar o espaço mais agradável, mas sim para evitar que a luz de uma lareira revele a cara do assassino. E mais: podemos chegar ao cúmulo de, na última página, perceber que o criminoso serviu de narrador desde o início!

Uso apenas as celulazinhas cinzentas. A sorte deixo-a para os outros.

Personagens marcantes – Quem nunca ouviu falar da simpática e subvalorizada Miss Marple? Ou quem nunca deparou com representações do bigode perfeito de Poirot? O investigador excêntrico, que se gaba constantemente do poder das suas “celulazinhas cinzentas”, desvenda os casos mais complicados que Christie engrenou. Surgindo muitas vezes acompanhado pelo Capitão Arthur Hastings, a dupla relembra o par Sherlock Holmes e Dr. John Watson, que tanto fascinava Agatha Christie. Mas o facto não faz com que a escritora caia em falta de originalidade. Na verdade, Hastings é estrategicamente posicionado na trama para dar voz aos pensamentos do leitor. (In)felizmente, quando nós e o Capitão achamos que tudo se afigura claro, Christie relembra um pormenor que desfaz as convicções nada certeiras. Ou, então, Poirot lança para o ar uma afirmação misteriosa que põe em questão a solidez do nosso puzzle mental…

Miss Marple, uma velhinha sempre pronta para resolver um bom mistério

Frases que ficam no ouvido – “Uso apenas as celulazinhas cinzentas. A sorte deixo-a para os outros” viria a ser uma das expressões mais marcantes de Poirot. Todavia, a genialidade de Christie não se revela apenas numa narração meticulosa, na ironia dos diálogos ou na extravagância do enredo. Inspirada pelo desenvolvimento da psicologia comportamental, fala-nos, sobretudo, do carácter humano através do deslindar do perfil dos criminosos. Frequentemente, a escritora faz-nos pensar sobre o que nos move, sobre o que nos apaixona. Isto, porque Poirot, por trás de toda a vaidade, é um sábio conselheiro: “Então não sabe, meu caro, que cada um de nós é um negro mistério, um labirinto de paixões, desejos e talentos antagónicos? Mais oui, c’est vrai. Vive-se tirando conclusões… que noventa por cento das vezes estão erradas”, diz ele. Numa declaração, a mesma personagem esclarece a essência do mistério, ao afirmar que “a imaginação é um óptimo servo e um péssimo mestre. A explicação mais simples é sempre a correta.” Para confirmar o poder das ideias do belga, em 2015, a editora Asa juntou citações do inspetor num livro intitulado “Pequenas Células Cinzentas: Citações de Poirot”.

Hercule Poirot, um dos personagens mais famosos que Agatha Christie criou

Mais do que uma autora de policiais – Sob o pseudónimo Mary Westmacott, Agatha Christie lançou-se também no campo dos romances. Escreveu seis livros deste género, mas engana-se quem pensa que se tratam de puras histórias de amor ao estilo da fabulosa Jane Austen (aliás, uma das autoras que inspirou Agatha). Christie cruza as histórias de vida de várias personagens, mostra-nos pensamentos macabros de inveja e ciúme, olha para a religião e para a educação. Ou seja, também neste estilo se debruça sobre a sociedade, os seus costumes e a nossa pretensa humanidade. Agatha escreve, no fundo, sobre o que somos e o que fingimos ser.

Os números falam por si – Cerca de 70 policiais, 163 contos, poemas, autobiografias e romances fazem parte do espólio literário que Agatha Christie nos deixou. Os números valem o que valem e claro que os livros de crime fazem parte da cultura de massas, mas nem por isso este legado deixa de surpreender. Os factos tornam-se ainda mais relevantes quando a eles somamos as traduções das obras em mais de 100 línguas. Além disso, a escritora vendeu mais de mil milhões de exemplares, sendo apenas ultrapassada pela Bíblia e por Shakespeare.

A imaginação é um óptimo servo e um péssimo mestre.

Com apenas dois anos de educação escolar, nos quais aprendeu piano e canto, Agatha Christie tornou-se uma das maiores escritoras de mistério. Viria a morrer aos 86 anos, em 1976, com um reinado bem consolidado. E, tal como disse um dia a revista “Times”, ainda bem que a escritora usou a genialidade para a arte. É que a sua capacidade de inventar crimes é assustadora, de tão humana que é!

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Florbela Caetano

Gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Gosto de pensar que os dois nos podem ajudar a viver num mundo melhor. Gosto de sentir que informar pode repor a serenidade no meio de caos. Deixo-me fascinar com a imagem e perco-me na escrita. Entre todas as alianças de universos ao nosso dispor, quero dizer as palavras e criar imagens com o som.

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