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Casamento, rotina e a série televisiva The Affair

The Affair é uma série televisiva norte-americana, retratando a experiência extraconjugal de Noah Solloway e Alison Bailey, numa pacata cidade turística de Long Island. Lançada na segunda metade de 2014 e já a transmitir a terceira temporada, é composta por uma narrativa dualista contada por cada um dos amantes, mostrando a perspectiva em que cada um deles via e percebia o seu envolvimento, ao mesmo tempo que provoca no telespectador um intrigante conflito sobre os limites normativos de uma relação conjugal e as possibilidades abertas por uma relação extraconjugal alternativa.

Já dizia o escritor português Júlio Dantas que “o homem é um animal essencialmente infiel”. Henry Mencken, jornalista e crítico social norte-americano, foi ainda mais longe, ao dizer que “o adultério é a democracia aplicada ao amor”. Estas duas frases, com quase um século de vida e aparentemente superficiais e radicais, encerram consigo tantas reflexões sobre as relações conjugais e as suas mais diversificadas nuances. As suas ramificações filosóficas perduram até aos nossos tempos. É o casamento (e o amor e o sexo) uma instituição comportamental com intervalos fechados de exclusividade? É o casamento (e o amor e o sexo) um contrato bipartido sem prazo de validade? Muitos diriam que sim, provavelmente induzidos ou inspirados por um sistema de valores e heranças religiosas, culturais ou sociais. Uma inexpressiva minoria, cada vez mais crescente, diria que não.

Afinal, quantas vezes as convenções sociais e a entediante vida que os seus seguidistas suportam desembocam invariavelmente num oceano de frustrações, ressentimentos e infelicidade? Com a estonteante velocidade com que tudo acontece no século XXI, da tecnologia às próprias relações humanas, porquê é que as pessoas ainda se atrelam à princípios e práticas de certa forma desactualizadas ou descontextualizadas? E, se tais códigos de conduta têm sido desafiados, de uma forma cada vez mais frequente e dentro de lógicas emancipatórias, o que é que podemos esperar dos seus resultados sobre conceitos institucionalizados sobre o casamento, a família, o amor e o sexo?

The Affair é uma espécie de justiça poética aos que não aceitam mais deixar-se atrofiar pelas amarras do socialmente correto, principalmente quando sentem que há sempre uma alternativa à degeneração da alma e da libido em que a rotina dos relacionamentos geralmente se caracteriza. Mais do que um convite à promiscuidade, é uma bola de oxigénio lançada ao que de mais significativo temos todos nós, enquanto humanos: a faculdade de viver e de se sentir vivo. A trama da série gira em torno de Noah Solloway, um professor de ensino público e dedicado chefe de família que, durante as suas férias de verão em casa dos sogros, envolve-se num caso amoroso com Alison Bailey, uma mulher casada que divide a sua vida como empregada de mesa num dos restaurantes da sua pacata cidade turística e o stress pós-falecimento do seu filho de 4 anos. Altamente recomendada para quem procura propostas alternativas ao cada vez mais formatado mundo das séries televisivas, onde as temáticas sobre a violência, super-heróis e efeitos especiais ganham notoriedade sobre os assuntos mais mundanos da nossa condição de pessoas normais e falíveis, The Affair é um escape realístico muito bem conseguido.

Com efeito, o mais fascinante em todo o seu enredo, fora a envolvente beleza fotográfica e a idílica serenidade da trilha sonora que nos transporta em torno da história, é a dualidade analítica em que a relação é percebida e recontada por cada um dos parceiros. A principal lição que fica na retina e na sensibilidade do telespectador, dentre outras, é como esse eterno conflito entre o certo e o errado, entre o conveniente e o instintivo, ou até entre a regra e o desvio, revela a volátil condição da existência humana: diante de uma oportunidade de vivermos uma outra vida muito por fora das nossas entediantes zonas de conforto perdemos sempre quando não arriscamos e perdemos sempre que arriscamos, do mesmo modo que não perdemos nada por arriscar e arriscamo-nos sempre mesmo que isso signifique perder tudo.

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