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Celebremos a precariedade

Ao contrário do que muito dizem, os números – por si – só não são frios e infalíveis. Sempre que analisamos um qualquer número é deveras importante perceber a sua razão sob pena de acabarmos por retirar uma interpretação que em nada tem a ver com a realidade. E, acredite-se ou não, viver e governar sob uma verdade distorcida pelos números é péssimo. E de nada serve recorrer-se ao brocado “uma mentira contada muitas vezes torna-se verdade” porque a “verdade é como azeite, vem sempre ao de cima”.

Ora, isto tudo a respeito da taxa de desemprego em Portugal, taxa esta que tem vindo a descer nos últimos anos e que tanta felicidade parece provocar no anterior e actual elenco governativo.

Facto: os números não mentem e como tal é uma verdade absoluta que o desemprego em Portugal tem vindo a diminuir. Mas esta diminuição é feita à custa de quê? Da criação de emprego, obviamente. Mas de que emprego estamos falar? Do emprego precário, algo que os números não mostram porque a sua natureza, por si só, não o permite. Dito de outra forma; os Governos portugueses e União Europeia tem-se mostrado deveras satisfeitos com a descida da taxa de desemprego em Portugal, descida esta que é feita à custa da precariedade.

Penso eu, provavelmente na minha clara inocência, que um qualquer Governo (o da União Europeia inclusive) deveria procurar sempre o melhor para os seus cidadãos. Se não o fizer estará, aos poucos, a destruir a sua própria existência. Tal é válido para as Democracias como um qualquer outro modo de governação.

Temos, portanto, que a precariedade é uma séria ameaça para qualquer Governo. E de nada serve virem para a Praça Pública alguns dos ditos “experts” da economia defender a precariedade, porque não existirá país algum no nosso planeta que esteja bem graças à precariedade. Que eu saiba o Bangladesh (por exemplo) não é uma nação próspera, não obstante a precariedade marcar uma invariável presença em toda a sua sociedade. E que eu saiba, nem Portugal nem um qualquer outro Estado-membro da União Europeia deseja algum dia vir a ser igual ao Bangladesh. Inclusive até já tivemos a adesão à União Europeia de países como a Croácia que quer combater o flagelo do desemprego através da progressão económica que esta adesão provoca nos anos seguintes à sua efectivação.

Ora não se percebe, então, a enorme felicidade dos nossos políticos sempre que o Instituto Nacional de Estatística e o EUROSTAT revelam os números de uma Taxa de Desemprego que tem estado em clara baixa nos últimos anos. Isto a não ser que tanto a União Europeia como os Governos portugueses vivam numa espécie de “matrix” onde a precariedade é algo que faz parte do sistema.

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Pedro Silva

“É preciso provocar sistematicamente confusão. Isso promove a criatividade. Tudo aquilo que é contraditório gera vida.” (Salvador Dalí)

Crítico, opinativo e com mente aberta. É isto que caracteriza um Cronista.

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